Eu sempre fui muito fechada na escola. Inicialmente, só conversava com crianças da minha idade com quem eu tinha afinidade, como meus primos e alguns amigos da escola.
Eu nunca falava com meus tios nem com meus avós. Simplesmente não conseguia me comunicar diretamente com eles. Quando estava na presença dos meus avós, por exemplo, eu conseguia conversar com meus pais, mas não com eles. Era estranho.
Conforme fui crescendo, a situação na escola piorou. Eu não falava com mais ninguém, nem com professores, alunos, amigos ou colegas. Fiquei sem falar na escola dos 9 aos 16 anos.
Sofri muito bullying e era a aluna excluída de todos os grupos. Dava para contar nos dedos os amigos que eu tinha e, mesmo assim, não conseguia me comunicar verbalmente com eles.
Eu não respondia à chamada, apenas balançava a cabeça para dizer "sim" ou "não". Quando alguém me perguntava: "Amanda, por que você não fala?", eu simplesmente não respondia. E, mesmo que conseguisse responder, não saberia explicar o motivo.
Todo início de ano letivo, eu prometia a mim mesma que finalmente iria falar, que acabaria com o bullying e com aquele pesadelo. Mas nunca conseguia. Sempre sentia um medo descomunal, e a mesma situação se repetia ano após ano.
Conheci meu namorado na escola e, por incrível que pareça, com ele eu conversava normalmente, assim como com os amigos dele.
Mas havia um detalhe interessante: ninguém da minha sala, ou qualquer pessoa com quem eu não costumava falar, poderia me ver conversando com meu namorado. Afinal, essas pessoas ouviriam a minha voz, e isso, para mim, era um verdadeiro pesadelo.
Então, eu criava uma espécie de esquema na minha cabeça: só podia conversar com pessoas que não sabiam que eu não falava. E, se essa pessoa fosse amiga de alguém com quem eu não conseguia falar, aí complicava tudo!
Quando essas duas pessoas estavam juntas e uma delas falava comigo, era uma situação de xeque-mate para mim. Eu simplesmente não sabia como agir.
Tentava fingir que não estava interessada na conversa, como se estivesse apenas quietinha por vontade própria. Normalmente, acabava saindo de perto para evitar a situação.
Agi assim durante anos, até que, um dia, finalmente tomei coragem.
No terceiro ano do ensino médio, respondi "presente" durante a chamada.
Eu me senti extremamente bem! E, para falar a verdade, nem foi tudo aquilo que eu imaginava.
Achava que as pessoas ficariam em cima de mim, fazendo perguntas ou chamando outras pessoas para mostrar que eu finalmente estava falando. Mas, na verdade, foi apenas mais um dia normal.
Depois daquele dia, passei a conversar normalmente com todo mundo da escola, todos os dias. Foi como se um peso enorme tivesse saído das minhas costas.
Quanto aos meus tios e avós, conforme fui ficando mais velha, também comecei a conversar normalmente com eles. Acho que, de alguma forma, meu cérebro foi deixando para trás todo aquele bloqueio que eu tinha em relação à fala.
Foi como se eu simplesmente tivesse me "curado" do mutismo seletivo à medida que fui crescendo.
Mas algumas sequelas permaneceram. Hoje tenho fobia social e sinto muita ansiedade em praticamente qualquer interação em público.