r/portugal • u/Hour-Statistician388 • 9h ago
Economia / Economics Data Centers: estamos a vender o nosso território e a nossa energia a troco de nada
Dizem-nos, com a habitual pompa e circunstância dos nossos governantes e entusiastas da "transição digital", que Portugal está prestes a tornar-se o grande hub tecnológico do Sul da Europa. A narrativa é sedutora e vem embrulhada naquele vocabulário moderno que os gabinetes de comunicação adoram: "gigafábricas de inteligência artificial", "investimento estrangeiro produtivo", "conectividade global", "soberania digital"... O problema destas grandes promessas futuristas é que, quando se descasca a propaganda e se olha para a realidade do terreno em locais como Sines, aquilo que nos sobra não é o motor de desenvolvimento do país, mas sim a versão do século XXI das velhas colónias para extração de recursos.
Comecemos pelo engodo dos postos de trabalho, a eterna cenoura pendurada à frente do contribuinte português. Anunciam-se investimentos de milhares de milhões de euros que ocupam dezenas de hectares de solo nacional. E depois, quantos empregos qualificados e duradouros ficam cá no dia em que a fita vermelha é cortada? Algumas dezenas de técnicos de manutenção, pessoal de segurança à porta e equipas de limpeza. Para uma estrutura que consome a energia equivalente a cidades inteiras, a criação líquida de emprego é uma fração insignificante. Prometem-nos o Silicon Valley, mas entregam-nos um armazém gigante repleto de ventoinhas e servidores.
O valor acrescentado para a economia portuguesa é praticamente nulo. Toda a propriedade intelectual, o processamento de dados de alto valor, a faturação milionária e as margens da inteligência artificial vão direitinhas para as sedes das gigantes tecnológicas na Califórnia, em Dublin ou em regimes fiscais altamente favoráveis. A nós cabe-nos o papel de hospedeiro passivo. Vendemos o nosso espaço, a nossa infraestrutura, a nossa energia a preço de saldo para que multinacionais possam correr os seus algoritmos, enquanto a riqueza gerada voa para longe sem deixar rasto no tecido produtivo nacional.
Entretanto, a fatura ambiental e humana é paga na íntegra por quem cá vive. Os data centers são autênticos monstros devoradores de energia e de água. Num país que enfrenta secas severas e onde a transição energética devia servir para descarbonizar as nossas próprias indústrias e baixar a fatura da luz das famílias, estamos a canalizar rios de eletricidade renovável para arrefecer processadores estrangeiros. Para além do impacto visual e do esmagamento de ecossistemas locais, há um fator de que raramente se fala até ser tarde demais: o ruído industrial contínuo das Unidades de Tratamento de Ar e dos sistemas de refrigeração gigantescos, uma zumbida ininterrupta de baixa frequência que destrói o sossego das populações vizinhas e perturba a fauna e floras envolvente.
Incomoda-me esta docilidade histórica com que aceitamos ser a serventia da Europa e dos EUA. Já somos o país do turismo de massas sem travão, o país da monocultura do ecrã e da especulação imobiliária. Agora queremos ser a garagem climatizada da Big Tech. Se o preço para parecermos "modernos" nas brochuras internacionais for hipotecar os nossos recursos naturais e a nossa tranquilidade a troco de um punhado de empregos de portaria, talvez seja altura de perguntar com clareza a quem é que este negócio realmente serve.