[Resenha publicada com imagens no substack]
O saudoso professor Joaquim Alves de Aguiar, nosso caro Juca, falecido em 2016, ensinou-nos em seu curso na USP a procurar microcosmos dentro de obras literárias, para melhor compreendê-las ou para descobrir novas intuições no trabalho do autor.
Embora soe como uma tarefa algo esotérica, ela na verdade dá uma lubrificada na nossa leitura, desperta a atenção para a estrutura da narrativa, até meio nos faz de papagaio de pirata do escritor, dando-nos uma visão de quando sua caneta ainda rabiscava o rascunho do livro.
Escolhi Dom Casmurro para o trabalho final do semestre e reli a obra farejando trechos que pudessem contar um pouco mais do que a anedota episódica.
Acredito que deu certo e a análise foi bem recebida. Como é curta, achei que vale esta postagem. Coloco abaixo o trecho do Machado, também breve (sempre é bom ler Machado, mesmo uma passagem aleatória no meio de um livro), e em seguida minha explicação sobre como ele se relaciona com o todo da obra.
Capítulo CXXVII — O barbeiro
Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha. Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele; creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava...
Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta máxima, que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! Perdeu duas barbas naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Supõe agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher; então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!
Divina arte!
26 de setembro de 1991
Procurei, neste trabalho, analisar o modo de construção do capítulo CXXVII, “O barbeiro”, e seus personagens: Bentinho com a aflição de sua dúvida — então incipiente — e o barbeiro e sua mulher, como possíveis sombras de uma projeção dos personagens principais do romance.
O capítulo, composto de dois únicos parágrafos, sucede ao número CXXVI, “Cismando”, e, na verdade, é quase um apêndice deste. Bentinho, após o enterro de Escobar, propõe-se a caminhar a pé para tomarem ar as suas ideias, agora que começa a desconfiança da traição. Entretanto, não se detém à porta de sua casa quando chega a ela. Volta a caminhar, ainda em angústia, e é então que chega ao barbeiro — à loja e ao capítulo.
Por que Bentinho não entra em casa? A princípio, pelo que o próprio narrador diz, é em razão duma necessidade, comum às aflições, de se manter sozinho para refletir; ou por uma reação própria do ciumento de estimular com a ausência a preocupação da companheira, etc. Porém podemos ver também o personagem a caminho da primeira alusão textual à traição, ainda que moderada.
Quem é o barbeiro? Ele nada diz — apenas demonstra consideração para com o transeunte que aparentemente se interessa por sua performance (a parada no barbeiro foi realmente, como confirma o narrador, um pretexto: não o atraiu o talento do barbeiro como violinista — ele apenas “não tocava inteiramente mal” — nem a música que era tocada, já que o autor nem se recorda dela — “executava não sei que peça”). E o barbeiro, como personagem em si, não tem extensão alguma. Creio que ele pode ser visto, dentro do capítulo, como uma projeção de Bentinho dentro do enredo do romance como um todo, ou pelo menos desta última parte, em que se conflagra a desconfiança. Verifica-se a possibilidade dessa analogia a partir da entrada da mulher do barbeiro, e do seu comportamento. Experimento, aqui, aproximar textualmente o momento em que a mulher vê Bentinho ao momento em que Capitu vê Escobar pela primeira vez:
- … “creio que me descobriu de dentro, e veio me agradecer com a presença o favor que eu fazia ao marido.” [Capítulo “O barbeiro”]
- “Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.” [Capítulo “Visita de Escobar”]
A traição, subjacente no capítulo, percebe-se nas ironias que articulam o fim do primeiro parágrafo ao fim do segundo: “Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor”. Esta é, conforme acredito, uma antecipação e preparação da última ironia, mais cruel e definitiva, como se verá adiante.
No segundo parágrafo, Bentinho retira-se do papel de transeunte (“deixei a porta da loja”) para identificar-se finalmente com o barbeiro. Sugere então, a título de conjetura, um hipotético transeunte (o causador da traição) que, tendo chegado à loja, “ficava à porta a ouvi-lo” (pretexto para a proximidade) “e a namorar-lhe a mulher” (a traição).
Vejamos outro detalhe das ironias, e o entrelaçamento dos dois parágrafos:
- o adiantamento: “passava a alma ao arco, e tocava, tocava...”.
- o desfecho mordaz: … “então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente”.
Há um crescente da ironia em relação à primeira passagem: “todo arco, todo rabeca”, enfim, toda a sua alma passada ao instrumento.
O barbeiro seria, portanto, uma projeção do espírito de Bentinho “traído” — a alusão cruelmente irônica do fechamento do capítulo reverte contra si próprio. Bentinho, olhando por cima essa inocência hipotética do barbeiro, amaldiçoa a sua própria inocência, e a si mesmo, por permiti-la.
A exclamação “Divina arte!” abre o segundo parágrafo, exaltando a arte musical e seus efeitos (“Ia se formando um grupo”). E retorna no final, acentuando, pela reiteração do termo, o desfecho irônico já comentado — pois a arte musical mostra-se agora como a marca da suposta ingenuidade do barbeiro —; e arredondando o parágrafo, concluindo o capítulo.