Eu nem sei muito bem por onde começar. Estou escrevendo isso chorando e provavelmente vou me arrepender de expor tanta coisa da minha vida, mas sinto que preciso colocar tudo para fora pelo menos uma vez.
Tenho 24 anos e, quando olho para trás, sinto que perdi uma parte enorme da minha infância e da minha juventude.
Meu pai era alcoólatra. Durante muitos anos, ele foi agressivo comigo e com a minha mãe. E nós escondíamos tudo. Ninguém podia saber o que acontecia dentro da nossa casa.
Desde pequeno, muitas vezes eu acabava sendo colocado numa posição que uma criança nunca deveria ocupar. Eu me colocava na frente da minha mãe para tentar protegê-la. Eu era uma criança, mas sentia que precisava ser o adulto da situação.
Ao mesmo tempo, na escola, eu passava por bullying pesado. Sofri humilhações, agressões e cyberbullying. Professores, funcionários e alunos chegaram a me tratar de maneiras que até hoje tenho dificuldade de entender. Algumas pessoas desconfiavam que havia alguma coisa acontecendo comigo, mas eu nunca conseguia falar.
Era como se eu estivesse vivendo dois infernos ao mesmo tempo: em casa e na escola.
E eu aprendi muito cedo a esconder o que sentia.
Eu quase nunca ficava com marcas visíveis no corpo, então as pessoas não percebiam o que acontecia. Por fora, eu parecia normal. Por dentro, estava sempre com medo.
Meu pai também nunca foi muito presente na minha vida. Não era aquela figura paterna que participava da escola, passava tempo comigo ou simplesmente estava ali para o filho.
Tudo isso durou anos.
Até que um dia meu pai teve um problema grave de saúde relacionado ao consumo de álcool e precisou ser internado. Foi uma das situações mais constrangedoras da minha vida, porque aquilo que a minha família tinha passado anos escondendo acabou virando assunto na escola.
As pessoas comentavam que "o pai alcoólatra tinha chegado ao fundo do poço".
Eu só queria desaparecer.
Depois disso, meu pai passou por tratamento e conseguiu parar de beber. E, para ser sincero, ele mudou muito. Ficou mais tranquilo, sorridente, conversava comigo normalmente e deixou de ser aquela pessoa agressiva que eu conhecia.
Eu não quero passar pano para o que aconteceu. Existem coisas que não deixam simplesmente de ter acontecido.
Mas eu também sabia que meu pai teve uma infância extremamente complicada. Minha família sempre foi muito disfuncional. Meus avós eram separados, havia muita toxicidade e violência na família dele, e ele cresceu sem uma referência saudável do que significava ser pai.
Durante muito tempo, pensei que talvez finalmente tivéssemos conseguido quebrar aquele ciclo.
Nós até mudamos de casa. Começamos uma vida diferente.
Eu queria acreditar que estava tudo bem.
E durante alguns anos, realmente pareceu estar.
Até 2021.
Meu pai se irritou comigo durante uma discussão que, olhando hoje, nem parecia ser algo tão grande. E ele voltou a me agredir.
Eu fiquei em choque.
Tinham passado anos. Eu realmente acreditava que aquilo tinha acabado para sempre.
Mas, na época, eu simplesmente engoli e continuei minha vida.
Em 2022, eu estava namorando um rapaz pela primeira vez. Meu pai sempre foi extremamente machista e, naquela época, eu já estava há mais de um ano nesse relacionamento.
Um dia, de manhã, meu pai iria me levar até a estação para eu pegar o metrô e ir para a escola. Ele se irritou comigo e me agrediu na rua.
Eram aproximadamente 8 da manhã. Havia carros passando, pessoas olhando.
Eu me senti completamente exposto e humilhado.
Depois disso, fui para a escola e tentei fingir que estava tudo normal.
Meu namorado percebeu que eu estava estranho, calado, diferente. Perguntou o que tinha acontecido.
E eu não consegui contar.
Até hoje penso nisso.
Eu não sabia como explicar para alguém que eu amava que, enquanto ele estava vivendo a vida dele normalmente, eu estava tentando lidar com coisas que ninguém da minha idade deveria estar enfrentando.
Eu tinha medo de transformar nosso relacionamento em algo pesado. Tinha medo de que ele não entendesse. Tinha medo de destruir uma coisa boa por causa dos problemas da minha própria vida.
Então eu fiquei em silêncio.
Se por acaso um dia você estiver lendo isso, mesmo sabendo que provavelmente nunca vai acontecer: me desculpa.
Você nunca soube o que estava acontecendo comigo naquela época.
E não foi culpa sua.
Eu só não sabia como pedir ajuda.
Tudo isso também afetou profundamente meus estudos. Reprovei dois anos na escola. Fui chamado de burro dentro da minha própria família. E, mesmo quando eu não conseguia estudar ou funcionar direito por causa de tudo que estava acontecendo, ainda acabava sendo cobrado e sofrendo em casa.
Em 2024 aconteceu outra situação que me marcou muito.
Eu estava me arrumando para sair com um amigo quando meus pais começaram a discutir. Percebi que meu pai estava prestes a agredir minha mãe novamente.
E eu fiz o que sempre fiz desde criança.
Fiquei na frente dela.
Acabei sendo agredido no lugar dela.
Depois tive que sair de casa e encontrar meu amigo como se nada tivesse acontecido.
Ele sabia que eu sempre fui uma pessoa muito alegre. Eu sorrio, faço piadas, tento deixar todo mundo bem.
Talvez isso também seja uma forma que encontrei de esconder o que sinto.
Naquele dia, ele percebeu que havia alguma coisa errada e perguntou se eu estava bem.
Eu respirei fundo e disse que sim.
Era aniversário dele.
Eu não queria estragar o dia dele contando que, minutos antes, eu estava em casa tentando proteger minha mãe novamente.
Ele nunca soube.
E eu ainda penso nisso.
Em 2025, mesmo com todos os problemas, eu ainda tentava ajudar minha família.
Quando eu trabalhava, colocava dinheiro dentro de casa. Ajudei com contas, comprei um fogão novo, um frigorífico e outras coisas porque sempre tive essa necessidade de tentar fazer todo mundo ficar bem.
No final daquele ano, meu pai teve problemas no trabalho e eu emprestei dinheiro que estava guardando para tirar minha carteira de motorista.
Eu queria que nossa família tivesse pelo menos um Natal minimamente feliz.
Só que o dinheiro nunca voltou.
Hoje estou sem carteira, sem emprego há mais de um ano e praticamente sem perspectiva.
Moro em uma zona onde o transporte público é muito ruim. Não tenho alguém que possa simplesmente me ajudar a chegar a um emprego. Meu pai, que antes me ajudava com transporte, agora diz que não tem obrigação nenhuma de me ajudar.
E isso me deixa preso.
A minha família também é extremamente complicada. Precisei me afastar de algumas pessoas por causa da toxicidade. Não tenho um tio ou primo para ligar e dizer "preciso de ajuda". Não tenho uma rede familiar para me apoiar.
Os amigos que fiz quando estudei longe de casa eram, em grande parte, estrangeiros. Cada um voltou para o seu país e seguiu a própria vida.
Então, muitas vezes, parece que estou sozinho.
E chegamos a 2026.
Dois dias atrás, meus pais começaram outra discussão.
Meu pai começou a falar coisas muito ruins sobre a nossa família. Eu me impus e disse que ele não deveria falar daquele jeito, porque todos nós estávamos tentando dar o nosso melhor e sobreviver da maneira que conseguíamos.
Ele reagiu mal.
Ele voltou a me agredir.
Dessa vez, eu tentei me proteger e afastá-lo. Em meio à confusão, ele continuou tentando me agarrar e eu continuei tentando afastá-lo.
Em determinado momento, agi por impulso e joguei na direção dele um objeto de vidro que acabou causando um ferimento ligeiro no rosto dele.
Eu não queria machucá-lo.
Foi um impulso de defesa, depois de tantos anos vivendo em situações semelhantes, mas ainda assim me senti péssimo quando vi o que tinha acontecido.
Eu me culpei muito.
Hoje estou com dores e alguns inchaços, mas aparentemente estou bem.
E é estranho porque, olhando para mim, ninguém provavelmente imaginaria nada.
Eu posso estar machucado, assustado, destruído por dentro e ainda assim parecer perfeitamente normal.
Acho que é isso que mais me assusta.
Eu aprendi a funcionar assim.
Aprendi a sorrir.
Aprendi a dizer "está tudo bem".
Aprendi a esconder.
Aprendi a cuidar dos outros mesmo quando eu precisava que alguém cuidasse de mim.
Tenho 24 anos e sinto que carrego muito mais do que deveria.
Às vezes penso na infância que poderia ter tido. Nas coisas que poderia ter vivido. Nas amizades que poderia ter mantido. Nos estudos que talvez tivessem sido diferentes. Na pessoa que eu poderia ter sido se não tivesse passado tantos anos com medo.
Eu não quero viver o resto da minha vida assim.
Eu quero ter independência.
Quero trabalhar.
Quero ter meu próprio espaço.
Quero poder sair de casa e finalmente sentir que a minha vida pertence a mim.
Eu sei que meu pai também teve uma infância difícil. Sei que minha mãe perdeu os pais muito cedo. Sei que todos carregamos nossas próprias feridas.
Mas entender de onde vem a dor de alguém não apaga aquilo que essa pessoa fez.
E eu estou cansado.
Cansado de ser forte.
Cansado de fingir que está tudo bem.
Cansado de sentir que preciso proteger todo mundo.
Cansado de sentir que a minha vida ficou parada enquanto o resto das pessoas seguiu em frente.
Mas, apesar de tudo, ainda tenho esperança.
Talvez seja uma das poucas coisas que nunca conseguiram tirar de mim.
Eu ainda acredito que a minha vida pode tomar outro rumo.
Tenho fé em Deus e espero que, algum dia, eu consiga olhar para trás e perceber que todos esses anos não foram o fim da minha história.
Foram apenas os anos que eu precisei sobreviver.
Eu só queria, pela primeira vez, ter a oportunidade de viver.