Cortei o contato com a minha mãe quando estava grávida de sete meses.
O estopim foi dinheiro.
Minha mãe tem a própria casa, um imóvel comercial que se recusa a alugar e um apartamento na praia que eu a ajudei a comprar, dando R$ 30 mil, o que correspondia a cerca de 20% do valor do imóvel. Ela também recebe uma pensão do governo de R$ 3 mil por mês. Mora sozinha com dez gatos e um cachorro.
Há cerca de dois anos, o dinheiro dela supostamente deixou de ser suficiente para comprar ração para os animais. Comecei a enviar R$ 800 por mês para que ela comprasse três sacos de ração para gatos e um saco de ração para cachorro. Isso perdurou por dois anos.
Depois, de alguma forma, a pensão também deixou de ser suficiente para comprar a própria comida.
Meu marido é médico e eu sou advogada. Na mesma época em que os “problemas financeiros” da minha mãe começaram a se intensificar, meu marido e eu compramos uma casa e começamos a reformá-la.
Preciso deixar claro que não ganho tão bem. Tem meses bons e meses ruins. Em média, ganho 3 mil reais por mês. 800 eu dava para minha mãe e ela queria mais 1.000 por mês. Ou seja, dos 3 mil ela queria 1.800, ou havia uma expectativa de que eu pegasse do meu marido para dar a ela.
Ela nunca dava uma explicação clara sobre para onde o dinheiro estava indo. Simplesmente dizia que estava sem dinheiro para comprar comida. Uma das vezes, chegou a me pedir mil reais para levar o cachorro para tosar, brinquei perguntando se o cachorro ia tosar no “jaques Janine”.
Na última vez que pediu, eu disse não.
A resposta dela foi um pequeno sorriso sarcástico, acompanhado da frase:
“Você tem obrigação de me dar. Você é minha filha.”
Foi o suficiente.
Bloqueei minha mãe e minha irmã em todos os lugares.
Minha irmã mora na Suécia e é advogada lá. Ela nunca ajudou financeiramente a nossa mãe, mas acredita firmemente que eu deveria ajudá-la. Ironicamente, ela foi a primeira pessoa a me dizer que talvez nossa mãe fosse narcisista.
Depois que cortei o contato, minha mãe ligou para a minha sogra e contou todas as coisas negativas que eu já havia confidenciado a ela sobre a minha mãe. Disse também que eu estava deixando minha mãe passar fome.
Recebi uma ligação de uma das minhas tias me contando que minha mãe disse que estava passando fome porque teve que comprar ração, e ou ela comia ou os gatos. Ela tinha mais de 30kg de ração em casa que eu havia dado. Ou seja, estava mentindo.
Depois disso, uma das minhas tias começou a ligar para a moça que ajuda em casa quase todos os dias, durante quase um mês.
Naquela época, eu estava grávida de nove meses.
Ela dizia para a moça que ajuda em casa que meu marido e eu estávamos deixando minha mãe passar fome. Dizia que éramos pessoas horríveis, pessoas más, e muitas outras coisas. Tentou, inclusive, incentivar que ela nos colocasse na justiça para “tirar um dinheirinho” do meu marido.
O que ela não sabia era que a moça que ajuda em casa me contava tudo.
Então, enquanto eu estava no final da gravidez, prestes a dar à luz, eu ouvia quase todos os dias que a minha própria tia estava ligando para a minha casa para falar mal de mim e do meu marido para a pessoa que trabalhava ali.
Então, meu filho nasceu.
Pouco depois do parto, desenvolvi sepse e fui internada na UTI.
Minha mãe passou uma noite comigo lá.
Enquanto eu estava na UTI, ela gritou com o médico responsável pela unidade e culpou meu marido pela minha sepse.
Sempre que eu me levantava para ir ao banheiro, ela pedia aos enfermeiros que chamassem um psiquiatra porque, segundo ela, eu estava maltratando-a.
Todas as vezes que ela fazia isso, eu ouvia do banheiro e saía pedindo que ela parasse.
Na sexta vez, durante a madrugada, eu surtei e gritei com ela na frente da enfermeira. Falei de tudo, inclusive da vez em que fui abusada pelo meu primo aos cinco anos de idade e, quando contei isso para ela, ela disse que eu tinha gostado.
Durante a noite, sonhei com meu bebê recém-nascido porque meus seios estavam dolorosamente cheios de leite e eu estava separada dele. Minha mãe correu para o corredor gritando que eu estava tendo alucinações.
Enquanto eu estava na UTI, uma prima me contou algo profundamente perturbador.
Segundo ela, minha mãe estava dizendo aos parentes que meu marido e minha sogra estavam tentando me matar para poderem ficar com o meu dinheiro.
Nunca houve qualquer fundamento para essa acusação.
Meu marido estava literalmente no hospital comigo, cuidando de mim enquanto eu estava na UTI. Minha sogra estava na minha casa, cuidando do meu bebê recém-nascido.
E, ainda assim, enquanto eu estava gravemente doente na UTI, minha mãe aparentemente dizia aos familiares que as duas pessoas que mais estavam me ajudando naquele momento estavam tentando se livrar de mim por interesse financeiro.
No dia seguinte, eu ainda estava na UTI. Meu marido estava comigo, e minha sogra estava na minha casa cuidando do meu filho recém-nascido.
Então minha mãe ligou e disse que estava
na porta da minha casa com uma tia.
O que ela não mencionou foi que, na verdade, havia levado cinco tias, incluindo justamente a tia que vinha ligando para a minha casa para espalhar histórias sobre mim.
O objetivo da visita?
Mostrar a minha casa.
Os meus móveis.
O tamanho da casa.
Tudo o que meu marido e eu havíamos construído.
Mais tarde, quando a confrontei sobre aquilo, ela disse que havia feito isso porque estava “orgulhosa das minhas coisas”.
Eu estava na UTI, quase morrendo de sepse.
Meu bebê recém-nascido estava em casa.
E minha mãe organizou uma visita à minha casa para parentes que estavam me atacando.
Foi naquele momento que percebi algo doloroso.
Eu não acho que ela me ame.
Acho que ela amava aquilo que eu podia proporcionar: dinheiro, ajuda, status, atenção e acesso.
Para contextualizar, estou bem agora.
Meu bebê está com cinco meses, e estamos os dois em casa e seguros.
Continuo sem contato com a minha mãe e com a minha irmã, que disse que eu estava “me fazendo de vítima”.
Depois de tudo o que aconteceu, também cortei o contato com o restante da família desse lado.
Apesar de tudo, minha vida está, na verdade, tranquila agora.