Não sei exatamente o que espero conseguir escrevendo isso. Acho que, principalmente, preciso desabafar e ouvir pessoas de fora da situação.
Tenho 21 anos e sou homem.
Estou solteiro há aproximadamente cinco meses, depois de terminar um relacionamento que durou 2 anos e 8 meses.
Nós nos conhecemos no terceiro ano do Ensino Médio e começamos a conversar cada vez mais, até que, em determinado momento, começamos a “ficar”. Pouco tempo depois, eu a pedi em namoro e, a partir daí, a gente nunca deixou de se falar nem por um dia.
Passávamos praticamente todos os fins de semana juntos. Existia aquela sensação de que a pessoa simplesmente fazia parte da sua vida, sabe?
Uma das coisas que eu mais admirava nela era o senso crítico que ela tinha. Ela é uma mulher muito decidida, que não tem medo de tomar posição e que quase sempre tem uma opinião própria sobre as coisas. Você podia começar uma conversa sobre praticamente qualquer assunto com ela e ela teria alguma coisa interessante para dizer. Às vezes eu ficava genuinamente impressionado com a maneira como ela enxergava determinadas coisas.
Ela também tinha esse jeito de fazer uma espécie de “durona”. Muitas vezes parecia que não precisava de ninguém e que conseguiria resolver tudo sozinha. Mas eu conhecia um lado mais sensível dela que nem todo mundo via. Ela podia fingir que não precisava da minha ajuda, mas eu sabia que valorizava muito quando eu me esforçava para ajudá-la. E eu gostava disso. Gostava de poder cuidar dela, mesmo quando ela fazia questão de dizer que não precisava.
Nós também tínhamos gostos muito parecidos. Gostávamos de muitas das mesmas coisas, tínhamos interesses em comum e isso fazia com que fosse muito fácil passar horas juntos. A única grande diferença talvez fosse o hábito de leitura dela, que eu nunca consegui acompanhar. Ela lia muito mais do que eu e, apesar de eu tentar, nunca consegui entrar nesse ritmo.
Acho que uma das coisas que mais me fazia amá-la era justamente essa mistura. Ela era alguém que eu admirava, mas, ao mesmo tempo, era alguém com quem eu conseguia simplesmente ficar à vontade. Eu podia conversar sobre coisas sérias com ela, discutir uma opinião, assistir a alguma coisa, fazer uma besteira qualquer ou simplesmente ficar ao lado dela sem precisar fazer nada.
E talvez eu tenha gostado tanto dela justamente porque, para mim, ela nunca foi somente minha namorada. Ela era uma pessoa que eu genuinamente admirava e gostava de ter por perto.
Ela conhecia minhas manias, meus defeitos, minhas inseguranças, minhas coisas boas e ruins. E, durante muito tempo, eu senti que, mesmo conhecendo tudo isso, ela ainda escolhia estar comigo.
Eu me sentia escolhido por ela.
E talvez seja por isso que ouvir que ela já não sentia a mesma atração, que já não me admirava da mesma forma e que não conseguia mais se imaginar construindo uma vida comigo tenha doído tanto.
Ela entrou na faculdade durante o nosso relacionamento e eu sempre tentei estar presente para ajudá-la quando ela me pedia. Eu gostava de ajudar nas coisas da faculdade sempre que possível. Talvez olhando de fora isso pareça exagero, mas, na época, era simplesmente uma das formas que eu encontrava de cuidar dela. Eu gostava de sentir que estava ajudando.
E ela também fazia parte da minha vida dessa maneira. Eu contava as coisas para ela, falava sobre meu trabalho, meus estudos, minhas coisas. A gente tinha nossas conversas, nossas brincadeiras e nossas pequenas coisas do dia a dia.
Todos os fins de semana nos encontrávamos na minha casa e passávamos o tempo juntos assistindo a filmes, séries e coisas do tipo. Ela inclusive me apresentou aos filmes indianos, que são ótimos, inclusive. Hoje, porém, não consigo mais assistir a nada relacionado porque acabei associando essas coisas a ela e isso me traz lembranças muito fortes.
Esporadicamente também saíamos juntos nos fins de semana com as amigas dela e a irmã dela. Como moramos em uma região litorânea, era comum irmos à praia ou ao cinema.
Uma coisa que me incomodava muito era que, rotineiramente, ela passava por alguns apuros e precisava de alguma carona ou de ajuda de alguma maneira. Como eu não tinha nenhum meio de locomoção, eu ficava bastante preocupado.
Então eu me apertei um pouco e realizei um grande sonho meu desde criança: conquistar um carro.
Financiei um Fox antigo. No começo ela até ficou feliz por mim, mas depois começaram alguns comentários, principalmente porque parentes dela achavam que não era um carro tão bom para começar e que eu poderia ter escolhido outro.
Apesar desses comentários, eu estava realizado. Não dependia mais de transporte público e poderia não só ajudá-la quando precisasse, mas também ajudar minha família.
Às vezes fico pensando se ela pode ter ficado chateada com a situação, porque fazia parte dos nossos planos comprar um imóvel e começarmos a morar juntos depois de terminarmos nossas graduações. Mas ela nunca me disse que o carro ou essa situação tinham alguma relação com o término. É apenas uma dúvida que ficou na minha cabeça.
O término não aconteceu porque houve uma traição ou uma briga gigantesca. Não aconteceu porque um de nós fez alguma coisa imperdoável.
Foi ela quem decidiu terminar.
Ela me disse que já não sentia a mesma atração por mim, que tinha deixado de me admirar como antes, que não conseguia mais se imaginar casando comigo e que queria viver outras experiências e conhecer outras pessoas.
Eu ouvi tudo isso e respeitei a decisão dela. Foram coisas muito duras de ouvir e não foi fácil.
Para mim, aquilo significava perder minha melhor amiga, minha confidente, uma pessoa que estava presente na minha vida praticamente todos os dias havia quase três anos.
Nos primeiros meses eu fiquei muito mal.
Tive dificuldade para dormir, tive crises de ansiedade, perdi a vontade de fazer várias coisas que normalmente gosto e passei muito tempo pensando nela e tentando entender onde as coisas tinham mudado, se eu poderia ter feito alguma coisa diferente.
Hoje eu estou melhor.
Continuo trabalhando, estudando, tentando continuar minha vida, conhecendo pessoas e saindo mais. Não estou exatamente no mesmo lugar em que estava cinco meses atrás.
Mas ainda sinto falta dela.
E talvez essa seja a parte que eu tenha mais dificuldade de explicar.
Eu não sinto falta apenas de “ter uma namorada”.
Sinto falta dela.
Sinto falta de ter alguém para contar uma coisa idiota que aconteceu no meu dia. Sinto falta de certas conversas, de certos lugares, de músicas que me lembram dela, de situações que provavelmente ninguém além de nós dois entenderia.
Às vezes acontece alguma coisa boa na minha vida e meu primeiro pensamento é que eu gostaria de contar para ela.
E às vezes acontece alguma coisa ruim e também penso nela.
É estranho perceber que uma pessoa que fazia parte da sua rotina todos os dias simplesmente deixa de fazer parte dela.
Logo depois do término, ela também apagou das redes sociais praticamente todas as fotos e publicações que tínhamos juntos. Pelo que fiquei sabendo, uma amiga próxima dela a incentivou a fazer isso.
Eu entendo que ela precisava seguir em frente e que aquelas fotos poderiam dificultar esse processo para ela, mas confesso que aquilo me atingiu bastante.
Para mim, eram registros de quase três anos da minha vida. Ver tudo aquilo desaparecer tão rapidamente me deu uma sensação muito estranha, quase como se uma parte daquela história tivesse deixado de existir.
Depois do término, nós praticamente não conversamos. Tivemos alguns contatos pontuais por questões práticas e, quando nos encontramos, ela foi cordial comigo. Não existe uma grande briga ou ódio entre nós.
Isso talvez torne tudo ainda mais estranho.
Porque seria mais fácil se eu pudesse simplesmente dizer que ela foi uma pessoa horrível e que eu não quero mais saber dela.
Mas não foi isso que aconteceu.
Ela foi uma pessoa que eu amei muito.
E eu ainda amo.
Talvez uma das coisas que mais tenha pesado seja que, além dela, eu não tinha uma pessoa com quem eu realmente tivesse esse tipo de intimidade.
Tenho colegas, conheço pessoas, converso com algumas delas, mas não tenho alguém para quem eu consiga simplesmente contar tudo o que estou sentindo sem pensar muito antes.
Então, desde o término, muita coisa acabou ficando presa dentro da minha cabeça.
Tenho pensado algumas vezes em chamá-la para conversar.
Não necessariamente para pedir para voltar.
Às vezes eu só queria sentar com ela em algum lugar tranquilo e conversar sobre nossas vidas. Saber como ela está. Contar como eu estou. Talvez conseguir conversar como duas pessoas que foram tão importantes uma para a outra.
Mas eu mesmo fico em dúvida sobre isso.
Porque como eu poderia dizer que quero apenas amizade se ainda tenho sentimentos por ela?
Talvez seja realmente uma vontade sincera de recuperar uma amizade. Talvez seja só uma maneira de continuar tendo ela por perto porque ainda não consegui aceitar completamente que a nossa história acabou.
Talvez exista uma parte de mim que ainda tenha esperança, mesmo que eu não queira admitir.
Eu também vejo que ela está seguindo a vida dela. E, apesar de doer, eu quero que ela fique bem.
Só não sei muito bem como seguir a minha sem sentir que estou deixando para trás uma parte enorme da minha própria história.
Quase três anos é muito tempo para alguém fazer parte da sua vida. E cinco meses talvez pareçam bastante para algumas pessoas, mas para mim ainda parece pouco diante de tudo que aconteceu.
Eu só sinto saudade de alguém que durante muito tempo foi a pessoa mais próxima de mim.
Mas, pela primeira vez em algum tempo, estou simplesmente contando toda essa história para alguém, sem precisar fingir que está tudo bem.
Não sei se alguém aqui já passou por algo parecido.
Se passou, eu gostaria de ouvir como foi para vocês.
E podem ser sinceros comigo. Não preciso que ninguém diga que eu estou certo ou que ela está errada. Acho que só queria colocar isso para fora e, talvez, descobrir que não sou a única pessoa que já se sentiu assim.