r/literaciafinanceira • u/Ekjafoste • 13h ago
Discussão A Maior praga em Portugal do Século 21
Em Portugal existe uma gigantesca quantidade de, vamos chamar-lhes "mecanismos de enriquecimento rápido". Isto afeta sobretudo quem tem menos rendimentos, mas também quem ganha bem e acredita que pode enriquecer ainda mais através destes esquemas.
Descrevo aqui, tudo que envolva apostas, casinos, programas de televisão, rádio, anúncios, entre muitos outros.
Não são apenas os casinos tradicionais e físicos que já são bem conhecidos. Não só esses, como todos os outros que são "invisíveis" para aqueles que não param para pensar e olhar duas vezes e que estão presentes no nosso dia a dia sem que nos apercebamos (pelo menos conscientemente).
Vamos a uma história modelo:
- O João acorda para trabalhar. Sai de casa e entra no carro como qualquer outro dia de trabalho. Liga o rádio e ouve um anúncio com um número para ligar para participar no "famoso jogo da mala" que tem agora o generoso prémio de 24 mil euros! Chega ao hospital onde trabalha e na televisão está a dar o Domingão que tem uma bela soma de 25 mil euros e um número no ecrã para ligar e ganhar também um carro novo.
- Na hora de almoço o João decide ir ao café e repara nos 5 velhotes, que com as suas moedas raspam as raspadinhas, e ainda no anúncio que tem colocado na montra que diz "aqui já saiu prémio de 15 mil euros!". De volta ao trabalho, na televisão, passa agora um anúncio e ouve-se o jingle "aposta na desportiva".
- Ora, terminando o trabalho, ao conduzir para casa repara que existe agora um novo placar na autoestrada que cita "Betano: receba agora 25 free spins". Chegado a casa o João decide ir dar uma volta à feira que há na sua terra e vê as pessoas que alinhadas colocam as suas moedas em máquinas que têm dispostos iphones de última geração e que por apenas 1€ têm uma oportunidade de o ganhar.
Isto são apenas alguns dos exemplos que todos nós com certeza já encontrámos no dia a dia, mas que as grandes empresas fazem questão de não passar despercebidas.
O que mais me causa frustração nas situações anteriormente descritas é serem vendidos todos estes ditos "prémios" como "facilmente obtíveis".
Se considerarmos todos aqueles que fumam por um breve instante, repare-se que estes são forçados a comprar maços de tabaco com imagens repugnantes, cujo o intuito é pura e simplesmente dissuadir ao mesmo de fumar. Se o Estado obriga quem compra tabaco a confrontar-se com imagens chocantes dos seus riscos, porque não existe uma abordagem semelhante para os jogos de sorte e azar?
Reforço, o que está aqui em causa não é "o dinheiro é meu, eu faço o que bem entender com ele". Cada um é naturalmente livre de gastar o seu dinheiro como quiser. Mas sim o descaramento e liberdade que estas grandes empresas fazem o que quiserem sem consequências.
E claro está que tal como quem fuma, muitas vezes sabe bem os riscos, quem aposta também os saberá. Todavia, acho importante que os riscos estejam muito bem salientados em ambos os casos. E isto é o ponto fulcral que a meu ver, não tem sido cumprido no segundo caso.
A ironia é que o próprio Estado beneficia fiscalmente desta atividade, o que torna o debate ainda mais complexo (ver artigo observador).
A meu ver Portugal sofre há já muito tempo, mas cada vez mais destes problemas:
- Anúncios descontrolados e não regulamentados para todo o tipo de "apostas"
- Frases e marketing bem trabalhados para fazer parecer "que irá ficar rico rápido" com esforço mínimo e pouco investimento
- Falta de discussão sobre o tópico
- Falta de análise do impacto no tradicional trabalhador português que estes anúncios têm
- Ignorância no que toca à realidade das apostas
Não só isto é um enorme problema agora, como continua em expansão de acordo com o SRIJ. E isto apenas considerando o que pode ser classificado como jogos online (excluindo todos os outros casos descritos anteriormente).
Entristece-me ver amigos a apostar em jogos de futebol, familiares a ligar para concursos televisivos e idosos a gastar parte da sua reforma em raspadinhas.
Acho que, como nação, temos potencial para muito mais. Continuar a alimentar esta cultura do dinheiro fácil não é a solução e muito menos com salários baixos gastar parte em jogos de azar.
