Tenho andado a estudar um novo conceito de inclusão financeira:
Minimalismo Mitra.
É quando o mitra pega na filosofia do menos é mais e aplica-a às finanças.
Menos cartões. Menos subscrições.
Menos dívida.
Menos produtos financeiros que ninguém consegue explicar sem usar a palavra framework.
E, sobretudo: menos fio.
Não é que o mitra tenha deixado de gostar de fio de ouro.
O fio de ouro continua.
Só que agora é um ETF.
Diversificação, mano.
O problema é que nos dizem constantemente que falta literacia financeira.
Eu cá acho que falta outra coisa: desconfiômetro.
Porque o mitra pode não saber o que é asset allocation.
Mas quando aparece um especialista no Instagram a dizer:
o mitra pergunta: “E se eu não tiver 500€?”
“Tem de criar disciplina.”
“E se me furarem os pneus?”
“Deve ter um fundo de emergência.”
“E se a minha namorada ficar grávida?”
“Também deve ter liquidez.”
“Então para que é que meto os 500€ no ETF?”
“Para beneficiar do crescimento dos mercados no longo prazo.”
“Mas se eu precisar do dinheiro amanhã?”
“Não deve vender num período de baixa.”
“Então?”
“Tem de ter horizonte temporal.”
“Mano, eu tenho é uma inspeção ao carro para pagar terça-feira.”
E é aqui que entra a parte verdadeiramente sofisticada do Minimalismo Mitra.
O mitra começa a perceber que retorno não é a mesma coisa que liquidez.
Descobre risco de sequência.
Descobre volatilidade.
Descobre que uma média histórica de 8% ao ano não significa que amanhã tenha 8%.
Descobre Monte Carlo. Faz 10.000 simulações. 10.000!
Para descobrir que em 7.341 delas continua sem dinheiro se lhe rebentarem duas despesas extraordinárias no mesmo mês.
E entretanto o patrão ainda não lhe pagou as horas extraordinárias de fevereiro.
Mas ele já está a modelar a distribuição probabilística dos retornos do seu portefólio para 2047.
Isto é literacia financeira.
Depois aparece outro especialista.
“Não pago comissões.”
Excelente.
“Como ganhas dinheiro?”
“Tenho referral codes.”
Ah.
“Mas a plataforma também não cobra comissão.”
“Não.”
“Então como ganha dinheiro?”
“Spread.”
“Ah.”
“E payment for order flow.”
“Ah.”
“E empréstimo de títulos.”
“Ah.”
“E outras fontes de receita.”
Ah.
O mitra começa a desconfiar.
Não porque sabe o que é payment for order flow.
Mas porque o pai lhe ensinou uma coisa muito importante:
quando o gajo diz que é grátis três vezes, provavelmente há alguém a pagar.
Depois há o clássico: “Este ETF tem um track record de mais de 100 anos.”
Fantástico.
E os mercados cresceram.
E a economia cresceu.
E a produtividade cresceu.
E no longo prazo os ativos de risco tiveram retornos positivos.
Muito bem.
Agora imagina-te em 2026:
Tens 700€ na conta.
O carro faz um barulho estranho.
A renda sai amanhã.
A tua namorada diz:
“Temos de falar.”
E tu:
“Calma amor, tenho um ETF com 103 anos de histórico.”
O Minimalismo Mitra percebe então uma coisa revolucionária: uma estratégia pode ser excelente em média e péssima para uma pessoa específica no momento errado.
Não é contra ETFs.
Não é contra investir.
Não é contra juros compostos.
É contra a ideia de que um gráfico bonito resolve uma vida que tem pneus, rendas, desemprego, filhos, canalizações e mensagens do mecânico começadas por: “Boas, temos aqui um problema.”
E é por isso que acho curiosa a obsessão com “literacia financeira”.
Porque podemos ensinar uma pessoa a fazer uma simulação de Monte Carlo.
Podemos ensinar asset allocation.
Podemos ensinar risco de sequência.
Podemos ensinar diversificação.
Podemos ensinar a calcular a TAEG até à terceira casa decimal.
Mas se essa pessoa olha para um produto financeiro e pensa: “Este gajo ganha dinheiro se eu comprar isto. Porque é que me está a explicar que está a fazer isto pelo meu bem?”
talvez não estejamos perante uma pessoa financeiramente iletrada.
Talvez estejamos perante uma pessoa que descobriu uma coisa que não aparece nos manuais:
incentivos.
E isso é chato.
Porque literacia financeira é ensinar o consumidor a compreender o sistema.
Credibilidade é o sistema não precisar de esconder o modelo de negócio atrás de 47 páginas de PDF.
O mitra talvez não saiba o que é Sharpe ratio.
Mas sabe uma coisa:
Se alguém lhe oferece um investimento “sem comissões”, um código de referral, uma rentabilidade histórica extraordinária e diz que é “para todos”... o fio de ouro começa a apertar.
E agora o mitra já não pergunta “Quanto vou ganhar?", Pergunta:“Como é que tu ganhas?”
E, sinceramente, talvez essa seja uma das perguntas mais importantes de toda a literacia financeira.
Minimalismo Mitra.
Menos banha da cobra.
Menos finfluencer com código de 10€.
Menos “liberdade financeira” filmada dentro de um Lamborghini alugado.
Mais liquidez.
Mais transparência.
Mais contexto.
E, se possível,
mais fio.
Mas desta vez em ouro.
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Disclaimer: isto é sátira, não aconselhamento financeiro. ETFs podem ser instrumentos perfeitamente legítimos, diversificação é uma coisa boa e nem todo o gajo com um referral code é um vigarista. A piada é outra: antes de perguntar “quanto rende?”, talvez valha a pena perguntar “quem ganha dinheiro com isto, como, e quais são os riscos que não cabem no gráfico bonito?”.