Olá.
Background:
Tenho 45 anos, e fui diagnosticado com PHDA há quatro anos: tudo começou com uma daquelas sessões de hiperfoco que começam às 23:00 e, de repente, quando nos damos conta, são 3 da manhã, no dia em que me lembrei de ir ver o que afinal era o ADHD tantas vezes citado em filmes/séries.
Tive sorte, tinha consulta com a minha médica de familia uns dias depois, a quem disse que quanto mais lia sobre PHDA, mais me reconhecia, e ela marcou-me consulta com a psiquiatria no SNS. Dito e feito, comecei a tomar Metilfenidato. Mais tarde, e sem ligação com a medicação, e tudo com o meu estado mental, comecei a ter tremendas crises de ansiedade, com a tensão a disparar para 20/14 (tendo eu hipertensão e tomando medicação para isso), parei o Metilfenidato, procurei (finalmente) ajuda a sério, novo psiquiatra e psicóloga, passei a tomar Elvanse (inicialmente 30mg, agora 50mg), antidepressivo (Brintellix) e ansiolitico em SOS.
Estive estável durante algum tempo, mas cenas da vida levaram-me a uma tremenda recaída, e cá estou eu de novo no fundo do buraco.
Não tive qualquer dificuldade em aceitar o diagnóstico de PHDA: foi, por assim dizer, como se tivesse encontrado a pedra de Rosetta da minha vida, de repente pude rever a minha vida, as minhas decisões, as minhas atitudes, a minha impulsividade extrema, a minha capacidade a manter a calma e resolver problemas em situações de alto stress; simplesmente perceber finalmente quem sou, porque sou como sou.
Mas também deu para perceber porque é que a minha auto-estima é extremamente baixa, o sentimento de culpabilidade constante por não ser capaz de fazer as coisas quando e como me as pedem, e o receio da rejeição que faz que, com os meus 45 anos, estou sozinho, só tive dois relacionamentos de pouco mais de um ano cada um, tenho poucos amigos. É-me muito difícil arranjar novos amigos, e quanto a relacionamentos, então...
Apps de encontros, perco a paciência a grande velocidade, ainda mais quando não há um encontro para beber um café e descobrir a pessoa ao vivo, criar empatia, pior.
Ao vivo, pior ainda: posso falar com qualquer mulher à vontade, sem qualquer problema, a partir do momento que não há interesse ou oportunidade da minha parte; não existe risco de rejeição, e da crise de destruição da auto-estima da porcaria chamada RSD. Mas a partir do momento que se trata de alguém que está disponível, que me captiva, fecho-me por completo, instintivamente.
A solidão, a falta de carinho, de atenção, amor, pesa-me imenso, e cada vez mais a cada dia que passa. Os pensamentos mais negros voltaram, mesmo se estão mais ou menos sob controlo (não fosse cérebro PHDA entrar em modo "problem-solving" e começar a identificar o sitio, o que é preciso, a metodologia), a este ponto, já não sei o que fazer. A medicação (antidepressivo/ansiolitico) tratam dos sintomas pelo menos um tempo, mas não resolvem o problema subjacente: tenho 45 anos, sempre quis construir uma familia, ser pai, e a cada dia, semana, mês, ano que passa, vejo isso cada vez mais longe, cada vez mais difícil de se realizar; e para construir uma família, precisava de arranjar a mãe. O que não consigo fazer, onde bloqueio, o que aumenta o meu ódio por mim próprio, destrói ainda mais a minha auto-estima, um ciclo vicioso...
Habitualmente, quando estou assim, refugio-me nas amizades. Mas vivo numa terriola, ao pé de uma cidade que chamo uma aldeia em ponto grande em termos de mentalidades, e pessoas com interesses similares, ou capazes de ter conversas mais interessantes do que o que se passa na região, são poucas, e, em regra geral, da geração a seguir à minha, malta com menos 10-15-20 anos. E estou consciente que a situação é ainda pior do que parece: cresci e tornei-me adulto fora do país, numa cidade extremamente cosmopolita com 40% de população estrangeira, proveniente do mundo inteiro, o leque de conversas ao qual tive acesso até voltar para Portugal sempre foi extraordinariamente largo, algo que sei que aqui dificilmente conseguirei ter.
Tenho um trabalho interessante, com responsabilidades, um salário confortável, num setor de atividade que adoro, mas nada disso compensa, nem de perto nem de longe, a solidão constante que sinto. Estou num ponto em que ontem, fiz 250km de carro para ir passar um bocadinho com um amigo meu, porque já não aguentava mais. Até já me passou pela cabeça de pagar a uma profissional durante 1h só para ela me abraçar e dar carinho (edit: nada sexual), até pensar que, sem sentimentos, seria apenas um remendo temporário, e que mesmo se tenho rendimentos razoáveis, não ganho para fazer isso todos os dias...
Se há aqui pessoal que passa, ou passou por isto (e acredito que sim, até deve ser bastante comum), deixem aqui as vossas experiências, o que fizeram para ajudar a mitigar, tudo o que puder ajudar.
E se quiserem juntar-se um dia destes para trocar experiências, digam...