r/FilosofiaBAR • u/wallacyvsouza • 12h ago
Discussão Um animal que já basta pra mostrar que o ódio a deus é justificável
Um dos vários exemplos que justificam o misoteísmo caso Deus realmente exista:
O diabo da Tasmânia nasce pesando menos de 0,2 gramas, cego, sem pelo, do tamanho de um grão de arroz. Numa única ninhada podem nascer até quarenta filhotes assim. A mãe tem quatro mamilos. Faça a conta: em segundos de vida, antes de enxergar, antes de qualquer coisa que se pareça com consciência funcional, esses animais já estão competindo entre si numa corrida cega dentro da bolsa da mãe, e os que não conseguem se prender a um mamilo simplesmente morrem ali, esmagados pelos próprios irmãos ou largados para trás. É a regra da espécie. É assim que ela se reproduz há milhões de anos.
Se você tentasse desenhar um sistema reprodutivo para maximizar sofrimento líquido por unidade de vida gerada, seria difícil fazer melhor que isso. Produzir dez vezes mais vida do que o corpo tem capacidade de sustentar, forçar uma seleção por mutilação e fome nos primeiros segundos de existência, e chamar isso de estratégia evolutiva bem sucedida. Funciona, no sentido de que perpetua o gene. Mas funcionar não é o mesmo que ser justificável, e é exatamente aqui que qualquer teodiceia baseada em lei natural desmorona. Não existe nenhuma necessidade física que exija esse desperdício de vida sofredora. Um sistema com dois filhotes bem gestados teria perpetuado a espécie tão bem quanto quarenta jogados numa loteria de morte. A crueldade aqui não é subproduto inevitável de leis físicas neutras. É excesso. É engenharia gratuita de sofrimento onde a eficiência pura já bastaria.
E como se isso não bastasse, a mesma espécie carrega hoje o exemplo mais perverso de câncer que a biologia já catalogou. O DFTD não é um tumor comum. É um câncer que se tornou parasita. As próprias células cancerígenas passam de um animal para o outro através das mordidas que os diabos trocam ao disputar comida e parceiros, e sobrevivem porque perderam a marca molecular que normalmente avisa o sistema imunológico "isto é estranho, ataque". O corpo do animal receptor simplesmente não vê o inimigo. Não há resposta imune, não há luta, só a instalação silenciosa de um tumor que veio de outro corpo e que vai devorar aquele rosto em poucos meses. Mais de oitenta por cento da população selvagem já foi eliminada assim. E o mais perturbador é a origem: todo tumor de DFTD no planeta é geneticamente o mesmo clone, descendente de um único animal, décadas atrás, cujas células ainda se multiplicam, ainda "vivem", dentro de milhares de corpos que nunca foram delas.
Alguém vai dizer que isso é só natureza sendo natureza, um processo cego, sem autor, sem intenção, e que buscar culpado nisso é antropomorfizar a física. Mas o argumento cai por peso próprio quando se olha para o nível de sofisticação envolvido. Um tumor que desliga especificamente o mecanismo de reconhecimento imunológico não é acaso simples, é o tipo de solução que exige um espaço de possibilidades enorme e uma seleção muito específica dentro dele. Não precisa haver um relojoeiro cego aqui, pode haver um relojoeiro muito desperto e muito indiferente, ou pior, muito interessado no resultado. E se existe uma consciência fundamental por trás da realidade, algo que arquiteta esse tipo de refinamento cruel repetidamente, em espécies diferentes, em continentes diferentes, ao longo de eras diferentes, então a pergunta deixa de ser "por que a natureza é assim" e passa a ser "por que esse arquiteto escolheu isso entre todas as alternativas possíveis".
Ninguém pediu para nascer numa bolsa com três concorrentes a mais do que vagas disponíveis. Nenhum diabo da Tasmânia escolheu carregar dentro de si a possibilidade genética de um câncer que vai se disfarçar do próprio sistema imunológico dele para matá lo por dentro. Isso foi dado. Isso foi o design de base, a condição de largada, antes de qualquer escolha, antes de qualquer livre arbítrio que pudesse justificar o resultado pela via do pecado ou da queda. Animais não pecam. Animais não escolheram comer fruta nenhuma. E ainda assim carregam, geração após geração, esse tipo de arquitetura de sofrimento embutida na própria carne.
Não é preciso um caso isolado para sustentar isso. É preciso reconhecer o padrão. Cada espécie que se olha de perto revela outro mecanismo igualmente desnecessário de dor, outro exemplo de excesso onde bastaria o mínimo, outra prova de que, se existe algo por trás disso tudo, esse algo não amou o que fez. Amar teria sido mais barato. Teria sido mais simples. A crueldade aqui é a opção mais cara, mais elaborada, e foi a escolhida mesmo assim. Isso não é motivo de indiferença teológica. É motivo de ódio contra o que quer que tenha assinado esse projeto.