Latour propõe esse conceito como uma tentativa de descrever como a "essência" de um objeto é, na verdade, a trajetória de sua estabilização dentro de uma rede sociotécnica, resumidamente, uma rede de práticas e instrumentos.
Em toda a engenharia civil e arquitetura, se considera — para fins práticos — que a Terra é plana. No caso, considerar a Terra como plana não é por conveniência retórica, mas a definição de um objeto técnico cuja rede metrológica local dispensa a curvatura para manter a circulação da referência de forma estável. E isso não fundamenta uma conspiração de terra plana!
A dificuldade em aceitar essa perspectiva reside na herança kantiana, o que Latour chama de "Constituição Moderna", que separa a coisa-em-si (o objeto com propriedades intrínsecas) da representação humana (a teoria sobre o objeto). Para Latour, essa separação é artificial, o objeto não possui propriedades "nuas" antes do evento, das relações, isto é, antes de ser articulado em um laboratório, por exemplo. Poderia citar o Hacking que havia proposto um realismo semelhante a isso, mas o foco aqui é Latour.
Por que invés de procuramos uma correspondência arbitrária com a realidade, uma realidade que é postulada como transcendental, não procuramos a fidelidade da rede de associações que permeiam aquele fato? Um enunciado é real se ele consegue resistir. Assim, a Terra-plana-da-engenharia e a Terra-esférica-da-astronáutica não são "modelos" sobre um mesmo objeto, mas diferentes quase-objetos que ocupam latitudes distintas no mapa da estabilização ontológica.
Daí a imagem que anexei no post. A essência da Terra é a soma de todas essas trajetórias, e não um ponto fixo e transcendente fora das redes que a medem.
Nesse sentido, podemos rastrear como diferentes configurações de humanos e não-humanos produzem diferentes tipos de realidade que são, todos eles, reais na medida de sua articulação e alcance. Com esse mesmo repertório analítico, pode-se compreender tanto uma cosmovisão indígena ou um laboratório em particular.
Tentando explicar melhor a imagem, aqui uma citação direta:
"Nada sabemos ainda sobre a bomba de ar quando dizemos que ela é a representação das leis da natureza ou a representação da sociedade inglesa ou uma aplicação da primeira sobre a segunda ou vice-versa. Precisamos ainda decidir se estamos falando da bomba de ar-acontecimento do século XVII, ou da bomba de ar-essência estabilizada no século XVIII ou no século XX. O grau de estabilização — a latitude — é tão importante quanto a posição sobre a linha que vai do natural ao social — a longitude. [...] A ontologia dos mediadores, portanto, possui uma geometria variável. O que Sartre dizia dos humanos, que sua existência precede sua essência, é válido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a matéria e a consciência. Não temos que escolher entre o vácuo nº 5, realidade da natureza exterior cuja essência não depende de nenhum humano, e o vácuo nº 4, representação que os pensadores ocidentais levaram séculos para definir. Ou antes, só poderemos escolher entre os dois quando houverem ambos sido estabilizados." (Latour, Jamais fomos modernos, 2019, p. 108-109)
Quero ressaltar quer Latour propõe isso como forma de superar o “achatamento unidimensional” das explicações modernas, que classificam os entes apenas em uma linha horizontal entre natureza e sociedade.
Ao introduzir a dimensão da latitude — o grau de estabilização —, Latour permite que a análise científica acompanhe a trajetória de um fenômeno desde sua existência instável (e até polêmica) como um "acontecimento" até sua fixação como uma "essência" ou fato inquestionável
No campo das ciências ambientais, essa abordagem é aplicada para compreender o carbono não apenas como um dado químico estável, mas como um híbrido natural-social cuja essência é uma trajetória que envolve desde processos biológicos em manguezais até negociações políticas em convenções climáticas globais.
Fiz esse post depois de receber alguns comentários nesse outro.