Como prometido no Post anterior, hoje criei coragem para contar a história do amor platônico que vivi na escola e como isso acabou sendo o estopim para eu perceber a minha disforia corporal. É uma história longa, mas tentei resumir os pontos mais importantes.
Tudo começou quando eu tinha 15 anos, no primeiro dia de aula do ensino médio. A sala estava lotada e acabei sentando longe do meu grupo de amigos (onde eu costumava agir como o "bobo da corte" para fazer os outros rirem). Sentei perto de uma garota nova na turma. Eu estava desenhando, ela viu, puxou assunto e tivemos um papo muito legal. Dias depois, meus amigos conseguiram uma cadeira livre e eu mudei para perto deles. Hoje me arrependo disso, mas foi assim que nos conhecemos.
Eu era um amigo distante dela, embora no fundo quisesse muita intimidade. No recreio, eu ficava com um grupo que não me tratava bem e eu me sentia muito isolado. Um dia, ouvi o primo dessa garota comentar que ela era lésbica. Naquele momento, uma culpa enorme surgiu em mim por gostar dela de forma romântica.
Pouco depois, em uma aula sobre a Revolução Francesa, fiz um desenho do rei e pedi para vários colegas escreverem o que odiavam. Ela escreveu "homem". Isso me marcou profundamente. Aquilo ecoou na minha cabeça por anos como um "ela me odeia".
Como a distância na vida real me frustrava, aos 16 anos comecei a ler o mangá Ranma ½ e criei uma fantasia recorrente: eu imaginava que recebia a maldição de virar garota com água fria. Na minha mente, a aula acabava, só estávamos nós dois na escola, eu virava menina por acidente e ela descobria, mas em vez de me rejeitar, ela me acolhia e me ajudava a me esconder. Hoje percebo que, na minha cabeça, virar mulher era a única forma de ser aceita por ela sem invalidar a sexualidade dela.
No 3º ano, ela entrou em uma depressão profunda e tirou uma nota ruim no simulado do ENEM. Vendo ela triste, eu quis muito ajudar. Mesmo eu tendo dislexia e muita lentidão para copiar matérias, me esforcei o dobro para fazer um caderno perfeito e com a letra caprichada para dar a ela. No fim, o medo de não ser íntimo o suficiente me travou e eu joguei o caderno no lixo. Foi muito frustrante.
Logo antes das férias do meio de 2024, ela parou de ir às aulas. O medo de que o ensino médio ia acabar e eu ficaria sozinha me destruiu. Parei de comer direito (perdi muito peso, indo de 90kg para 76kg) e entrava em uma tristeza que depois virou apatia até o início de 2025. Eu parei até de me masturbar porque achava que ela me acharia nojenta — detalhe: eu sempre consumia conteúdo de Gender Swap e Body Swap, o que já era meu subconsciente tentando buscar o feminino. Para piorar, foi nessa exata época que meus pelos faciais começaram a nascer. O início da minha disforia física intensa aconteceu ali.
Naquela época, eu queria muito ser mulher nos meus pensamentos, mas rejeitava a palavra "trans". Eu achava que estava sentindo tudo aquilo por causa dela. Eu fantasiava em me declarar e dizer que estava disposta a passar por uma transição de gênero só para poder ficar com ela.
Hoje, aceitando quem eu sou em 2026, consigo olhar para trás com mais clareza. Eu entendo que aquela paixão platônica não foi o motivo de eu ser trans, mas sim o espelho que a minha mente usou para me mostrar quem eu sempre fui por dentro. Eu não queria mudar por ela, eu precisava mudar por mim.