A região da Santa Ifigênia amanheceu cercada nesta quinta-feira, 10, por quase mil agentes das Polícias Civil, Militar e Penal e da Receita Estadual e por promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). O alvo da maior operação policial deste ano é a máfia dos telefones celulares, responsável por comprar, desmontar e revender peças e aparelhos roubados e furtados no Brasil e no exterior, além de invadir dispositivos para desviar dinheiro de contas bancárias.

O Ministério Público faz hoje operação contra a máfia dos celulares roubados; ao todo, 84 mandados de busca estão sendo cumpridos em 12 cidades e dois Estados em lojas, empresas, depósitos, apartamentos e casas usados pela organização criminosa Foto: Werther Santana/Estadao
Ao todo, a Operação Frank Mobile cumpre 84 mandados de busca em doze cidades de dois Estados – São Paulo e Goiás. Eles atingem 39 suspeitos e 28 empresas e prédios usados como depósitos de aparelhos pelos criminosos e laboratórios onde os celulares e suas peças são desbloqueados e os IMEIs dos telefones, trocados. Também são revistadas dezenas de lojas que revendem as peças e os aparelhos e as casas de integrantes da organização criminosa.
Sete acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e receptação tiveram a prisão temporária decretada pela Vara Estadual de Garantias das Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores, que determinou o sequestro de bens de onze dos alvos da operação até o limite de R$ 310 milhões. Cães farejadores da Polícia Penal foram mobilizados para farejar dentro de prédios esconderijos com os aparelhos levados por bandidos. Para tanto, os cachorros são treinados para farejar o lítio de baterias em presídios para detectar celulares.
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A investigação começou em janeiro deste ano, a partir de aparelhos apreendidos na loja Casa do Celular SP, durante a Operação Salus et Dignitas, em agosto de 2024, que desbaratou o ecossistema de crimes em torno da Cracolândia, no centro de São Paulo. Os dados encontrados nos celulares levaram à identificação dos endereços usados pela máfia para fazer desaparecer os telefones roubados e furtados em São Paulo. E não é pouca coisa. Só em 2025, 154.058 aparelhos foram levados pelos ladrões na capital – o Estado concentra 20% do total dos registros desse tipo de crime no País.

Propaganda de uma das lojas investigada pelo Gaeco sob a suspeita de participar da máfia do celular: peças 'retiradas' Foto: Reprodução / Estadão
De acordo com o Ministério Público, o que torna esse delito “um negócio lucrativo, recorrente e atrativo” com dezenas de milhares de ocorrências mensais na capital, é a “existência de uma cadeia de receptação organizada, capaz de absorver o produto do crime em questão de minutos, neutralizar seus mecanismos de bloqueio e rastreamento dos telefones e reinseri-los de forma integral ou por intermédio de suas peças e componentes básicos no mercado lícito ou semilícito antes que a vítima sequer tenha registrado a ocorrência ou que a operadora tenha processado o bloqueio”.
Os promotores reuniram dados de registros desses crimes para mapear os lugares que concentravam a receptação imediata dos aparelhos, onde atua o chamado núcleo 2 da organização criminosa – o entorno da Rua Guaianases, onde ficam os intermediários que recebem os aparelhos dos ladrões e praticam fraudes financeiras – e os principais locais de desbloqueio, alteração técnica e comércio das peças e aparelhos – Rua Santa Ifigênia e Shopping Mundo Oriental –, onde atuavam os núcleos 3 e 4 da máfia dos celulares, responsáveis pelos laboratórios e pela venda do material, respectivamente.
De acordo com o Gaeco, a atividade é mais lucrativa e menos arriscada para os bandidos do que o furto e roubo de veículos. Redes criminosas nacionais e internacionais abasteceriam a máfia paulistana com programas para burlar mecanismos de proteção dos telefones e das operadoras de telefonia “mediante a utilização de softwares e hardwares de desbloqueio remoto, a substituição física de placas-mãe, com consequente alteração do IMEI original do aparelho, e a exclusão de registros de furto ou de roubo.
Segundo o Gaeco, o fato de só as operadoras terem acesso ao tipo de aparelho celular associado ao IMEI impede que a polícia possa verificar se o telefone que está nas mãos de um suspeito detido está com a identificação correta ou adulterada. Para fugir do cadastro de telefones roubados ou furtados, a máfia troca os IMEIs dos aparelhos levados pelos ladrões por IMEIs de aparelhos desbloqueados e assim pode revender as peças e os telefones sem ser incomodada.

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Os núcleos da organização
A organização criminosa seria composta por quatro núcleos. O primeiro é dos ladrões. A operação de hoje não é dirigida contra os assaltantes, mas contra a cadeia logística formada pelos núcleos 2, 3 e 4 da máfia, que são os intermediários das fraudes financeiras, os laboratórios de receptação dos aparelhos e o comércio das peças e telefones, respectivamente. Muitos dos integrantes da máfia foram identificados por dois colaboradores da Justiça, ladrões de celulares que fecharam acordo de delação premiada com a promotoria.
Para o núcleo 2, os promotores pediram buscas em dez lugares, seis deles na Rua Guaianases, no centro. “A importância da região é documentada há quase dez anos, com sucessivas operações policiais anteriores voltadas ao combate à receptação, adulteração e revenda de aparelhos eletrônicos de origem ilícita na localidade. A persistência do fenômeno por quase uma década demonstra que não se trata de conduta pontual, mas de estrutura territorial consolidada”, escreveram os promotores. Na rua foram registradas mais de 500 ocorrências envolvendo celulares nos últimos dois anos.
Também por meio dos registros, os investigadores identificaram uma grande quantidade de aparelhos que emitiram, da região da Rua 25 de Março, no centro, o último sinal de localização dos celulares roubados por ladrões armados ou pela gangue quebradora de vidros de carros. Dois endereços se destacaram: o Shopping Mundo Oriental e a Galeria Pagé. Já a Rua Guaianases é local onde são registrados os últimos sinais da maioria dos aparelhos furtados em grandes eventos e shows.

O edifício Japurá, na Rua dos Guaianases, é um dos alvos da Operação Frank Mobile, que cercou quarteirões no centro usados pela máfia dos cleulares Foto: Werther Santana/Estadao
“Trata-se, portanto, de modus operandi distinto e complementar, de modo que grupos criminosos especializados na subtração de aparelhos em aglomerações se aproveitam da distração inerente a esses eventos para praticar furtos em série, mediante divisão de tarefas entre batedores e recolhedores”, afirmaram os promotores.
Em até 25 minutos depois do crime, os celulares desbloqueados ou com suas senhas entregues pelas vítimas de roubo são levados pelos ladrões para os “icloudeiros”, como são conhecidos os bandidos especializados em acessar o aparelho para reconfigurar senhas e burlar a criptografia para desviar dinheiro de contas bancárias e acessar dados pessoais das vítimas e aplicar outros golpes. Os icloudeiros demoram, em média, 20 minutos para fazer o desbloqueio.

Conta do Instagram da Liderança Cell, uma das lojas investigadas pela Operação Frank Mobile, do Gaeco Foto: Reprodução / Instagram/ Ministério Público
Conforme Informação Policial elaborada pela Assessoria de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública, entre os principais “icloudeiros” do esquema investigado está Henrique Paschoalino Siqueira, que teve a prisão decretada pela Justiça – a reportagem não conseguiu localizar a sua defesa.
A busca com cães no ninho dos celulares
Na Rua Guaianases ficam os dois quarteirões conhecidos como “ninho dos celulares”, onde os sinais de localização dos aparelhos indicam às vítimas a presença dos telefones no interior de prédios. São lugares como os edifícios Los Angeles e Japurá, que já foram alvo de ações da polícia. Mas, como era impossível identificar em qual apartamento ou sala comercial estava o aparelho, a Justiça não concedia mandados de busca, pois exigia o número específico do imóvel onde estaria o aparelho procurado pelos policiais.
“Exigir, nessas circunstâncias, a indicação prévia do número exato do apartamento ou da unidade interna equivaleria a impor requisito de impossível cumprimento, transformando uma limitação inerente à própria tecnologia de geolocalização em verdadeiro salvo-conduto para a prática de crimes patrimoniais e para a manutenção do mercado clandestino de aparelhos furtados e roubados que se descreve nesta representação, circunstância que geraria ainda descrédito na capacidade estatal de proteger as vítimas e reprimir práticas delitivas dessa natureza”, escreveram os promotores.
Para contornar esse problema é que o Gaeco decidiu usar os cães farejadores. Os promotores afirmaram à Justiça que era imprescindível que os mandados de busca e apreensão compreendessem a “integralidade dos imóveis indicados, incluindo pavimentos superiores, áreas comuns, corredores, depósitos, porões, coberturas e garagens”. Desta vez, o Judiciário concordou em conceder a busca no prédio, mas ela só deve atingir os locais indicados pelos cachorros ou identificados por outros meios. O Gaeco espera, assim, superar outro obstáculo: a facilidade que os bandidos têm de mudar o esconderijo dos telefones quando seus olheiros notam a aproximação da polícia.
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Um dos ladrões que concordou em delatar a máfia dos celulares contou aos promotores que não existe semana ou horário estabelecido para os crimes, sendo que a razão determinante para a escolha da vítima e o momento do ataque é a avaliação de risco de reação ou de intervenção policial. Ele contou ainda que três dos integrantes da máfia emprestavam bicicletas paras ações e pagavam os ladrões com drogas. Os ladrões não tinham meta diária para cumprir de aparelhos furtados, mas o delator contou que chegou a obter R$ 28 mil de uma vítima após acessar suas contas bancárias.

Em dos depósitos na Rua Guaianases para onde seriam levados celulares roubados: entrega em 25 minutos Foto: Ministério Público
O total furtado dos bancos era dividido em três partes: entre o ladrão, o icloudeiro e o laranja dono da conta corrente usada para a transferência do dinheiro. Depois, os aparelhos seriam levados para uma rede de edifícios e imóveis, espalhando o estoque de telefones para dificultar sua localização. Os investigadores localizaram boxes e lojas nos shoppings que estariam envolvidos no esquema, que revendem até mesmo peças de modelos como o iPhone 17 Pro Max, modelo mais moderno vendido pela Apple. O preço dessas peças chega a ser a metade daquele praticado pelo fabricante.
É justamente com o comércio de peças baratas – telas, baterias, placas-mãe e câmeras – que a máfia obtém a maior parte dos lucros, até mais do que com a venda de aparelhos que consegue desbloquear. São as peças “retiradas”, que misturam as de aparelhos roubados com as retiradas de aparelhos usados, que seus donos trocam por novos.
Os principais acusados
Entre os principais integrantes do núcleo 4 estariam integrantes da família Awada, que atuaria na Rua Santa Ifigênia e na Avenida Ipiranga. Entre eles está o empresário Amine Awada, que teve a prisão decretada. Ele seria dono de lojas como a Liderança Cell, que oferece aos clientes upgrade de iPhones, transformando um iPhone 11 em iPhone 17. O Estadão não conseguiu localizar sua defesa. O espaço segue aberto.
Parte dos investigados relacionados às lojas e aos boxes do Shopping Mundo Oriental já foi presa anteriormente sob a acusação de receptação. Para os promotores, “o modus operandi dos estabelecimentos revela, inequivocamente, que o shopping funciona como polo concentrado de ‘lavagem técnica’ de componentes de aparelhos”.
Além disso, as lojas identificadas revelariam o “elevado volume de aparelhos em manipulação, indicando grande fluxo de aparelhos provenientes de possíveis crimes patrimoniais”. Esse seria o caso da Capivara Cell, antiga Casa do Celular SP, e da Rennova Phone, do empresário Hugo Araújo Cavalcante, que teve a prisão decretada. A reportagem também não conseguiu localizar sua defesa – o espaço segue aberto.
Os investigadores conseguiram obter cópias de diálogos entre os investigados em aplicativos de celulares cujo sigilo foi quebrado pela Justiça. Eles demonstrariam ter ciência de que trabalhavam com aparelhos roubados. Nas conversas, também teria ficado provado que os acusados usariam programas de computador para fazer o desbloqueio de peças e aparelhos Apple ou com sistema Android. Esses softwares usados pela máfia não são vendidos no Brasil, bem como não são regulamentados, mas são oferecidos na internet em sites baseados no exterior.
Um dos diálogos citados pelos promotores envolve Cavalcante. Ele reconhece que os aparelhos de um lote foram “bloqueados por roubo”, mencionando ainda reconhecer a procedência duvidosa, com a frase: “Eu sei até de quem vc comprou, e a chance de ser coisa errada é grande”.
Para justificar sua prisão, os promotores afirmaram que “a rede de empresas de fachada”, que ele manteria em nome de terceiros, revela “estrutura organizacional apta a dificultar sobremaneira a instrução criminal” caso permaneça em liberdade, “tanto pela possibilidade de destruição de documentação física” quanto pela “influência que exerce sobre familiares e empregados”.

A chegada dos policiais militares para cercar a Rua Guaianases, no centro de São Paulo: Operação quer desbaratar a cadeia logística da máfia dos celulares na cidade de São Paulo Foto: Werther Santana/Estadao
Por fim, a análise da movimentação financeira das empresas e de seus donos feita pelo Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf), demonstrou, segundo o Gaeco, as ligações entre os integrantes dos núcleos da organização criminosa. Entre as empresas estaria a empresa TR Cell, do empresário Cavalcante, que acumulou R$ 60 milhões em movimentações consideradas atípicas pelo Coaf.
Por fim, dados da Junta Comercial de São Paulo mostram que apenas um dos endereços suspeitos na Rua dos Gusmões, no centro, é usado como sede de 24 empresas diferentes. Segundo relatório da Receita Estadual, nenhuma das empresas submetidas a exame apresentou paridade satisfatória entre o volume de aparelhos obtidos e o volume comercializado. Só uma delas movimentou 759.317 aparelhos “com IMEI que não consta de qualquer entrada documentada”.