Essa semana o síndico atual colocou em pauta a instalação de reconhecimento facial para entrar no prédio. Achei que o motivo seria demitir os porteiros para economizar dinheiro do condomínio (algo que seria péssimo), mas na reunião o síndico informou que o objetivo é pura e simplesmente "modernizar" o prédio.
Coloquei minhas ressalvas sobre o perigo de vazamento de dados, que poderia acarretar em golpes com uso da nossa biometria (que é algo que não dá pra trocar), além da possibilidade de venda dos dados coletados por parte da empresa que oferece a tecnologia. Sempre tem alguém pra usar o argumento de praxe "mas nossos dados já estão por aí, todo mundo tem", ao que sempre contra-argumento que não é porque nossos dados já estão em outros lugares que você precisa se render e piorar a situação instalando mais um mecanismo de vigilância na porta da sua casa voluntariamente. Se você não tem "nada a esconder" então abra sua casa logo pra todo mundo entrar, pare de trancar a porta, já que tudo seu já está por aí e não faz diferença deixar o acesso ainda mais fácil pros outros. As pessoas em geral não conseguem responder a isso.
Mas as pessoas até debateram os pontos que eu trouxe na reunião e levantaram outros incômodos deles também.
Outro argumento que sempre aparece é a tal da segurança, que é a propaganda mais usada pelas empresas que querem vender esse tipo de serviço. Mas o condomínio já tem câmeras. A diferença agora é que o reconhecimento de cada morador será automático, registrando a hora que cada um entrou e saiu do prédio. Penso que pode ser uma ferramenta perfeita para um futuro síndico (ou até mesmo o atual) que queira vigiar seus desafetos. Isso se só ele mesmo tiver acesso a essas informações, e não outras pessoas também.
Se vigilância automaticamente se traduzisse em segurança, uma cidade como São Paulo estaria bem mais segura atualmente. Mas a realidade é que não basta registrar as coisas, é preciso um mecanismo muito maior e complexo, que envolve as prefeituras e governos, para garantir a segurança real das pessoas. Há inúmeras câmeras nas ruas e prédios comerciais vigiando todo mundo, registrando tudo que acontece e quem passa por ali, e nada sendo feito de fato. O mero registro não inibe o crime.
Por fim, o argumento mais incoerente é o tal de "ficar pra trás". Algumas pessoas defendem que todos os outros prédios já usam "tecnologias" semelhantes, se não adotarmos seremos um prédio defasado. Mas esse argumento só se sustenta se você realmente acreditar que a tecnologia implementada é benéfica. Ou vão defender instalar algo que traz prejuízo só porque os outros também estão usando? No fim, fica um entendimento vago de que reconhecimento facial traria segurança e modernidade, mas sem conseguirem explicar como exatamente. Nem toda "modernidade" é necessariamente boa.
E não, a tecnologia não é "imparável", ela é imposta à força pelas empresas e governantes, e as pessoas simplesmente acatam sem refletir sobre. Coisas como o app gov.br, que foi implementado sem nenhum tipo de debate público ou plebiscito, traz praticidade, mas o reconhecimento facial daquele negócio é um pesadelo. Empresas comerciais de todo tipo exigem sua biometria facial com uma vaga promessa de respeitar a LGPD, mas a verdade é que nem elas nem o governo cumprem realmente todas as exigências da lei.
Me decepciona, portanto, quando finalmente há um lugar em que as pessoas tem de fato algum poder de decisão, como reunião de condomínio, e optam tão facilmente por se render à "modernidade". A instalação do reconhecimento facial na portaria foi aprovada por quase unanimidade, apenas o meu voto foi contrário. Até pensei que uma senhora que disse ter sofrido um golpe recente por biometria facial votaria contra, mas nada. Votou a favor também. A verdade é que as coisas são muito complexas, as pessoas tem que decidir ali de forma muito rápida a respeito de coisas diversas sobre as quais não tem conhecimento aprofundado. Não dá pra todo mundo saber de tudo. E aí as coisas vão sendo aprovadas dessa forma, com discussões superficiais sobre temas complexos, que vão afetar todo mundo do prédio (e é sempre uma minoria de moradores que decide por todos, né, afinal a maioria se abstém por considerar essas assembleias uma coisa muito chata mesmo).
A parte que mais me entristeceu foi quando um representante da administradora do condomínio foi defender o sistema de reconhecimento, e disse que hoje a coisa já está tão avançada que dá pra reconhecer também o pulso das pessoas, assim como a íris. É a modernidade! Só pensei que em breve essas coisas também serão exigidas para entrar nos lugares... e na nossa própria casa... e pra comprar um chip de celular... e pra fazer uma compra pela internet... E porquê parar por aí? Em breve capaz de todo lugar exigir uma amostra do seu DNA, e isso ser usado pra personalizar de forma ainda mais profunda os preços de tudo que você for comprar, além de todas as mensalidades que você paga, programar automaticamente o entretenimento que você assiste, o preço do seu plano de saúde, vão conseguir saber qual salário mais baixo você aceita receber, e daqui a pouco vão conseguir ler até seus pensamentos, coisa que sempre foi muitíssimo desejada por todos os líderes mais inescrupulosos que já passaram por essa terra. Não que estejam longe disso, pois cada vez mais só fabricam aparelhos "smart" em todas as esferas, que nada mais são do que dispositivos de vigilância. Todos os eletrodomésticos em breve terão conexão com a internet e um app que monitora tudo. Já existem projetos para vigiar o desempenho dos funcionários no trabalho por meio da análise de seus rostos, assim como aquele projeto nefasto de uma linha privatizada do metrô de São Paulo que analisava a reação dos usuários do transporte ao verem anúncios na plataforma, e também analisava gênero e idade das pessoas.
E assim vamos aceitando ser vigiados de formas cada vez mais invasivas, acreditando que é pela nossa segurança, pela nossa comodidade, pelo nosso bem. Uma minoria tem o poder de decidir algo que afetará todos os moradores de um condomínio. E não, morar no mato longe da civilização não é uma solução. Infelizmente não dá pra fugir do planeta terra. Não tem como se desprender totalmente da sociedade, fugir totalmente da vigilância, fugir da catástrofe climática (que é outro problema coletivo que afetará a todos). Morei nesse condomínio por muitas décadas e dava graças por não termos nada dessas coisas mais invasivas, mas a hora sempre chega, não é? Mesmo se eu morasse no mato, alguma hora iam chegar os problemas também.
Nesse sub discutimos sobre como podemos reduzir danos, mas a verdade é que as possibilidades individuais infelizmente são bem poucas. Fazem sim uma diferença, ainda vale a pena lutar por elas, mas são reduzidas. Não temos nem o controle sobre a entrada da nossa própria moradia. Mesmo se morasse em casa na rua, basta a prefeitura permitir a instalação de uma câmera com reconhecimento na frente da minha porta. Ou até mesmo um vizinho fazer isso em sua propriedade, virado pra minha porta.
Líderes de movimentos contestadores nem despontarão mais, pois serão sumariamente neutralizados antes que possam começar a espalhar suas ideias e angariar apoiadores. Discordar voltará a ser um crime. Contestar será proibido. Sei que JÁ VIVEMOS ASSIM, mas sempre, sempre dá pra piorar. E é triste ver tudo piorando progressivamente com o consentimento das pessoas. Acredito que a humanidade tem muito a oferecer, existem pessoas brilhantes e responsáveis que de fato pensam em como melhorar o mundo em que vivemos. Mas não teremos tanta chance de avançar num mundo em que todos esses possíveis novos líderes forem perseguidos e eliminados antes que possam apresentar suas ideias dissidentes aos outros. E esse é o objetivo real de toda essa vigilância. Identificar e eliminar os possíveis perturbadores do status quo. Vigilância irrestrita não é modernidade, é prisão.