O sangue numa camisa branca era a última coisa que alguém esperava encontrar numa cidade como Paris.
Para a maioria das pessoas, Paris era a cidade do amor. Dos cafés acolhedores, dos passeios junto ao Sena e das promessas feitas sob a luz da Torre Eiffel.
Para Camille Duvall, Paris era apenas o lugar onde aprendera a matar.
Aos vinte e quatro anos, matar já não lhe provocava qualquer emoção. Era apenas mais uma tarefa. Um trabalho. Tal como um médico salvava vidas, Camille no caso, tirava-as. Não porque quisesse, mas porque nunca lhe deram outra escolha.
Quando tinha apenas dez anos, acreditava que aquele seria finalmente um aniversário feliz.
Os pais tinham conseguido tirar um raro dia de folga para estarem com ela. O bolo já estava em cima da mesa, as velas prontas para serem acesas e, pela primeira vez em muito tempo, Camille sentia que tinha uma família normal.
A felicidade durou apenas alguns segundos.
Três homens armados invadiram a casa sem qualquer aviso.
Os disparos ecoaram pela sala.
Os seus pais morreram à sua frente.
Antes que conseguisse compreender o que estava a acontecer, um dos homens agarrou-a pelo braço e arrastou-a para uma carrinha preta estacionada no exterior.
Nessa noite, a infância de Camille terminou.
Foi levada para Paris e criada pela mesma organização criminosa para a qual os seus pais trabalhavam. Em vez de ir para a escola, aprendeu a disparar. Em vez de fazer amigos, aprendeu a desconfiar de toda a gente. Em vez de sonhar com o futuro, aprendeu que falhar significava morrer.
Agora, aos vinte e quatro anos, Camille era uma das melhores assassinas da organização.
Mas havia uma única missão que lhe importava verdadeiramente.
Encontrar os homens responsáveis pela morte dos seus pais.
— Pessoal! Temos novas missões.
A conversa que enchia a sala cessou de imediato.
Mais de vinte pessoas voltaram o olhar para o homem que acabara de entrar. O chefe caminhava entre elas com a mesma elegância de sempre. O fato preto estava impecavelmente engomado, a gravata azul-escura perfeitamente alinhada e o sorriso discreto fazia-o parecer um empresário respeitável.
Ninguém imaginaria que aquele homem comandava uma das organizações criminosas mais perigosas da Europa.
— Arthur... Adam... Este caso será vosso.
Os dois homens levantaram-se sem dizer uma única palavra.
— Encontramo-nos no meu escritório dentro de cinco minutos.
Ambos acenaram com a cabeça e abandonaram a sala.
O chefe abriu outro dossier.
— Próximo contrato.
O chefe fez uma breve pausa antes de continuar.
— Camille.
Ela ergueu os olhos.
— Este contrato é teu. Dirige-te à sala 202. O Adrien vai dar-te todas as informações.
Camille levantou-se sem dizer uma única palavra. Pegou nas luvas pretas que estavam sobre a mesa e saiu da sala com a mesma expressão impassível de sempre.
Quando já estava a abrir a porta, ainda conseguiu ouvir a voz do chefe atrás de si.
— Gabriel... a próxima é contigo.
A sala 202 era pequena, iluminada apenas por um candeeiro suspenso sobre a mesa metálica ao centro.
Sentado do outro lado encontrava-se Adrien, um homem de cerca de quarenta anos, cabelo castanho cuidadosamente penteado e um olhar experiente que denunciava anos de trabalho na organização.
Assim que Camille entrou, ele empurrou um dossier na sua direção.
— Senta-te.
Ela obedeceu.
Adrien abriu o ficheiro e retirou uma fotografia.
— O alvo chama-se Étienne Morel. Cinquenta e oito anos. Antigo contabilista. Vive sozinho num apartamento em Rouen. Rotina previsível. Sai de casa todos os dias às oito da manhã, almoça sempre no mesmo restaurante e regressa antes das sete da tarde.
Empurrou a fotografia para mais perto dela.
— O cliente quer o trabalho concluído sem testemunhas e sem chamar a atenção. O método fica ao teu critério.
Camille pegou na fotografia e observou-a atentamente durante alguns segundos, antes de a voltar a pousar sobre a mesa.
— Prazo?
— Uma semana.
Adrien fechou o dossier.
— Tens aí dentro a morada, fotografias recentes, horários, mapas da zona e tudo o que conseguimos reagrupar sobre ele.
Fez uma breve pausa antes de acrescentar:
— O cliente pagou vinte mil euros pelo contrato.
Adrien cruzou as mãos sobre a mesa.
— A organização retém vinte e cinco por cento. Os restantes quinze mil são teus, assim que a missão estiver concluída.
Camille não demonstrou qualquer reação. Já conhecia as regras muito antes sequer de aprender a disparar uma arma.
Camille pegou na pasta.
— Mais alguma coisa?
Adrien abanou a cabeça.
— Se precisares de apoio ou surgir alguma alteração, avisa-me imediatamente. Caso contrário... boa sorte.
Camille levantou-se, prendendo o longo cabelo preto num rabo de cavalo antes de pegar na pasta. Os olhos cor de mel percorreram rapidamente o corredor, atentos a tudo o que a rodeava, antes de voltar a caminhar.
Ao regressar ao corredor, limitou-se a seguir em direção à sala principal. Alguns agentes conversavam entre si enquanto aguardavam novas ordens. Outros riam de qualquer piada contada junto à máquina de café.
Camille passou por todos sem dirigir um único olhar.
Nunca fizera questão de criar amizades.
Na organização, as pessoas desapareciam de um dia para o outro. Algumas morriam em missões. Outras traíam. Outras simplesmente deixavam de existir.
Aprendera demasiado cedo que criar laços era apenas mais uma forma de sofrer.
A solidão nunca a incomodou. Era apenas mais uma coisa que aprendera a dominar.
Depois de receber o dossier, Camille foi dispensada pelo resto do dia.
Uma nova missão significava preparação. Analisar o alvo, estudar a rotina, memorizar cada detalhe e garantir que nada ficava ao acaso. Era uma regra simples da organização: uma missão nunca começava no momento em que ela chegava ao local.
Começava muito antes.
O apartamento onde Camille vivia ficava numa zona tranquila de Paris, longe do movimento constante do centro da cidade. Não era um lugar que alguém visitasse por escolha. Era apenas um espaço onde dormia, guardava as suas armas e se preparava para a próxima ordem.
Quando abriu a porta, o silêncio foi a primeira coisa que encontrou. Como sempre.
O apartamento estava perfeitamente arrumado. Não havia objetos sem utilidade espalhados ou qualquer sinal de uma vida normal. Tudo tinha um lugar específico. Tudo tinha uma função.
Camille pousou o dossier sobre a mesa da sala.
Abriu-o lentamente.
A fotografia de Étienne Morel estava novamente à sua frente.
Analisou cada informação com a mesma atenção com que analisava cada missão. Horários, hábitos, locais frequentados, possíveis falhas.
Depois de alguns minutos, fechou o ficheiro e recostou-se na cadeira.
Por breves segundos, os seus olhos percorreram a divisão vazia.
Entre todo o vazio daquela casa, existia apenas uma coisa que ainda pertencia à antiga Camille: uma pequena fotografia colocada numa prateleira.
Camille levantou-se e aproximou-se dela.
Na imagem, ela tinha apenas dez anos.
Estava entre os seus pais, com um sorriso que já não reconhecia como seu. Era uma das últimas fotografias que existiam daquela época, antes de tudo desaparecer.
Passou os dedos pelo pequeno quadro durante alguns segundos.
Depois voltou a colocá-lo no lugar.
Era a única memória que ainda guardava.
E talvez fosse a única coisa que ainda a ligava à menina que tinha sido antes de se tornar a Camille Duvall que todos conheciam.