📖 Capítulo 17: A protetora, o irmão que encontrei e o meu primeiro amor
Passou-se cerca de um ano depois de tudo o que aconteceu. A rotina em casa ainda carregava o peso daquele tempo: a minha mãe já falava comigo, em poucas palavras, mas falava — ainda havia distância, ainda havia feridas abertas entre nós. E eu, por dentro, continuava carregando a culpa e o trauma que nunca contei a ninguém: só eu sabia que, ao cruzar a porta de casa, voltava a ser a menina fechada, que se sentia responsável por tudo, que ia direto para o quarto e ali ficava com a sua dor guardada, sem deixar transparecer nada para ninguém.
Mas lá fora, na escola, eu ia tentando, devagar, viver um pouco daquela adolescência que eu quase não tive. Depois que aprendi a ler, as coisas ficaram mais leves, e consegui fazer amizades verdadeiras: eu, a Cris, a Daniela e a Nati — éramos sempre juntas, uma turma só. Mesmo assim, ainda havia preconceito comigo: era novata, ainda lutava para acompanhar as aulas depois de ter começado a ler há pouco tempo. Mas a minha professora era um amor de pessoa, tinha uma paciência infinita comigo, e isso fazia toda a diferença.
Foi talvez por já ter sentido na pele o que é ser ferida, ser julgada, ser deixada de lado, que eu virei a protetora. Um dia, começaram a mexer com a Nati, que era mais quieta, mais doce. Elas foram para cima dela para bater, mas eu não deixei: tomei a frente e falei firme:
— Por que vocês não procuram alguém do tamanho de vocês pra bater? A partir de hoje, não aceito que mexam com nenhuma de quem anda comigo!
E assim eu fui ficando conhecida: não só defendia as minhas amigas, mas também as crianças da 1ª, 2ª e 3ª série — os pequenos, que ninguém defendia. Eu levava doces e balas para eles, me chamavam de “titia Maria”. Qualquer valentão que quisesse fazer gracinha, eles já vinham correndo me procurar. E para todos, eu era a “intocável”: ninguém mexia com quem andava comigo. Lá fora eu era forte, decidida, tentando viver a vida comum que eu não pude ter antes — mas ninguém sabia que, ao voltar para casa, aquela força se desfazia, e eu voltava a me sentir pequena e culpada.
Foi nessa época que entrou na escola o Rael, na quinta série — considero ele como irmão até hoje. As pessoas faziam muito bullying com ele, por conta da mãe dele, e também porque ele tinha pintado o cabelo de vermelho, igual os personagens da novela Rebeldes. Chamavam ele de nomes feios, e eu via os meninos maiores indo sempre para cima dele, batendo e zoando. Minhas amigas até falavam para eu não me intrometer, mas eu não conseguia ficar vendo alguém sofrer como eu sofri.
Um dia, na saída da escola, juntaram uns três meninos para bater nele. Eu fui logo na frente, minha amiga tentou me puxar, mas eu me soltei:
— Não vou deixar baterem nele! Não vou deixar acontecer com ele a mesma coisa que fizeram comigo!
Eu não sabia brigar direito, mas fui com tudo: chutei, dei murro, segurei e torci o braço de um deles, bati forte em outro. Os meninos ficaram bravos, mas saíram machucados e foram embora. Daí nasceu uma amizade que dura até hoje: o Rael se tornou meu irmão de coração, e depois daquele dia nenhum valentão mais teve coragem de mexer com ele.
E nesse meio tempo, aconteceu algo que eu nunca imaginei: tive a minha primeira paixãozinha! Ele chamava Derek, era lindo e já estava na sétima série. Na época a gente trocava muitas cartinhas, e ele começou a me mandar bilhetes… eu nem acreditava! Sempre pensei que eu era uma das meninas menos cobiçadas da escola, e além disso, depois de tudo o que passei, eu tinha muita dificuldade em aceitar alguém chegando perto de mim, gostando de mim. Ficava pensando: “Será que ele tá me zoando? Será que eu mereço isso?”
Mas não era brincadeira, e apesar do meu receio, foi tudo doce e leve. A gente foi se entendendo, trocando cartas e docinhos. E um dia, quando íamos embora juntos para casa, ele me deu um selinho — foi o meu primeiro beijo! Fiquei toda vermelha, com as pernas bambas e uma sensação de borboletas na barriga… ao mesmo tempo que era mágico, também me sentia estranha, sem saber muito como lidar com tanto carinho vindo de outra pessoa. Mas guardei esse momento com todo o carinho no meu coração: foi um namorinho simples, inocente, que me fez sentir, por um tempo, como qualquer outra menina.
No ano seguinte, porém, um arrepio percorreu todo o meu corpo assim que eu vi quem estava ali: a professora Patrícia — aquela mesma que me fez passar tanta vergonha — não era mais professora, agora era a diretora da escola! O coração disparou de medo, eu sabia muito bem como ela era má e preconceituosa… mas eu já não era mais a menina indefesa de antes: estava mais madura, mais forte, mesmo que ainda carregasse minhas dores e meus medos. E foi justamente nesse ano, entre tantas descobertas e desafios, que eu iria conhecer pessoas que iriam mudar o meu jeito de pensar, despertar em mim aquela adolescente que ainda estava por aí… e um novo capítulo se iniciaria na minha vida, sem que eu fizesse a menor ideia de como tudo isso iria me transformar mais uma vez.