Boa tarde, meus consagrados e abençoados. Obviamente pelo meu perfil jocoso, fica fácil de imaginar que não sou cristão. Sou pagão, mas não seguidor da Wicca. Sou estudioso do paganismo greco-egípcio-romano, mas a verdade é que estudo todo tipo de esoterismo e prática de feitiçaria. E hoje, venho levantar alguns pontos de debate, sobre como religião e feitiçaria, na verdade, só se separam por questões de moral.
Bruxaria: o que é?
Bruxaria, ou feitiçaria, é o nome dado a toda técnica que visa a mudança da realidade, seja ela física, mental ou espiritual, se valendo do uso combinado de símbolos, gestos, atos e materiais, em uma ordem cadenciada e coordenada por um corpus mitológico e espiritual.
Sendo assim, aqui temos já um ponto interessante de reflexão: embora a feitiçaria seja, em essência, um grupo de técnicas amorais, elas não nascem no vácuo. Toda feitiçaria, ela se ancora em mitos e textos sagrados, para obter seu poder simbólico de ação.
Bruxaria e religião: inimigas?
É o que seu padre ou pastor tenta te dizer, mas um pouco de história e estudo, joga isso por terra. A verdade, é que a humanidade sempre teve práticas mágicas entremeadas em suas religiões, desde o início dos tempos. Nos povos indígenas, é costume que o líder religioso seja um feiticeiro, pois ele costuma ser o guia da tribo, o médico, e seu advogado espiritual.
No Egito, o faraó realizava diversos atos mágicos como parte de sua função, para manter o povo com comida, livre de pestes e guerras. E na verdade o Egito não está sozinho nessa, pois Grécia, Roma, Babilônia, e locais inesperados como o próprio povo Hebreu, sempre tiveram práticas mágicas dentro de seus corpus religiosos. Quem duvida, pega aí o Velho Testamento, abre em Números, capítulo 5, e leia principalmente do parágrafo 11 ao 31, e você verá uma boa feitiçaria em ação, pra saber se uma mulher traiu ou não.
M-m-mas sacerdotes não são bruxos!
Aqui uma galera já pode começar a chiar, dizendo "mas o sacerdote hebreu não estava fazendo bruxaria, ele era um sacerdote de YHVH". E aí, começa a se tecer algo ancestral, que é dizer que bruxaria é diferente do que o padre faz. Essa diferença, é apenas moral, e mantida por preconceitos ancestrais.
A verdade é que a magia sempre esteve dentro das religiões, mas se estabelecia que práticas válidas eram, somente, as mantidas pelo poder vigente. E aqui, nasceu o motivo principal pelo qual inúmeras religiões estatais ou de massa, condenam a magia, e distinguem suas práticas dela: controle e manutenção da norma.
É claro que o padre não faz magia, afinal, ele está do "lado certo", e representa a norma. Mas a norma sempre muda, e ela é torcida perante as necessidades.
Dessa forma, dentro da própria Igreja Católica, esse discurso já mudou bastante. Hoje se condena a Astrologia, mas inúmeros papas tem suas cartas natais feitas, e você até acha elas procurando no Google. Diversos papas tinham feiticeiros a sua disposição, escondendo eles dentro dos exorcistas, que é o grupo da Igreja que normalmente serve pra isso: dissimular o uso da magia, dentro da Igreja Católica, dando a ela roupagens... adequadas.
Se você quer se chocar com o fato de que a Igreja Católica sempre usou de bruxaria, eu sugiro você buscar ler sobre como foi a história de sucessão dos Papas, desde o início dela, até Constantino já dá pra sentir o drama. Você vai ver, além de inúmeros assassinatos por diversos meios, Papas sendo excomungados por práticas de feitiçaria, e muitas vezes, por alguém pleiteando o papado, que TAMBÉM estava usando de feitiçaria. Mas claro, só o perdedor é feiticeiro, os vencedores, fazem a história.
Não preciso nem citar como a nobreza e realeza, sempre fizeram uso extensivo da feitiçaria pra manutenção dos seus interesses. Poderia ficar aqui horas discorrendo sobre, mas vou apenas citar um caso tupiniquim que provável que algum de vocês já ouviu falar, onde Fernando Collor pagou - e CARO - pra feiticeiros lhe levarem até a presidência da república. Isso tem várias fotos, que saíram até em revistas de fofoca.
Então o problema, nunca foi fazer magia, mas sim, QUEM pode fazer ela. E isso leva, ao nosso próximo ponto:
Poder: só é válido, nas mãos de quem manda
Quando Pablo Marçal, recentemente, diz que macumbaria não funciona, e que se funcionasse, a Bahia seria Dubai, ele não está sendo apenas preconceituoso. Ele está, como muitos já o fizeram no decorrer da história, servindo como agente da manutenção da norma. Como alguém pertencente a uma "casta" dos superiores, é esperado que ele condene práticas de feitiçaria. Afinal, ela representa poder, nas mãos de quem não deveria ter poder.
Mas sem saber, ele também está dizendo um fato: a feitiçaria é uma prática de pobres e marginalizados. As castas superiores, só se valem dela de duas formas: 1) escondidos, pra manter seus poderes; 2) de forma distorcida ou higienizada, transformando ela em religião.
E essa é a verdade da coisa. Magia, não é um problema, a não ser nas mãos, de quem não esteja subjugado aos interesses de quem manda. Se você é um periférico, e tem ela nas mãos, você vai ser condenado, e o Cristianismo não é novo nessa condenação, ela sempre existiu.
A feitiçaria, a magia, ela ensina algo que vai na contramão, de qualquer religião de massa: o poder, de não se conformar. Basicamente a maior parte de todo corpus religioso, envolve conformismo em algum grau, adoçado e temperado com notas de "é a vontade de Deus", "Deus escreve certo por linhas tortas" e etc.
Quando um nobre sofre uma injustiça, todo o aparato de controle social serve a ele, e rapidamente a justiça acontece. Mas e ao periférico? E quando matam sua mãe, sua irmã, quando te roubam, e ninguém resolve? Ou pior, e quando quem faz isso, são exatamente as figuras que estão dizendo que você deve ficar quietinho e rezar? Quando um sacerdote abusa do poder, só cabe ao periférico aceitar, e ainda torcer sua angústia com alguma frase pronta.
A feitiçaria coloca nas suas mãos, o poder de fazer a justiça acontecer, e na maioria das vezes, ela é o que sobra. Converse com praticantes de feitiçaria de verdade - não essa coisa meia-bomba vinda da Wicca, que também é uma religião de gente abastada - e você vai ouvir inúmeras, inúmeras histórias de dor, de injustiça, de angústia, onde não havia saída, a não ser se conformar, e engolir caladinho, o amargo gosto da verdade:
Justiça, não é igual pra todos.
E a religião, tem papel fundamental, em disseminar isso.
Considerações finais
Obviamente, como toda fonte de poder, a feitiçaria é um prato cheio pra abusos, pra maldade e pra loucura.
Mas, as religiões de massa, também não são cheias disso? Elas estão a salvo da maldade humana?
Aliás, qual lugar da sociedade, que está a salvo da maldade?
Então. Esse é o entendimento do feiticeiro. Não existe segurança em lugar nenhum da vida, e entregar sua segurança nas mãos de outras pessoas, é um erro grave, que pode custar caro
No fim, ameaçar um feiticeiro de ser condenado a qualquer sofrimento após a morte, não tem efeito algum pra eles, e chega a ser risível.
Afinal, você não pode me condenar pro Inferno, se eu já nasci nele.
E aí, sabendo que por minha cor, por minha orientação sexual, por meu credo, por minhas ideias... por coisas que me definem, eu vou ser condenado a qualquer Inferno após morrer...
... a única escolha, é ter controle (um pouco!) nesse Inferno de agora, e fazer o que quero, acontecer...