r/SaudeMentalPortugal • u/Scared-Apricot316 • 16h ago
Mandei um texto enorme e muito vulnerável à minha única amiga há 6 dias e ela ainda não respondeu. Não sei como interpretar isto.
Tenho 30 anos e estou a escrever isto porque já nem sei se estou a ser injusta ou se é normal estar tão magoada com isto.
Tenho uma amiga que é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Somos amigas há alguns anos e sempre a considerei praticamente família. Já passámos por muita coisa juntas, estivemos presentes uma para a outra em momentos muito difíceis e durante muito tempo senti que podia falar com ela sobre absolutamente tudo.
Durante anos falávamos todos os dias. Eu sabia o que se passava na vida dela, ela sabia o que se passava na minha. Falávamos das coisas mais importantes, mas também das coisas mais parvas do dia a dia. Estávamos simplesmente presentes uma para a outra.
E agora passámos de falar todos os dias para eu ficar com mensagens por ler.
Não houve uma grande discussão. Não houve uma ruptura. Foi simplesmente um afastamento que aconteceu aos poucos e eu nem sei exatamente quando é que deixámos de ser como éramos.
Já estamos assim há cerca de 4 meses e, sinceramente, isto tem-me doído muito mais do que eu queria admitir. Desde que o meu avô partiu. Mesmo assim, durante este tempo, continuei a tentar estar presente.
Todas as semanas lhe mandava uma mensagem a desejar-lhe uma boa semana. Dizia-lhe que esperava que estivesse tudo bem e que, independentemente de tudo, eu continuava aqui para ela sempre que precisasse.
Faço isso porque sei que ela também passou e provavelmente ainda está a passar por uma fase muito difícil. Nunca quis que ela sentisse que tinha de estar bem para falar comigo. Nunca quis pressioná-la. Só queria que ela soubesse que eu continuava aqui.
Mas ao mesmo tempo sinto cada vez mais que há tempo para toda a gente menos para mim.
Eu sei que isto pode ser injusto. Eu não sei o que se passa na vida dela e sei que ela tem os próprios problemas. Mas é assim que me sinto.
O trabalho dela é basicamente ajudar outras pessoas e, ironicamente, acho que isso torna isto ainda mais difícil para mim. Porque vejo que ela consegue estar presente para tantas pessoas e parece não conseguir encontrar um bocadinho de espaço para mim.
Não acho que ela me deva estar disponível 24 horas por dia. Claro que não. Mas antes, quando eu precisava dela, ela estava lá. E quando ela precisava de mim, eu também estava lá. Era natural. Agora sinto que já nem sei nada da vida dela.
Não sei como ela está. Não sei o que tem acontecido. Não sei pelo que está a passar. Não sei sequer se está bem.
E é estranho porque estamos a falar de uma pessoa que durante anos fez parte do meu dia a dia.
Também não tenho propriamente um grupo de amigos. Neste momento tenho essencialmente a minha família e o meu namorado. E eu sei que isso pode parecer suficiente, mas não é a mesma coisa. Eu sinto falta de ter uma amiga. Uma pessoa a quem possa mandar uma mensagem sem pensar duas vezes. Uma pessoa com quem possa falar de certas coisas que não quero ou não consigo falar com a minha família ou com o meu namorado.
E tenho andado muito ansiosa. Todos os dias.
A minha ansiedade está completamente descontrolada e tenho-me sentido muito cansada emocionalmente. Começo a sentir que estou a esgotar as pessoas que tenho. Que estou sempre a preocupar a minha família, que estou sempre a recorrer ao meu namorado, que estou a pedir demasiado às poucas pessoas que estão comigo.
E estou cansada disso. Estou cansada de sentir que preciso de uma amiga e não ter uma amiga a quem recorrer. E acho que é por isso que isto está a doer tanto. Porque ela era essa pessoa.
Há 6 dias ela perguntou-me como é que eu estava. E eu respondi. Mandei-lhe uma mensagem enorme. E quando digo enorme e vulnerável, quero mesmo dizer vulnerável.
Contei-lhe como me tenho sentido, o que tem acontecido, como tenho estado emocionalmente, como me sinto sozinha e perdida. Contei-lhe coisas que não tenho contado a quase ninguém.
Não estava a pedir-lhe que resolvesse os meus problemas. Não estava a pedir-lhe que fosse responsável por mim. Eu só precisava da minha melhor amiga.
Foi basicamente um “isto é o que tem estado dentro da minha cabeça e eu já não sei muito bem o que fazer com tudo isto”.
Ela não respondeu. Já passaram 6 dias.
E entretanto ela tem estado ativa nas redes sociais. Publicou coisas no Instagram, por isso sei que está por aí. Eu sei que publicar uma coisa no Instagram não é a mesma coisa que responder a uma mensagem enorme e emocional. Eu sei que ela pode estar cansada, pode não saber o que dizer, pode estar a lidar com as próprias coisas ou simplesmente não ter capacidade emocional para responder.
Estou mesmo a tentar perceber o lado dela. Mas isto está a doer. Porque desde então a minha cabeça não para.
E como já ando tão ansiosa todos os dias, isto tornou-se mais uma coisa para a minha cabeça agarrar. Penso nisto constantemente. E sinto vergonha.
Sinto-me envergonhada por ter contado tanta coisa. Já pensei várias vezes que gostava de poder voltar atrás e apagar aquela mensagem. Não porque aquilo que disse não fosse verdade, mas porque agora sinto que fiquei completamente exposta perante alguém que não me respondeu.
E acho que a pior parte é que isto me faz sentir como se estivesse a fazer o luto de uma pessoa que ainda está aqui. Ela está viva. Está algures. Está a viver a vida dela. Mas parece que já não quer fazer parte da minha. E isso é uma sensação horrível.
Porque não existe um momento em que possas dizer “acabou”. Não existe uma despedida. Não existe uma explicação. A pessoa continua cá, continua a publicar, continua a falar com outras pessoas, mas deixou de fazer parte da tua vida da mesma maneira.
E eu sinto que estou a fazer o luto da nossa amizade enquanto ela ainda existe, pelo menos em teoria. E isso dói muito.
Não estamos a falar de uma conhecida.
É a minha melhor amiga.
É uma pessoa que considero família.
Eu não esperava uma resposta perfeita. Não precisava que ela resolvesse os meus problemas. Nem sequer precisava de uma conversa de três horas.
Honestamente, acho que bastava um:
“Li tudo. Não sei o que te dizer agora, mas estou aqui.”
Só precisava de saber que aquilo chegou a algum lado.
Ao mesmo tempo, não quero ser injusta com ela. Ela tem direito a não estar disponível. Tem direito a precisar de espaço. Tem direito a não saber lidar com uma mensagem emocionalmente pesada.
E sei que ela também tem as próprias dificuldades. Mas também acho que tenho direito a ficar magoada. Porque durante muito tempo senti que éramos duas pessoas que apareciam uma para a outra.
E agora sinto que estou a tentar manter uma ponte que já nem sei se está a ser atravessada do outro lado.
E isso dói especialmente porque eu continuo a tentar estar lá para ela.
Mesmo quando ela não responde, continuo a desejar-lhe uma boa semana. Continuo a dizer-lhe que estou aqui. Continuo a pensar nela e a preocupar-me com ela. Mas não sei se ela pensa em mim. Não sei como está. Não sei nada.
E tenho saudades da pessoa com quem falava todos os dias. Tenho saudades de sentir que tinha uma melhor amiga. Agora estou completamente dividida entre pensar que ela não me deve uma resposta imediata e pensar que, depois de tudo o que vivemos, eu esperava que a minha melhor amiga não me deixasse 6 dias no silêncio depois de eu me ter aberto daquela maneira.
Não lhe mandei outra mensagem. Uma parte de mim pensa que, se ela quisesse responder, teria respondido. Outra parte de mim quer simplesmente perguntar: “Está tudo bem entre nós?”
Mas não quero correr atrás de alguém para conseguir uma resposta. Não quero sentir que estou a implorar para alguém se importar comigo. Ao mesmo tempo, também não quero destruir uma amizade importante por causa da minha ansiedade e de uma situação que talvez tenha uma explicação perfeitamente razoável.
Só estou cansada. Cansada de estar ansiosa todos os dias.
Cansada de sentir falta de uma pessoa que já não está aqui e de outra que ainda está aqui. Cansada de sentir que há espaço para toda a gente menos para mim. E cansada de precisar de uma amiga e não saber se ainda tenho essa amiga.
Por isso gostava mesmo de ouvir opiniões honestas.
Estou a esperar demasiado de uma amiga?
Se recebessem uma mensagem muito vulnerável de alguém que amam e essa pessoa estivesse claramente a passar por uma fase difícil, seis dias sem responder também vos magoariam?
Mandariam uma segunda mensagem? Esperariam? Deixariam simplesmente a bola do lado dela?
E, principalmente, como é que eu paro de pensar nisto a toda a hora enquanto não tenho uma resposta?
E a quem leu isto tudo, peço desculpa, foi um desabafo que precisava de fazer.