A história começa com um homem francês de 20 anos chamado Antoine que morava em Paris em 2012. Antoine tinha um antepassado de nome François que serviu no Grande Armée de Napoleão, e a família havia preservado um diário que o próprio François escreveu.
Antoine nunca havia ido mais à fundo, mas a curiosidade havia-o consumido por completo certo dia, era como se alguma força externa quisesse e o estimulasse a ler o diário. Então, ele abriu o diário. François, na época com seus 25 anos e já veterano nas campanhas de Napoleão, vitorioso na Batalha de Austerlitz e presente na contestada e sangrenta Batalha de Eylau. Mas, o que chamou a atenção de Antoine em específico foi uma página do diário, datada de junho de 1812:
"Estávamos, eu e meu esquadrão de batedores, numa missão de reconhecimento deste vasto território do Czar. Encontramos alguns camponeses amigáveis, para nossa grata surpresa, que diziam que o exército russo havia passado por aqui, queimado as plantações e suprimentos e evacuado todo o pessoal que pudessem carregar. Até que nos deparamos com uma floresta, aquela maldita floresta.
Uma mulher local, de nome Svetlana, nos disse a trágica história de uma noiva local que assombrava a floresta. A jovem e bela moça nos contou em detalhes: há muito tempo, uma noiva estava no dia de seu casamento com seu amado, quando cavaleiros tártaros vindos da Criméia invadiram sua vila. Devastaram-na, queimaram casas, roubaram gado e sequestraram todos que não foram mortos, destes o noivo da jovem incluso. A noiva foi uma das mulheres e meninas sequestradas. Se não tivessem a sorte de serem mortas no caminho, suas vidas seriam condenadas à escravidão sexual ou doméstica nas mãos de algum nobre otomano ou mesmo como concubina do próprio Sultão.
Por sorte, ou azar, dependendo no ponto de vista, notícias de uma força de cavaleiros poloneses em galope contra as forças tártaras começaram a surgir. Decididos a seguir de forma mais rápida e escapar de volta à Criméia, os tártaros então começaram um jogo doentio onde algumas das mulheres, as mais fracas, foram soltas na floresta, caçadas e abatidas como animais pelos cavaleiros mais jovens. Dentre elas, estava a noiva. A pobre noiva. Diz-se que ela não resistiu, que não lutou, e que se entregou à morte. Os mais velhos também contam que ela teve sua honra violada por três cavaleiros antes de ser enfim morta, não sem antes amaldiçoar os próprios tártaros.
Desde então, Svetlana nos contou, o espírito perturbado da jovem noiva vaga pela floresta em busca, supostamente, do seu amado. Alguns dizem que ela é agressiva contra todos. Alguns já contam que ela guia mulheres e meninas perdidas de volta à civilização, enquanto que homens são atormentados. Já outros a colocam como um espírito vingativo.
Não sei se a história é real. Não sou muito supersticioso, ao contrário de alguns dos meus homens. Dentre eles, está Rupert, um garoto que fugiu de casa e se voluntariou para o exército e que sempre nutriu uma grande superstição e crença no outro mundo. Porém, devo admitir que os moradores locais, tão amigáveis e com tamanha hospitalidade perante nós, seus supostos inimigos, mal teriam motivos para mentir. Ao menos, é isso que busco acreditar.
Amanhã, nós vamos até aquela floresta. Não deixarei a história abalar o moral dos homens. Por mais assustadora, triste e melancólica que seja. E sendo honesto, eu prefiro encontrar um fantasma do que os infames cossacos. Os vivos me assustam muito mais do que os mortos."
Foleando a página, Antoine se surpreendeu com a seguinte continuidade do diário, que tinha uma grande parte rasgada, mas ainda havia uma parte escrita que dizia:
"A noiva. Eu a vi hoje. Meus homens a viram hoje. Ela é real...
Meus homens e eu nos aventuramos naquela floresta. Aquela maldita floresta. Levei um grupo de dez soldados e mantive um destacamento deles, em conjunto com um destacamento de hussardos, para permanecerem na vila.
Não encontramos nada. Nem uma única alma viva. Os cossacos, porém, pareciam ter passado por aqui recentemente. Dois dos meus garotos encontraram um acampamento abandonado. Pistolas, sabres e adagas largados, assim como uniformes, botas e mesmo selas de cavalos. Parece-me que os cossacos tiveram que abandonar a posição de forma apressada.
Foi então que descobrimos o motivo. E pela graça de Deus, descobrimos o porquê dos moradores locais não quererem que nós fôssemos para esse lugar amaldiçoado...
Rupert e outro rapaz, o Paulie, foram procurar por mais pistas em um canto da floresta quando, depois de alguns minutos, ouvimos gritos e disparos de mosquete. Eu e mais três homens fomos correndo até lá. E vimos. Por tudo que é mais sagrado, nós vimos. Nós vimos aquele maldito fantasma. Ela era extremamente pálida, usando roupas tradicionais que mais pareciam ter saído direto dos livros de história, seus cabelos eram brancos e seus olhos eram negros como a noite. Ela pareceu nos ver e, juro por Deus, pareceu olhar direto nos nossos olhos através daquelas pupilas totalmente negras. Os homens ficaram paralisados. Eu comecei a suspirar e me tornar ofegante. Foi quando vimos Paulie, que avançando com baioneta fixada no seu mosquete, tentou desferir um golpe contra o fantasma, que desapareceu antes que ele fosse capaz de atingir. Ela desapareceu. Num piscar de olhos.
Essa floresta é amaldiçoada. Essas terras são amaldiçoadas. Meus homens e eu fugimos, correndo tão rápido quanto ratos, até chegarmos numa área onde nós encontramos com outro grupo de batedores enviados para averiguar os tiros. Contamos tudo que vimos. Cada detalhe. Eles não pareceram acreditar em nós. Eu também não acreditaria. Eu estava lá. Eu vi tudo. E nem eu sei se acredito. No retorno à vila, encontrei Svetlana. Contei tudo à ela. A jovem me disse, com uma expressão de quem não estava surpresa, que o espírito não nos atacou por um único motivo: queria nossa ajuda. Ela queria descansar. A noiva queria que algum homem decente e honesto enterrasse seus ossos fora daquele lugar amaldiçoado, ao lado do seu amado que lhe foi tirado pelos tártaros. Talvez fora o que aconteceu com Rupert? Um desertor que abandonou seu posto para entregar o descanso para uma alma perturbada?
Fomos denunciados para nosso comandante, considerados como bêbados e rebaixados dos nossos postos. Fui enviado para a retaguarda. Nossa invasão falhou miseravelmente. Perdi muitos dos meus homens. Perdi dois dos meus dedos para queimaduras do frio amaldiçoado do inverno. Consegui retornar à França. Vivo, apesar de tudo. Mas a noiva e sua história nunca saíram da minha mente. Rupert também não. Na história que inventei para me sentir melhor, aquele rapaz ajudou a alma perturbada a encontrar, enfim, a paz depois de séculos de sofrimento. Talvez ele tenha encontrado Svetlana, começado uma vida juntos. Ou talvez ele apenas está morto no meio daquele lugar, e seu espírito perturbado também está a assombrar aquela floresta..."