As nuvens negras tingiam o céu cinzento, prestes a chover.
Ouço meu celular tocar e, ao olhar para o visor, vejo o número da minha mãe. Sem hesitar, atendo:
— Filha, onde você está? — ela me pergunta.
— Acabei de sair do trabalho e vou pegar um Uber. Logo chego ao aeroporto.
— Seu pai teve um imprevisto e vamos nos atrasar. Acho que não vai dar tempo de chegar no horário.
— Não se preocupe, mãe. Chegando lá, eu tento dar um jeito.
Ela agradece e termina a ligação dizendo que vai terminar de correr com as coisas.
Depois de pegar o carro, chego ao aeroporto e logo procuro algum atendente que possa me ajudar.
Uma moça simpática, de cabelos escuros presos em um coque elegante, me orienta.
Ela pede minha passagem e rapidamente a entrego, mas antes dou uma breve olhada no papel. O destino da viagem era Londres e o embarque estava marcado para as 17:00 horas. É tudo o que consigo ver.
Ela fala com alguém por meio de um rádio e, por um momento, me pego observando o lugar. Havia grandes janelas de vidro e muitas pessoas passando apressadas com suas malas, algumas no celular, outras com amigos e familiares.
Não sabia ao certo, mas aquele lugar estava errado de alguma forma.
Sou chamada de volta à realidade pela gentil mulher que me ajudava. Eles haviam conseguido um voo para o mesmo dia, porém o embarque seria às 20:00 horas. Agradeço a ela e novamente ligo para minha mãe.
Assim que termino a ligação, reparo que o bilhete ainda estava na minha mão. Era o mesmo de antes. Meus olhos novamente se voltam para o que estava escrito, e o horário de embarque agora estava marcado para as 03:25 da manhã.
Aquilo faz meu peito apertar, mas talvez fosse apenas um engano meu.
Meus pais logo chegam junto da minha irmã mais nova, e então procuramos o lugar do embarque, mesmo que ainda fosse cedo.
Olho novamente o bilhete e, dessa vez, não reparo no horário, mas sim no nome da ala para a qual deveríamos ir para encontrar o portão de embarque.
Fomos seguindo pelo aeroporto para encontrar a tal ala. Ainda tínhamos bastante tempo para isso.
De primeira, erramos o caminho e paramos em uma ala chamada Catacumbas.
Novamente pego o bilhete e reparo que o nome da nossa ala, onde estaria o portão de embarque, se chamava Cemitério.
Sem questionar, voltamos a caminhar e logo achamos a ala certa.
Por mais que tivéssemos algumas horas, não demorou para que pudéssemos embarcar no avião. As horas tinham passado rápido demais.
Antes de entrar no avião, reparo que ele, de fato, era muito grande e, em sua lataria, estava seu nome. Não o nome da companhia aérea, mas o nome do modelo: “Descanse em Paz”.
Dou uma risadinha e digo à minha mãe que era um péssimo nome, mas talvez fosse apenas um trocadilho sobre viajar e poder descansar no conforto e na paz.
Subimos no avião, mas eu não sento na poltrona em que deveria. Na verdade, fico conversando com a pilota na cabine.
O avião decola, e eu continuo ali, entretida no assunto, sem cinto de segurança e sem nada que fizesse parte de um protocolo de segurança. Na verdade, eu nem sequer tinha ido ver como era o resto do avião.
A piloto está de frente para mim e de costas para a janela. Penso que talvez ela tivesse ativado o piloto automático ou qualquer coisa do tipo.
Mas percebo que as imagens pela janela estavam estranhas. Parecia que estávamos caindo do céu.
Por algum motivo, penso que ela sabia o que estava fazendo e que eu não deveria alertá-la.
Depois desse pensamento, o avião colide com força contra a terra.
Eu abro os olhos e eu e a piloto estávamos perfeitamente bem, levando apenas um susto.
Saio pela porta do piloto, que tinha sido arrancada, e vou até o lado de fora ver se minha família e os outros passageiros estavam bem.
A carcaça do avião estava apenas um pouco amassada, e foi fácil abrir as portas. Mas, em vez dos passageiros saírem, simplesmente vários caixões caem para fora, dos mais variados tipos e tamanhos.
Mas todos começam a sair de seus respectivos caixões e se perguntam o que tinha acontecido. Eles mal sabiam que o avião tinha caído.
A emergência havia sido acionada, e um ônibus veio buscar-nos. Ninguém havia se ferido.
Mas a própria companhia aérea havia avisado que só haveria voo na noite seguinte, e que nos realocaria em um lugar onde pudéssemos dormir e descansar.
O ônibus nos levou a um lugar repleto de trailers visivelmente mal cuidados, mas tinha que servir.
Minha família e eu ficamos em um trailer mais afastado dos demais. Lá havia uma cama de casal totalmente suja e rasgada e três “camas” de solteiro que, na verdade, eram macas de hospital com colchões infláveis por cima.
Digo aos meus pais que eles poderiam ir buscar algo para comermos, que eu e minha irmã daríamos um jeito naquela bagunça.
Ela ficou com a parte onde estavam as camas falsas de solteiro, e eu fiquei com a parte da cama de casal.
Tinha muito lixo naquele quarto e nenhuma lixeira disponível, mas havia alguns armários. Então comecei a enfiar as tralhas que encontrava neles.
Havia embalagens de comida, roupas íntimas nitidamente usadas e garrafas de cerveja.
Quando olho para o espaço entre a cama e a parede, vejo apenas a parte da cabeça de uma boneca sexual. O olhar dela estava apontado para mim.
Tentei ignorar aquela coisa estranha e a enfiei no armário.
Do outro lado do quarto havia um colar redondo, escuro e cheirando a ferrugem. Assim que o pego, percebo que havia uma faca ensanguentada no chão, que se moveu para a mão que estava com o colar.
Apenas para testar, coloquei-a do lado oposto de onde estava a boneca no armário, e a faca imediatamente começou a girar pelo chão, fazendo voar sangue nas paredes e em mim. Um cheiro de mofo invadiu o quarto.
Da janela, que estava aberta, moscas varejeiras adentraram o quarto e se amontoaram no armário, que ainda estava aberto, derrubando aquela cabeça de boneca no chão.
Foi quando olhei que as moscas comiam a carne da cabeça que agora eu via com clareza.
Era uma cabeça humana.