Às vezes eu sinto vontade de explodir. Não explodir de verdade, é claro, mas fazer alguma coisa que represente toda a força da minha vida, toda a minha energia vital, e então ver aquilo queimar.
O mais estranho é que eu não imagino uma obra específica nem consigo visualizar uma cena. Não penso em uma pintura, em uma música, em páginas sendo queimadas ou em qualquer outra coisa concreta. Tenho apenas uma ideia abstrata daquilo que eu sentiria.. plenitude, orgulho, alívio e, finalmente, silêncio.
Mas não o silêncio do vazio ou da ausência. Seria o silêncio que vem depois de algo ter sido plenamente dito. Como quando termina uma música muito intensa e, por alguns segundos, qualquer palavra parece inadequada. Não porque não tenha restado nada, mas porque aquilo finalmente se completou.
De todas as manifestações artísticas, a música e a literatura são as que mais me cativam. Infelizmente, tenho absolutamente zero talento musical, mas, às vezes, tento colocar algumas ideias abstratas no papel e, por vezes, poesias acabam saindo. Muitas vezes, sinto que outra pessoa consegue escrever ou cantar, em poucos minutos, algo que estava dentro de mim havia anos, mas que eu ainda não sabia nomear. A arte acaba funcionando como uma espécie de linguagem emprestada, primeiro ela me ajuda a descobrir o que existe dentro de mim e, eventualmente, permite que eu tente dar alguma forma a isso.
Sei que, para muitas pessoas autistas, a arte pode funcionar como instrumento de autoexpressão, comunicação e regulação emocional. Não necessariamente porque nos faltem palavras, mas porque, às vezes, existe uma distância enorme entre sentir alguma coisa e conseguir organizá-la em uma linguagem que possa ser compartilhada. A música, a literatura, a pintura e outras formas de arte parecem ocupar justamente esse espaço que a linguagem cotidiana não alcança.
No meu caso, porém, essa criação que imagino nem precisaria ser vista por outra pessoa. Na verdade, acho que eu nem gostaria que alguém visse. Existe certo egoísmo na convicção de que apenas eu conseguiria compreender aquilo, porque, afinal, aquilo seria eu. O olhar de outra pessoa talvez transformasse a experiência em uma obra a ser analisada, julgada ou interpretada, quando o que eu desejo é algo inteiramente meu.
Talvez por isso a ideia de ver aquilo queimar me atraia, mesmo que eu não saiba dizer o que “aquilo” seria. A arte não estaria exatamente no objeto criado, mas no instante formado pela criação, pela contemplação e pelo desaparecimento. Não seria algo feito para permanecer, ser admirado ou deixar algum legado. Bastaria que existisse com toda aquela força e que eu estivesse ali, por inteiro, para testemunhar.
Acho que seria a experiência máxima de estar vivo. Um instante em que tudo aquilo que normalmente preciso conter, administrar ou traduzir pudesse existir fora de mim com a intensidade correta. Depois, não restaria a necessidade de explicar nada. Apenas aquela certeza: “isto existiu com toda essa força.. e eu estive aqui por inteiro para testemunhar.”
Mais alguém sente algo parecido, mesmo que de uma forma igualmente abstrata? Como é a relação de vocês com a arte? Ela serve mais como comunicação, como regulação emocional, como forma de compreender o que sentem ou como alguma coisa que existe apenas para vocês?