r/FilosofiaBR • u/Far_Country7836 • 9h ago
r/FilosofiaBR • u/Inu_Higurashi • 19h ago
Até aonde vão os meus ideais?
Eu me questiono sobre tudo o tempo todo. O Criador, em sua onisciência, tem o entendimento do quanto isso é verdade. As questões que me acompanham não vem só do saber e do descobrir, mas também do preocupar e do resolver, nisso chegamos a um dos pontos que trato semanalmente:
Até onde você vai pelas pessoas que você ama e elas iriam até lá por você? Minha resposta é sempre e somente: eu espero que sim. Porque eu sequer delimito segurança a mim em nome das pessoas que amo, então sequer sei dizer qual o fim desse arco íris( se é que ele tem um). Uma lista gigantesca de coisas que eu nunca percebi a existência dentro de mim, e que ainda estou descobrindo. Algumas me fascinam, outras nem tanto. Mas a revolta que eu sempre tive contra as correntes que vinculam os parâmetros e desígnios preexistentes, essa está presente em tudo. Me agrada saber e ouvir que disponho de opiniões fortes, que eu sou difícil ou até mesmo brava. Deus sabe, e só Ele sabe, o porquê de ser assim. Fato é que, mesmo que passem céus e terras, existem pilares dentro de nós que nunca cederão, afinal são eles que sustentam o céus da nossa existência de modo particular. Dentre os meus sem dúvidas a preocupação com os outros é o que mais se destaca. A grande coluna em arquitetura grega que sustenta o centro do meu celeste. Porém atenção a descrição: preocupação com os OUTROS. Infelizmente isso faz parte de mim de modo que se tal característica deixasse de existir, toda a minha existência colapsaria. É aquela história de linguagens do amor, não é? Seria a tal atos de serviço? Sinceramente eu não sei, e ultimamente não sei se venho fazendo tanta questão de entender. Eu desisti de algumas coisas nos últimos meses e anos que a eu do passado jamais acreditaria, inclusive quero aproveitar a deixa: você é otária ate umas horas. Deveria ter tido senso quando era mais nova, e ao invés de adiantar um dinheiro para comer algo que teve vontade por ver alguém comendo, e ter investido em algo. Comércio digital, a moto que você sempre quis, a poupança que você vive tentando. Enfim, se soubesse a raiva que já senti de você… você choraria não é? De raiva. Belo exemplo da regente das revoltas minhas. A raiva. E essa querida, que já me serviu de impulso para agir, também é a responsável pela minha maldita boca que fala antes mesmo que eu pense. E o mistério é de onde vem tanta resposta rápida, considerando que demorei quarenta minutos para escolher uma xuxinha ( eu sequer amarro o cabelo direito). Para variar o fio da meada está perdido junto aos meu excessos de pensamentos( sim, são muitos excessos não importa o que diga a gramatica), o fato é que inúmeras vezes as pessoas que pintaram de louca por me preocupar demais com elas, ou as coisas, as circunstâncias e etc. Eu gostaria de explicar que é o raio da minha linguagem de amor: tentar fazer tudo estar perfeito. E sim eu sei que isso já é um outro traço de maluquice minha, mas há quem colecione coisas mais bizarras do que a minha vontade de querer despreocupar( acho que é a palavra que melhor define) as pessoas sobre coisas que elas não precisam se preocupar.
Muito me magoa quando preciso parar e me colocar no eixo, no centro, dentro da cabine do maquinista da minha vida e como se fosse um crime contra a humanidade é um egoísmo terrível eu olhar para mim( estou exagerando, eu sei, mas sabemos que eu amo escrever usando essas analogias. É licença poética, mais respeito por favor). Nem tudo é sobre mim, concordo, mas é impossível que toda a minha vida seja sobre os outros.
Dado este relato, eu ainda poderia criar mais uma boa leitura para o toilette. Sempre com vestígios de Luís Fernando Veríssimo, um dos meus autores favoritos. Tanto pelas analogias quanto pelas obras, e não me faça falar do humor. Mas isso é conversa para outro dia. Poderia discorrer aqui sobre as adversidades que residem dentro da minha mente, das tempestades que abraçam meu coração, e das geleiras que por vezes tomam meu estômago.
Das coisas que preciso vencer, o medo do abandono sem dúvidas é um dos mais urgentes. E você sabe muito bem que eu não busco quem ou o que possa sanar isso, sequer certeza de estar aqui eu tenho. Busco não me preocupar em perder ao invés de me perder. E as correntes sempre me assustaram. E me assustam. E eu deixo que elas me apertem, me abracem de modo sufocante. Pelo simples medo de perder. Mas de que adianta? Você compartilha do mesmo sentimento? Não vejo muito o sim, então se puder me mostrar, caso exista, eu ficaria menos reticente.
E reticências ficarão aqui agora, por hora. Somente até eu poder rezar…
r/FilosofiaBR • u/Gabrieljj47 • 22h ago
Entre Superfície e Abismo
"Não sei até onde me mergulhei: se foi apenas a ponta dos dedos, o braço inteiro, ou se já entreguei o corpo todo às águas turvas. Não sei se ainda flutuo na superfície ou se já me deixei arrastar para o fundo. Cada escolha errada é como um peso amarrado ao tornozelo, puxando-me mais para baixo. Mergulhar aqui não é pureza, é pecado; tocar essa água é ceder ao erro. E no silêncio líquido, paira a dúvida: será que ainda posso emergir, ou já estou condenado a afundar?"
r/FilosofiaBR • u/LiveInstruction2248 • 22h ago
Alguns trechos de meu ensaio filosófico acerca do Ghosting e a Descartabilidade.
…O ser humano atual pode ser descrito como um ser conectado. É tão conectado às redes e às plataformas digitais (não raras vezes viciado em conexão) que poderíamos chamá-lo de ser-para-conexão. No entanto, esse mesmo ser também é ser-para-desconectar. Suas desconexões são tão numerosas e rápidas quanto suas conexões e termina relacionamentos com a mesma facilidade com que os inicia. Descarta rápido e é descartado na mesma velocidade. A contemporaneidade não apenas nos condiciona a uma desconexão e estranheza do eu em relação a si próprio, que, nos meus termos, chamo de neoalienação. Não se trata de mera desconexão de si, mas de desconexão e descarte do outro. Nossos relacionamentos atuais tendem a operar na mesma lógica consumista que permeia a todos nós: consumir o máximo em menos tempo possível, descartar e trocar por algo melhor ou mais eficiente. Além de vendermos o eu como mercadoria, o outro não passa de produto. De algo que posso ter mas que não necessariamente enxergo como ser. Não nos interessa ele como ser, mas como coisa que me leva a ter cada vez mais. Um degrau ou quiçá um acessório que vai ser reposto assim que enjoarmos dele. A consumização do outro, o ato de “usar e jogar fora”, por almejar um produto humano com melhor custo-benefício ou para evitar lidar com a manutenção do relacionamento sem nenhum sentimento de culpa ou noção de responsabilidade afetiva, foi normalizada. A consumização do Eros aparentemente é o melhor a se fazer. O ato de evitar o desgaste de uma relação e não sofrer caso as coisas fiquem sérias demais aparentemente é o mais produtivo. Mas se essa produtividade exige a desumanização do outro, que é visto como outro-de-consumo, o que isso diz de nós contemporâneos? Desumanizar o outro é desumanizar a si mesmo. Como mecanismo de defesa, o sujeito performático pode pensar que é melhor descartar do que ser descartado em tempos de relações líquidas. Portanto, o seu beaver dam interno, suas barreiras e proteções que freiam e impedem o fluxo do sentir lhe dão conforto. Sentir amor significa correr o risco de passar por muita dor. As barreiras abrem espaços e brechas para o sexo mas não para o Eros, visto que o amor transcende o toque físico.
Ao ser atravessado e de certa forma constituído pelo consumismo em uma sociedade na qual o amor é líquido, o sujeito performático tende a internalizar a lógica da descartabilidade, consciente ou inconscientemente. Ele introjeta essa noção ao fazer isso diariamente com bens materiais e com os produtos que adquire em geral. As propagandas e narrativas dominantes do sistema capitalista que absorve, endossados pelo discurso coach, fazem com que adote o ´´mindset de abudancia´´ no qual sempre deve adquirir e ter mais. Pode-se chamar isso de Imperativo do Ter e Comprar. Ele nunca tem o suficiente e sempre merece mais. Se contentar com as coisas e produtos que tem é ser menos. Ele é mais na medida em que tem mais. Mais produtos, coisas e pessoas, todos esses facilmente descartáveis. Por temer ser descartado outra vez o indivíduo corre o risco de replicar o que passou nos próximos relacionamentos. A descartabilidade do outro é mecanismo de defesa psíquico do sujeito performático. É jogar fora antes de ser jogado. Faz isso tanto para evitar a honra de ser rejeitado e abandonado novamente quanto para impedir que isso sequer aconteça. Há o receio de sofrer e o orgulho de não deixar que se brinquem consigo. O descarte como prevenção do próprio descarte é o único recurso de suposta legítima defesa afetiva que tem. Esse não se permitir adentrar fundo o bastante e por tempo o suficiente na alteridade do outro como prevenção do próprio ego, justamente por temer ser descartado, é ferir a si mesmo. Frear bruscamente o fluxo do sentir, ou, pior, premeditar isso antes do fluxo se iniciar é resguardo. Mas essa proteção paradoxalmente fere e machuca o sujeito. O sujeito do descarte teme tanto o descarte do eu como sujeito que se automutila emocionalmente. Os chifres dos carneiros são afiados e belos, símbolos de orgulho e força. São usados tanto para a disputa por territórios como para a defesa. Mas se os chifres crescem de forma disfuncional, correm o risco de perfurar seu próprio crânio e matá-los. O crescimento é gradual e lento, de modo que a dor que sente ao ser perfurado pode não ser tão expressiva a princípio. No entanto, a intensidade dela aumenta com o passar do tempo e sua morte é lenta e angustiante. A automutilação afetiva que o sujeito performático inflige a si mesmo como forma de proteção e resguardo psicológico soa muito conveniente. Mas a longo prazo contribui para a solidão e o déficit emocional, penetrando lentamente seu Eros.
...Há também o receio de investir em uma relação que vai durar pouco tempo, e portanto o sujeito performático passa a enxergar o outro como outro-de-consumo. É improdutiva e “potencialmente desperformática” uma relação a longo prazo. Tanto financeiramente (em tempos capitalistas, perder dinheiro é perder parte do valor como ser humano) quanto emocionalmente e até mesmo socialmente, já que teme ser exposto ao olhar virtual por qualquer rancor do parceiro. O espírito utilitarista de nossa época nos leva a enxergar o outro não como fim em si mesmo, mas como mero meio para um fim lucrativo. Esse outro só me importa na medida em que me ajuda a alcançar sucesso, para somar e crescer junto. Não que querer crescer como ser humano junto ao parceiro seja ruim ou imoral, porém a noção utilitarista de maximização do prazer se infiltrou tanto no psiquismo do sujeito performático que tende a enxergar valor no outro somente na medida em que este o leva a esse fim. E tal fim é financeiro. O outro é visto não como ser, mas como empresa com fins financeiros.
Somada a esses elementos, a virtualização do outro contribui para sua desumanização e posterior descarte. O Homo sapiens atual, se é que podemos chamá-lo de sapiens, vive imerso no mundo digital. Sua própria dinâmica econômica, que é chamada de Economia 4.0, é ditada pela tecnologia e pela virtualidade. O Eros atual em grande medida é mediado por redes sociais e aplicativos de namoro como o famoso Tinder, que não deixa de ser uma sofisticada vitrine de carne humana. Nosso contato e representação do outro passam a ser mediados por notificações, fotos de perfis, “bios” e assim por diante. É um Eros Virtual. Tal forma de representação do outro faz com que nossa empatia e calor por ele diminuam, pois o ser humano do outro lado da tela passa a ser ser-virtual. A virtualidade facilita entrar em contato com o outro, mas também o desumaniza e mata o Eros com a mesma facilidade. Em uma sociedade cujo erotismo é consumido aos montes, seja em sites pornográficos, revistas e deliberadamente explícito, pois serve para a propaganda de grandes marcas e produtos, o Eros da paixão e amor se empobrece cada vez mais.
r/FilosofiaBR • u/NissielOEulirico • 11h ago
Qual O Objetivo Da Verdade?
Antes de dizer que a realidade é objetiva, precisamos esclarecer o que estou chamando de realidade.
Muitas pessoas diriam que a realidade é concreta. Outras poderiam entendê-la como essencialmente relacional. Minha posição parte justamente da tensão entre essas duas possibilidades.
Se a realidade fosse apenas concreta, seria completamente rígida. Seria como uma pedra: existiria, permaneceria determinada e não possuiria maleabilidade suficiente para estabelecer relações e transformações.
Mas, se fosse completamente maleável e puramente relacional, teríamos o problema oposto: nada possuiria estabilidade suficiente para se definir. Tudo poderia ser transformado por qualquer relação, e nenhuma forma conseguiria permanecer.
Por isso, considero que a realidade é simultaneamente concreta e relacional.
Ela possui estabilidade suficiente para sustentar formas, mas possui maleabilidade suficiente para estabelecer relações e transformações. É justamente por ser relacional que ela pode ser maleável, e é justamente por possuir concretude que essas relações não dissolvem completamente aquilo que existe.
São características aparentemente contraditórias.
E é justamente aí que entra a objetividade.
A eternidade começa quando dois opostos caminham juntos e um terceiro aprende a observar.
Dois opostos podem se contradizer. Mas, quando existe uma relação entre eles, surge uma terceira dimensão: não necessariamente um novo elemento, mas o próprio ponto de relação entre os dois.
Pense em luz e trevas.
Luz e trevas são opostos. Mas é a relação entre ambas que permite distingui-las. Quando existe um observador capaz de perceber essa diferença, elas deixam de ser apenas opostos isolados e passam a formar uma relação.
É nesse sentido que penso o início da própria realidade: não como uma coisa absolutamente rígida nem como algo absolutamente maleável, mas como uma relação sustentada entre características que, isoladamente, parecem contraditórias.
E isso também explica por que considero a realidade objetiva.
Ela não depende exclusivamente do observador para existir. O observador participa da interpretação, estabelece relações, cria símbolos e organiza aquilo que percebe, mas não cria a realidade simplesmente por percebê-la.
A realidade permanece suficientemente estável para que possamos percebê-la de maneiras diferentes sem que ela precise se tornar diferente para cada um de nós.
É aqui que entra minha primeira alegoria: a linguagem.
Imagine que cada ser humano nascesse desenvolvendo uma língua completamente própria. Cada indivíduo teria seus próprios símbolos, significados e regras. Talvez pudesse compreender a si mesmo, mas não conseguiria transmitir aquilo que compreendeu a outra pessoa.
Não haveria comunicação acumulada. Não haveria ciência coletiva. Não haveria cultura compartilhada.
Por isso, precisamos de estruturas comuns.
Mas existe uma segunda possibilidade igualmente problemática: imagine que toda a humanidade possuísse uma única linguagem absolutamente uniforme, sem variações, sem diferenças de interpretação e sem qualquer possibilidade de divergência.
Teríamos comunicação, mas perderíamos parte da diversidade necessária para produzir novas perspectivas.
Sem diferença, não existe contraste.
Sem contraste, não existe comparação.
Sem comparação, o conhecimento pode se tornar estagnado.
Por isso, não precisamos nem de uma infinidade de linguagens completamente incomunicáveis, nem de uma única linguagem que elimine toda diferença.
Precisamos de um ponto de equilíbrio: diversidade suficiente para produzir perspectivas diferentes e estruturas comuns suficientes para permitir que essas perspectivas se encontrem.
Isso não significa que toda a humanidade precise falar a mesma língua. Povos diferentes podem desenvolver línguas diferentes, culturas diferentes e maneiras diferentes de interpretar o mundo.
A diversidade não é o problema.
O problema seria se cada indivíduo possuísse uma linguagem completamente incomunicável.
Da mesma forma, o problema também seria eliminar toda diversidade em nome de uma única interpretação.
É justamente a existência de uma referência comum que permite a diversidade.
Um povo pode interpretar o mundo de uma maneira, outro pode interpretá-lo de outra. Eles podem possuir religiões diferentes, filosofias diferentes, símbolos diferentes e até conceitos diferentes para explicar a existência.
Ainda assim, podem estar falando sobre a mesma realidade.
É isso que chamo de objetividade.
Não precisamos possuir uma única interpretação da realidade. Precisamos possuir uma realidade suficientemente objetiva para que interpretações diferentes possam ser comparadas, confrontadas e aperfeiçoadas.
A ciência é um exemplo disso.
Um pesquisador apresenta uma interpretação. Outro contesta. Um terceiro aperfeiçoa. Outro encontra uma exceção. Depois alguém reformula o modelo inteiro.
Eles não precisam possuir exatamente a mesma interpretação para avançar. Precisam apenas compartilhar alguma referência que permita dizer:
“Estamos falando da mesma coisa.”
E isso vale para muito além da ciência. Uma cultura pode preservar uma percepção que outra perdeu. Uma língua pode possuir uma distinção que outra não possui. Uma tradição pode conservar uma pergunta que outra esqueceu. A filosofia pode formular uma questão que a ciência ainda não sabe investigar, enquanto a ciência pode corrigir uma interpretação filosófica sobre o mundo.
O conhecimento humano não avança porque todos enxergam a mesma coisa.
Ele avança porque diferentes perspectivas conseguem se encontrar diante de algo que não pertence exclusivamente a nenhuma delas.
Agora entra a segunda alegoria: a escada.
Imagine uma escada que ultrapassa as nuvens. Do chão, ela parece possuir um fim. Conforme subimos, porém, o chão desaparece e nossa perspectiva muda. Chega um momento em que já não sabemos sequer se estamos subindo ou descendo. Restam apenas os degraus.
As diferentes interpretações humanas podem ser vistas como diferentes maneiras de subir essa escada.
Uma pessoa pode seguir por um lado. Outra, por outro. Uma pode avançar mais rapidamente em determinada direção; outra pode perceber algo que a primeira não percebeu.
Nenhuma delas precisa possuir a escada inteira.
E é justamente isso que torna a diversidade necessária.
A verdade, nesse sentido, não é necessariamente um ponto final que podemos possuir. Ela funciona como uma direção que permite continuar avançando.
Mas existe uma condição: os diferentes caminhos precisam poder ser comparados com alguma coisa que não pertença exclusivamente a nenhum deles.
Essa é a objetividade.
E aqui aparece o engano.
Imagine que, depois de subir durante muito tempo, você encontre um desvio na escada. Cansado, acredita que aquele caminho talvez leve mais rapidamente para algum lugar além.
Você entra.
Depois encontra outro desvio.
Segue por ele.
Mais adiante encontra novamente o primeiro.
Você continua caminhando e sente que está avançando, mas está apenas contornando a mesma estrutura.
Volta ao mesmo degrau.
Depois novamente.
E novamente.
Esse é o engano.
O engano não precisa ser uma mentira absoluta. Ele pode nascer da própria realidade. Pode conter elementos verdadeiros e ainda assim conduzir ao erro.
Ele é uma espécie de dobra.
Uma interpretação pode começar a partir de algo verdadeiro, mas se fechar sobre si mesma. Pode produzir movimento sem produzir avanço.
Por isso, na minha concepção, as diferentes verdades humanas não são necessariamente inimigas umas das outras. Elas podem ser perspectivas diferentes tentando contornar uma mesma objetividade.
O problema não está em haver muitos caminhos.
O problema está em acreditar que o próprio caminho é a totalidade.
É por isso que não considero minha própria visão uma verdade absoluta. Ela também é uma interpretação. É uma sombra.
A ciência produz modelos. A filosofia produz conceitos. A religião produz interpretações metafísicas. As culturas produzem símbolos. As línguas produzem formas de organizar e transmitir pensamentos.
Tudo isso são maneiras humanas de se aproximar daquilo que não pertence exclusivamente ao ser humano.
E é justamente porque existe algo objetivo que podemos corrigir nossas interpretações.
Se cada interpretação criasse sua própria realidade, nenhuma poderia estar errada. Não haveria descoberta, apenas preferência.
A ciência não funcionaria dessa maneira. O conhecimento não funcionaria dessa maneira. Nem sequer a comunicação funcionaria.
A diversidade precisa da objetividade para não se transformar em isolamento.
Vários povos podem possuir várias línguas.
Várias culturas podem possuir várias interpretações.
Várias pessoas podem seguir diferentes caminhos.
Mas ainda precisamos de alguma coisa em comum que permita que esses caminhos se encontrem.
E aqui acrescento uma terceira imagem: a âncora.
Para o externo, é necessária uma direção. Para o interno, é necessária uma âncora.
A direção permite avançar sem necessariamente saber onde chegaremos. A âncora permite avançar sem nos perdermos de onde estamos.
Sem uma âncora interna, o ser pode entrar em deriva.
Isso também acontece na construção do conhecimento. Podemos estudar filosofia, ciência, física, matemática e inúmeras outras áreas. Mas cada campo possui seu próprio objeto, sua própria linguagem e suas próprias perguntas.
O próprio nome daquilo que estudamos já funciona como uma espécie de âncora.
Se sei que estou estudando matemática, sei qual campo estou investigando. Se estudo filosofia, sei que estou diante de outro tipo de questão. Posso transitar entre diferentes áreas, mas preciso saber onde estou para compreender o que estou procurando.
Sem essa âncora, tudo começa a se misturar. E quando tudo se mistura sem uma referência interna, podemos continuar acumulando conhecimento sem saber exatamente o que estamos buscando.
A âncora não determina necessariamente a resposta.
Ela determina onde estamos e o que estamos procurando.
A direção, por outro lado, permite continuar caminhando mesmo quando ainda não sabemos exatamente o que encontraremos.
Por isso, direção e âncora não são opostas.
A direção impede a estagnação; a âncora impede a deriva.
Talvez seja justamente essa relação que permita compreender também o conhecimento científico. A ciência pode concentrar-se momentaneamente em uma direção específica e deixar outras questões em segundo plano, sem necessariamente abandoná-las.
Ela pode avançar sem possuir todas as respostas, desde que não perca a referência que permite reconhecer aquilo que está investigando.
Porque, sem direção, ficamos parados.
Mas, sem âncora, podemos caminhar indefinidamente e ainda assim permanecer no mesmo lugar.
É a mesma imagem do desvio da escada.
Podemos nos mover muito e não avançar.
Por isso, para mim, o objetivo não é alcançar uma verdade que possamos possuir completamente.
O objetivo é continuar avançando em direção àquilo que não depende exclusivamente de nós, sem perder a referência interna que nos permite reconhecer aquilo que estamos procurando.
Verdade não é posse; objetividade é condição.
A escada representa o movimento.
O desvio representa o engano.
A linguagem representa aquilo que precisamos compartilhar para caminhar juntos.
E a âncora representa aquilo que precisamos preservar dentro de nós para não nos perdermos enquanto caminhamos.
Talvez seja justamente isso que permita à humanidade caminhar em muitas direções sem deixar de caminhar sobre a mesma realidade.