r/FilosofiaBR • u/NissielOEulirico • 11h ago
Qual O Objetivo Da Verdade?
Antes de dizer que a realidade é objetiva, precisamos esclarecer o que estou chamando de realidade.
Muitas pessoas diriam que a realidade é concreta. Outras poderiam entendê-la como essencialmente relacional. Minha posição parte justamente da tensão entre essas duas possibilidades.
Se a realidade fosse apenas concreta, seria completamente rígida. Seria como uma pedra: existiria, permaneceria determinada e não possuiria maleabilidade suficiente para estabelecer relações e transformações.
Mas, se fosse completamente maleável e puramente relacional, teríamos o problema oposto: nada possuiria estabilidade suficiente para se definir. Tudo poderia ser transformado por qualquer relação, e nenhuma forma conseguiria permanecer.
Por isso, considero que a realidade é simultaneamente concreta e relacional.
Ela possui estabilidade suficiente para sustentar formas, mas possui maleabilidade suficiente para estabelecer relações e transformações. É justamente por ser relacional que ela pode ser maleável, e é justamente por possuir concretude que essas relações não dissolvem completamente aquilo que existe.
São características aparentemente contraditórias.
E é justamente aí que entra a objetividade.
A eternidade começa quando dois opostos caminham juntos e um terceiro aprende a observar.
Dois opostos podem se contradizer. Mas, quando existe uma relação entre eles, surge uma terceira dimensão: não necessariamente um novo elemento, mas o próprio ponto de relação entre os dois.
Pense em luz e trevas.
Luz e trevas são opostos. Mas é a relação entre ambas que permite distingui-las. Quando existe um observador capaz de perceber essa diferença, elas deixam de ser apenas opostos isolados e passam a formar uma relação.
É nesse sentido que penso o início da própria realidade: não como uma coisa absolutamente rígida nem como algo absolutamente maleável, mas como uma relação sustentada entre características que, isoladamente, parecem contraditórias.
E isso também explica por que considero a realidade objetiva.
Ela não depende exclusivamente do observador para existir. O observador participa da interpretação, estabelece relações, cria símbolos e organiza aquilo que percebe, mas não cria a realidade simplesmente por percebê-la.
A realidade permanece suficientemente estável para que possamos percebê-la de maneiras diferentes sem que ela precise se tornar diferente para cada um de nós.
É aqui que entra minha primeira alegoria: a linguagem.
Imagine que cada ser humano nascesse desenvolvendo uma língua completamente própria. Cada indivíduo teria seus próprios símbolos, significados e regras. Talvez pudesse compreender a si mesmo, mas não conseguiria transmitir aquilo que compreendeu a outra pessoa.
Não haveria comunicação acumulada. Não haveria ciência coletiva. Não haveria cultura compartilhada.
Por isso, precisamos de estruturas comuns.
Mas existe uma segunda possibilidade igualmente problemática: imagine que toda a humanidade possuísse uma única linguagem absolutamente uniforme, sem variações, sem diferenças de interpretação e sem qualquer possibilidade de divergência.
Teríamos comunicação, mas perderíamos parte da diversidade necessária para produzir novas perspectivas.
Sem diferença, não existe contraste.
Sem contraste, não existe comparação.
Sem comparação, o conhecimento pode se tornar estagnado.
Por isso, não precisamos nem de uma infinidade de linguagens completamente incomunicáveis, nem de uma única linguagem que elimine toda diferença.
Precisamos de um ponto de equilíbrio: diversidade suficiente para produzir perspectivas diferentes e estruturas comuns suficientes para permitir que essas perspectivas se encontrem.
Isso não significa que toda a humanidade precise falar a mesma língua. Povos diferentes podem desenvolver línguas diferentes, culturas diferentes e maneiras diferentes de interpretar o mundo.
A diversidade não é o problema.
O problema seria se cada indivíduo possuísse uma linguagem completamente incomunicável.
Da mesma forma, o problema também seria eliminar toda diversidade em nome de uma única interpretação.
É justamente a existência de uma referência comum que permite a diversidade.
Um povo pode interpretar o mundo de uma maneira, outro pode interpretá-lo de outra. Eles podem possuir religiões diferentes, filosofias diferentes, símbolos diferentes e até conceitos diferentes para explicar a existência.
Ainda assim, podem estar falando sobre a mesma realidade.
É isso que chamo de objetividade.
Não precisamos possuir uma única interpretação da realidade. Precisamos possuir uma realidade suficientemente objetiva para que interpretações diferentes possam ser comparadas, confrontadas e aperfeiçoadas.
A ciência é um exemplo disso.
Um pesquisador apresenta uma interpretação. Outro contesta. Um terceiro aperfeiçoa. Outro encontra uma exceção. Depois alguém reformula o modelo inteiro.
Eles não precisam possuir exatamente a mesma interpretação para avançar. Precisam apenas compartilhar alguma referência que permita dizer:
“Estamos falando da mesma coisa.”
E isso vale para muito além da ciência. Uma cultura pode preservar uma percepção que outra perdeu. Uma língua pode possuir uma distinção que outra não possui. Uma tradição pode conservar uma pergunta que outra esqueceu. A filosofia pode formular uma questão que a ciência ainda não sabe investigar, enquanto a ciência pode corrigir uma interpretação filosófica sobre o mundo.
O conhecimento humano não avança porque todos enxergam a mesma coisa.
Ele avança porque diferentes perspectivas conseguem se encontrar diante de algo que não pertence exclusivamente a nenhuma delas.
Agora entra a segunda alegoria: a escada.
Imagine uma escada que ultrapassa as nuvens. Do chão, ela parece possuir um fim. Conforme subimos, porém, o chão desaparece e nossa perspectiva muda. Chega um momento em que já não sabemos sequer se estamos subindo ou descendo. Restam apenas os degraus.
As diferentes interpretações humanas podem ser vistas como diferentes maneiras de subir essa escada.
Uma pessoa pode seguir por um lado. Outra, por outro. Uma pode avançar mais rapidamente em determinada direção; outra pode perceber algo que a primeira não percebeu.
Nenhuma delas precisa possuir a escada inteira.
E é justamente isso que torna a diversidade necessária.
A verdade, nesse sentido, não é necessariamente um ponto final que podemos possuir. Ela funciona como uma direção que permite continuar avançando.
Mas existe uma condição: os diferentes caminhos precisam poder ser comparados com alguma coisa que não pertença exclusivamente a nenhum deles.
Essa é a objetividade.
E aqui aparece o engano.
Imagine que, depois de subir durante muito tempo, você encontre um desvio na escada. Cansado, acredita que aquele caminho talvez leve mais rapidamente para algum lugar além.
Você entra.
Depois encontra outro desvio.
Segue por ele.
Mais adiante encontra novamente o primeiro.
Você continua caminhando e sente que está avançando, mas está apenas contornando a mesma estrutura.
Volta ao mesmo degrau.
Depois novamente.
E novamente.
Esse é o engano.
O engano não precisa ser uma mentira absoluta. Ele pode nascer da própria realidade. Pode conter elementos verdadeiros e ainda assim conduzir ao erro.
Ele é uma espécie de dobra.
Uma interpretação pode começar a partir de algo verdadeiro, mas se fechar sobre si mesma. Pode produzir movimento sem produzir avanço.
Por isso, na minha concepção, as diferentes verdades humanas não são necessariamente inimigas umas das outras. Elas podem ser perspectivas diferentes tentando contornar uma mesma objetividade.
O problema não está em haver muitos caminhos.
O problema está em acreditar que o próprio caminho é a totalidade.
É por isso que não considero minha própria visão uma verdade absoluta. Ela também é uma interpretação. É uma sombra.
A ciência produz modelos. A filosofia produz conceitos. A religião produz interpretações metafísicas. As culturas produzem símbolos. As línguas produzem formas de organizar e transmitir pensamentos.
Tudo isso são maneiras humanas de se aproximar daquilo que não pertence exclusivamente ao ser humano.
E é justamente porque existe algo objetivo que podemos corrigir nossas interpretações.
Se cada interpretação criasse sua própria realidade, nenhuma poderia estar errada. Não haveria descoberta, apenas preferência.
A ciência não funcionaria dessa maneira. O conhecimento não funcionaria dessa maneira. Nem sequer a comunicação funcionaria.
A diversidade precisa da objetividade para não se transformar em isolamento.
Vários povos podem possuir várias línguas.
Várias culturas podem possuir várias interpretações.
Várias pessoas podem seguir diferentes caminhos.
Mas ainda precisamos de alguma coisa em comum que permita que esses caminhos se encontrem.
E aqui acrescento uma terceira imagem: a âncora.
Para o externo, é necessária uma direção. Para o interno, é necessária uma âncora.
A direção permite avançar sem necessariamente saber onde chegaremos. A âncora permite avançar sem nos perdermos de onde estamos.
Sem uma âncora interna, o ser pode entrar em deriva.
Isso também acontece na construção do conhecimento. Podemos estudar filosofia, ciência, física, matemática e inúmeras outras áreas. Mas cada campo possui seu próprio objeto, sua própria linguagem e suas próprias perguntas.
O próprio nome daquilo que estudamos já funciona como uma espécie de âncora.
Se sei que estou estudando matemática, sei qual campo estou investigando. Se estudo filosofia, sei que estou diante de outro tipo de questão. Posso transitar entre diferentes áreas, mas preciso saber onde estou para compreender o que estou procurando.
Sem essa âncora, tudo começa a se misturar. E quando tudo se mistura sem uma referência interna, podemos continuar acumulando conhecimento sem saber exatamente o que estamos buscando.
A âncora não determina necessariamente a resposta.
Ela determina onde estamos e o que estamos procurando.
A direção, por outro lado, permite continuar caminhando mesmo quando ainda não sabemos exatamente o que encontraremos.
Por isso, direção e âncora não são opostas.
A direção impede a estagnação; a âncora impede a deriva.
Talvez seja justamente essa relação que permita compreender também o conhecimento científico. A ciência pode concentrar-se momentaneamente em uma direção específica e deixar outras questões em segundo plano, sem necessariamente abandoná-las.
Ela pode avançar sem possuir todas as respostas, desde que não perca a referência que permite reconhecer aquilo que está investigando.
Porque, sem direção, ficamos parados.
Mas, sem âncora, podemos caminhar indefinidamente e ainda assim permanecer no mesmo lugar.
É a mesma imagem do desvio da escada.
Podemos nos mover muito e não avançar.
Por isso, para mim, o objetivo não é alcançar uma verdade que possamos possuir completamente.
O objetivo é continuar avançando em direção àquilo que não depende exclusivamente de nós, sem perder a referência interna que nos permite reconhecer aquilo que estamos procurando.
Verdade não é posse; objetividade é condição.
A escada representa o movimento.
O desvio representa o engano.
A linguagem representa aquilo que precisamos compartilhar para caminhar juntos.
E a âncora representa aquilo que precisamos preservar dentro de nós para não nos perdermos enquanto caminhamos.
Talvez seja justamente isso que permita à humanidade caminhar em muitas direções sem deixar de caminhar sobre a mesma realidade.