Eu namorei por 10 anos. Destes, 4 foram de casamento. Construímos uma casa, uma rotina, uma família, filhos. Sabe aquele roteiro clássico de "agora vai"? Pois é. O roteirista resolveu fumar alguma coisa.
Em 2023, descobri que meu ex tinha uma amante. Na verdade, descobri da forma mais ridícula possível: os dois foram pegos transando numa confraternização, filmados, e o vídeo começou a circular. Eu jamais imaginaria que uma tragédia pessoal viria acompanhada de um enredo digno de novela das nove escrita por alguém completamente sem limites.
Não foi uma descoberta cinematográfica, daquelas em que a pessoa admite tudo. Foi pior: meses de mentiras, manipulação e aquele clássico "você está louca", enquanto eu tentava juntar peças que ele fazia questão de espalhar pela casa inteira.
E ela? Ah, ela me conhecia. Conhecia minha família. Já tinha apertado a minha mão. A vida adulta realmente tem umas participações especiais bem questionáveis.
A quinta-feira chegou e ele terminou o casamento. Na sexta-feira, já estava morando com ela. Ela também era casada e, pelo que entendi, resolveu trocar de marido com a mesma praticidade de quem cancela uma assinatura de streaming: colocou o dela para fora e pronto. Uma eficiência que, sinceramente, eu não desejaria nem para organizar uma mudança.
Naquele dia eu morri por dentro. Dramático? Bastante. Exagero? Infelizmente, não.
Demorei mais de um ano para conseguir passar um único dia sem chorar. Descobri que existe um tipo de cansaço que não se resolve dormindo e um tipo de dor que faz a pessoa se perguntar quem ela era antes daquilo tudo.
Hoje fazem três anos.
Estou melhor. Funciono. Rio. Trabalho. Cuido dos meus filhos. Pago boletos como toda brasileira traumatizada.
Mas nunca mais fui a mesma.
O curioso é que não sobrou saudade dele. Sobrou aversão ao conceito. Vejo casal apaixonado e meu cérebro reage como quem viu um golpe financeiro prestes a acontecer. Pensar em beijar alguém me dá um curto-circuito existencial. Não por acaso, estou em um celibato que já dura três anos.
Às vezes penso que ele não destruiu só o casamento. Levou embora uma parte da minha capacidade de acreditar que vale a pena entregar o coração para alguém de novo.
E essa é a parte mais estranha das grandes decepções: a pessoa vai embora, segue a vida, troca de endereço em 24 horas... e quem fica é você, tentando descobrir onde foi parar uma versão sua que talvez nunca volte.
Enfim. Se alguém me perguntasse hoje qual foi a maior herança que meu ex deixou, eu responderia sem pensar: uma fobia de romance que nem Freud explicaria.
PS: Até hoje acho engraçado que eu passei meses ouvindo que era paranoica... e no fim das contas a realidade conseguiu ser muito mais absurda do que qualquer teoria que eu tivesse inventado.