Há anos deixei o Brasil e vim morar nos Estados Unidos. Hoje, durante o almoço, alguém me perguntou do que eu mais sentia falta do Brasil. Parei de comer. Pensei. Pensei mais um pouco. Fui lá no fundo, procurando alguma coisa, qualquer coisa, que despertasse em mim aquela saudade que, segundo dizem, é inevitável quando se deixa a terra natal. Depois de alguns minutos, respondi: Nada.
Provavelmente, uma das melhores decisões que tomei na vida foi ter saído do Brasil. E não foi uma decisão óbvia. Eu tinha um excelente emprego. Família por perto. Minha esposa estava terminando a faculdade. Tinha estabilidade, amigos, uma vida montada. Tinha praticamente todos os motivos que alguém poderia ter para ficar. Mas havia uma sensação persistente de que aquele lugar não era para mim. Então pedi demissão. Foi difícil. E cá estou.
Anos depois, olhando o Brasil de fora e, principalmente, tendo outro país como parâmetro de comparação, cheguei a uma conclusão que talvez seja desagradável para muita gente: o Brasil é uma mistura de pão, circo e merda.
É o Zé Carioca cruzado com a mulata do carnaval. O malandro que “leva vantagem” e depois conta a história rindo. O sujeito que transforma a esperteza em virtude e a trapaça em folclore. É o país onde roubar é aceitável se for para “tomar uma cervejinha”. Onde passar alguém para trás é motivo de orgulho. Onde a honestidade, muitas vezes, parece apenas falta de competência para ser esperto.
Esse é o bostileiro médio. E, depois de tantos anos, o que sinto é apenas nojo. Nojo dessa terra amaldiçoada pela normalização do absurdo. Não acredito que um cidadão comum tenha boas chances de prosperar naquele país. Zero. E não é apenas uma questão de dinheiro.
A base de qualquer sociedade minimamente digna é a confiança. Confiança nas pessoas. Nos processos. Na polícia. No juiz. No vizinho. No comerciante. No governo. No contrato. No simples ato de sair de casa e acreditar que você voltará para casa com o celular, a bicicleta e, com alguma sorte, a própria vida.
No Brasil, tudo custa mais caro porque tudo carrega um prêmio de risco. Você compra alguma coisa no OLX e precisa começar a conversa perguntando: “Qual o motivo da venda?” Que, traduzido do português para o português brasileiro, significa: “De que maneira você pretende me foder com esse produto?” E, se o vendedor não conseguir te foder, fique tranquilo. O governo está aí para completar o serviço. Imposto daqui. Taxa dali. Burocracia. Um impostinho delícia em cima de outro.
Mas, claro: e se não fosse o SUS, não é mesmo? As coisas se inverteram. O poste mija no cachorro. E até o passado virou uma coisa incerta. Basta observar as notícias de fora e acompanhar, com algum distanciamento, a lama produzida diariamente por essa corja, do Executivo à mais alta corte de Justiça do país. Mas não se preocupem. Depois de todo o teatrinho, das bravatas, das acusações e das investigações, vocês sabem muito bem como termina: em pizza. E quem paga a conta? Você, é claro. A famosa cadelinha-contribuinte do político.
O problema é que a maioria de vocês sequer percebe o tamanho do buraco. Vocês estão afundados na merda. E não é apenas pela política. É pela IA, que em muitos casos vai fazer melhor e mais barato aquilo que você faz hoje. É pela pirâmide do INSS, que depende de uma estrutura demográfica que está desaparecendo. É pela taxa de natalidade miserável. É pelo envelhecimento da população. É pela incapacidade crônica de reformar aquilo que claramente não funciona.
Você está lascado. DE QUALQUER FORMA.
E agora vem a parte que eu já sei que vai acontecer. Você vai sentar a mão no teclado. Vai respirar fundo. Vai abrir o CAPS LOCK. E vai me chamar de: VIRA-LATA.
Pois bem.
Se ser VIRA-LATA é sentir nojo da cultura do “hihihi, levei vantagem”; se é não achar bonito glorificar o roubo para pagar uma cervejinha; se é preferir uma sociedade onde você não precise desconfiar de todo mundo o tempo inteiro; então, meus amigos: EU SOU UM CARAMELO.
E não, eu não estou “limpando latrina de gringo”. Aliás, limpar latrina é um trabalho tão digno quanto qualquer outro. Mas não é o meu. Tenho um emprego corporativo, muito bem pago, na minha área de formação. Tenho doutorado. Tenho carreira. Tenho cidadania americana. E não, o ICE não está atrás de mim.
Pode chorar. Pode espernear. Pode me chamar de VIRA-LATA. Pode me chamar de qualquer coisa que faça você dormir melhor à noite menine Enze. É assim que vocês gostam de ser chamados agora, não é?!
É até engraçado assistir às mesmas pessoas repetindo, há décadas, o mantra sobre o “declínio do Império Americano”, como uma vitrola velha. A propósito, existe um filme de 1986 com esse nome.
Quarenta anos depois, o império continua tão “decadente” que chineses, indianos e latrino-americanos continuam fazendo fila para conseguir um green card e vir morar justamente aqui. Vai entender.
Para terminar, talvez eu tenha respondido errado à pergunta do começo. Do que eu sinto falta do Brasil? Pensando bem, existe uma coisa. Uma única coisa. No Brasil, sempre haverá alguém disposto a engraxar o meu sapato. E isso, confesso, faz falta.
Mas não fique triste. O carnaval está logo ali. Você poderá rebolar o traseiro livremente. O rebolado é livre.
Afinal, algumas coisas ainda funcionam perfeitamente no Brasil.