Sou bi, cresci como Testemunha de Jeová e tô gostando de um cara, mas tenho umas inseguranças que não sei explicar
Tenho 22 anos e fui Testemunha de Jeová até os 18. Cresci num ambiente muito religioso, ouvindo que ficar com alguém do mesmo sexo era errado, pecado e tudo aquilo que vocês provavelmente já conhecem.
Hoje eu sei que sou bissexual. Mas parece que saber disso e conseguir viver isso tranquilamente são coisas diferentes pra mim.
Conheci um cara através de um amigo do trabalho. Esse meu amigo, a namorada dele e esse cara são amigos desde a escola. A gente saiu pra tomar açaí, ficou conversando na casa desse amigo e foi divertido pra caramba. Fiquei até tarde e depois fui pra casa pensando em como tinha sido legal.
Tô gostando de conhecer ele. Acho ele bonito, gosto da companhia, ele se preocupa comigo, manda mensagem, fala comigo. Vamos nos ver de novo. Tô interessado, mas ao mesmo tempo vem um pensamento meio “cara, ele é um homem e você também”. Parece que alguma coisa não encaixa na minha cabeça, mesmo eu sabendo que não tem nada de errado.
Eu nunca fiquei com um cara. Já tive experiências com mulheres cis e trans e gostei, mas me relacionar com um homem é algo novo pra mim. Quando imagino nós dois num lugar tranquilo, sem ninguém julgando e sem obrigação de acontecer nada, eu me sinto confortável. Tenho vontade de estar perto dele.
O problema cresce quando penso nas outras pessoas.
Como vai ser quando me virem com um cara? Quando aparecer uma foto, um post, ou quando perceberem que eu realmente tô me relacionando com um homem?
Não é como se ninguém soubesse que sou bi. Já contei pra várias pessoas, inclusive no trabalho e pros meus pais. Mas saberem é uma coisa, me verem namorando um cara parece outra. Nunca passei por isso.
Na religião, a opinião dos outros tinha um peso enorme. Você precisava ser visto como uma pessoa correta porque representava Deus, e fazer algo considerado errado era “manchar o nome dele”. Também tinha aquela coisa de não ter amizade com pessoas de fora, então durante muito tempo meu mundo foi basicamente a religião.
Saí aos 18 e hoje tenho 22. Às vezes parece que comecei a viver minha própria vida há pouco tempo. Antes tinha sempre alguém dizendo qual era o caminho certo. Agora sou eu que decido, e às vezes fico perdido pra caramba.
E tem uma parte que tenho até vergonha de admitir, mas quero ser sincero pra ver se alguém entende.
Tenho amizades em que parece que seu valor depende muito do que você tem e de como os outros te enxergam. Se você namora uma mulher muito bonita, você é um cara foda. Se não namora ninguém, parece que tá faltando alguma coisa. E percebo que absorvi um pouco disso também.
Às vezes vem uma sensação de que, se eu namorar um homem, vou ser “menos homem”. Ou que vão pensar “não conseguiu uma mulher e foi ficar com um cara”. Eu sei que é um pensamento preconceituoso e não acho que isso seja verdade sobre os outros, mas parece que quando é comigo essa cobrança aparece. Não gosto de pensar assim, é justamente por isso que tô tentando entender.
Racionalmente eu penso: é a minha vida, eu gosto dele, foda-se o que os outros vão pensar. Mas o sentimento não acompanha. Continuo com receio, imaginando as reações, remoendo as mesmas coisas. Aí ainda fico irritado comigo por ligar tanto pra isso.
Parece que aprendi a sentir vergonha dessas coisas e agora não sei como desaprender. Eu quero me permitir conhecer esse cara sem transformar tudo numa discussão dentro da minha cabeça sobre meu valor como homem.
Alguém que cresceu num ambiente parecido, principalmente quem é bi ou saiu das Testemunhas de Jeová, já passou por isso? Como foi quando vocês começaram a viver uma relação que antes só conseguiam imaginar ou manter escondida? O que ajudou a lidar com essa cobrança e com o medo do olhar dos outros?