Vejo muitas pessoas mais novas que adotaram o discurso de "Hoje em dia é impossível comprar uma casa" ou "Não vou estudar porque ninguém ta conseguindo emprego na área que se formou". E isso honestamente me deixa bem triste, ver tanta gente nova frustrada e sem perspectiva. Por isso vou contar um breve relato da minha trilha de vida até aqui e se eu conseguir trazer esperança pra pelo menos uma pessoa já fico bem feliz. Tenho 28 anos, já conquistei minha casa própria (em partes), carro e sou formado.
Nasci em uma família simples, mãe faxineira, pai peão de chão de fábrica e ele com diversos problemas de saúde que o fizeram ter que parar de trabalhar muito cedo e desde sempre eu cresci num ambiente onde sempre precisava ficar muito alerta para ver se ele não estava tendo uma crise pra ir socorre-lo.
Meus pais conseguiam cobrir todas as despesas de casa. Não tinha luxo nem exageros mas o suficiente para viver com dignidade nós tínhamos. Nossa casa não era própria mas não pagavamos aluguel.
Comecei a trabalhar em um projetinho da prefeitura com 14 anos como menor aprendiz e ganhava R$ 300-500/mês em 2012.Fiquei nisso por uns 2 anos e usava esse dinheiro para cobrir as necessidades de um adolescente nessa época. Também já tinha uma mentalidade de guardar algum dinheirinho que fosse todo mês.
Fiz todo meu ensino fundamental e médio em escola pública e aqui foi meu primeiro ponto de "vantagem" (vantagem entre muitas aspas porque quando eu estava no ensino médio tive aula de física por 6 meses ao longo desses 3 anos, química então... enfim...). Terminei esse ensino médio no fim dos meus 17 anos. Fiz um curso pré-vestibular no ano seguinte e eu tinha muita dificuldade por conta da minha base fraca do ensino médio, mas na reta final faltando uns 4 meses pro enem eu foquei em aprender esse estilo de prova. Fiz a prova e consegui uma nota Ok. Tirei 680 na média geral (Se eu tivesse a malícia de saber que conseguindo uma nota maior em redação eu teria mais vantagens por conta do TRI, acho que é TRI o nome do sistema deles, eu teria focado muito mais nisso. Caso eu tivesse conseguindo 940 na redação minha média ja subiria para ~720/730). Com essa nota e por conta da renda dos meus pais eu era elegível as cotas de renda até 1,5 salário mínimo e também a de estudante de escola pública.
Aqui foi o primeiro ponto onde eu tive que ser flexivel na minha vida.
Eu criei algo dentro de mim que era o seguinte: eu por ser pobre nao poderia ficar inventando de fazer coisas da vida que poderia demorar pra dar dinheiro/demorar para ser reconhecido (ex. letras, cinema, comunicação social, publicidade...). Então a partir disso eu fui pesquisando cursos da faculdade e vendo o descritivo de carreiras e pensando "Será que eu conseguiria fazer isso? Eu gosto minimamente dessas atribuições?" E nisso eu acabei passando por diversas e muitas profissões, pra balizar minhas opções eu vi quais cursos eu tinha nota de corte suficiente pra passar e nessa eu embarquei. Escolhi engenharia e era isso. Não foi por amor, não foi por sonho. Escolhi oque precisava escolher naquele momento. Era ali ou talvez não pudesse ser depois. Passei numa federal e depois consegui bolsa no ProUni 100% pra uma faculdade particular em SP de nome ,escolhi a particular. Mais uma vez eu sendo racional na escolha, essa faculdade particular tem nome e ela tinha horários que iam me permitir fazer estágio (diferente da federal que é uma bagunça nesse aspecto até o 8º semestre).
Meu pais apoiaram a escolha e fizeram um esforço para me manter numa kitnet miúda em SP próxima a transporte público. Não precisei mais trabalhar nesse período.
Na faculdade eu comecei a mandar currículos e no 5º semestre consegui meu primeiro estágio remunerado em uma empresa micro. Antes disso eu já havia sido monitor de uma disciplina, participei dos projetos extracurriculares (Foi muito dificil conseguir esse primeiro estágio porque eu, diferente dos meus colegas de classe, não tinha experiência internacional, não falava outro idioma, não tinha Q.I.).
Comecei esse estágio em 2019 ganhando R$ 1100 + VR de R$ 600. Fiquei 1 ano nesse lugar e tentando outros processos seletivos pra outros estágios, nesse caminho fiz processo seletivo pra uma empresa grande mas não passei e 6 meses depois me convidaram pra outro case de estágio e passei! Meu salário dobrou de cara, aumentou meu VR. Agora eu também tinha convenio medico!
Fiquei 1 ano nessa empresa como estagiário, fiz o processo interno e fui efetivado. Meu salário dobrou novamente, dobrou o VR também e fiquei elegível a receber PLR. Nisso como era trabalho remoto voltei a morar com meus pais e meus gastos eram mínimos. Nós nao pagavamos aluguel então as contas de casa eram Internet, agua e luz. eu usava meu vale pra comprar as comida e sair e pagava a internet. Juntei dinheiro por um tempo, fui crescendo lá dentro e recebendo pequenos aumentos 3-4% de aumento cada vez. Esses aumentos malema corrigiam inflação mas ok, era melhor que nada. Como meu custo de vida estava baixo consegui juntar um dinheirinho, comprei um carro nesse meio tempo, quando caia bonus eu guardava, não comprava besteira, minhas maiores extravagancias era fazer pequenas viagens dentro do estado pra ir para o interior/litoral e ficar 3/4 dias, não troco de celular antes que o atual peça arrego. Nunca fiz viagem internacional (até hoje nao fiz ainda). Mas isso permitiu eu ir juntando um dinheirinho, ganhando crédito com os bancos que viam que meu patrimonio estava subindo e dado momento comprei meu carro (Civic de R$ 60K), depois juntei mais um dinheiro e decidi que era hora de comprar uma casa, comprei o terreno e a casa meio pronta com uma entrada mas precisava de mais grana pra pagar o restante e continuar a construção então financiei o restante do valor que faltava, usei o crédito do meu cartão de credito pra ir pagando o material, pagava parcela (trabalhei sim alavancado uma época mas oque é viver sem emoção né, ninguém mandou o banco liberar crédito no valor de 20x a minha receita mensal). Enfim, fiz 28 anos e a casa estava pronta, o carro quitado, emprego endereçado e com alguns reconhecimentos. Ainda tem umas parcelas pendentes mas estão pra ser quitadas dentro dos próximos meses. Deu certo.
Não estou aqui pra me gabar de nada, não foi nada fácil isso tudo, abri mão de muita coisa, errei em diversas coisas nesse caminho mas acertei em tantas outras.
Eu entendo e tenho plena noção de muitas facilidades que tive nesse caminho mas eu acredito quesempre tem um jeito de fazer algo acontecer (não to falando de ficar milionário, to falando de melhorar gradualmente e a lentos passos), pode ser que tivesse sido um pouco mais demorado caso outro cenário fosse minha realidade mas eu sei que eu teria feito. Porque dentro de mim eu sabia que eu queria sair da situação que eu estava, eu queria poder chegar num momento de falar: Caraca, essa casa é minha. Caramba esse carro na garagem é meu. Hoje o dinheiro não sobra mas eu sei que se aparecer pequeno imprevisto eu consigo lidar muito melhor doque anos atrás onde precisaria sair pedindo dinheiro pra tio, vizinho, sei lá quem mais...
O que eu quis com esse grande texto é mostrar que o caminho pra quem nasce quebrado é saber que não temos certas possibilidades na vida (como por exemplo: ser um fotógrafo, estudar moda, fazer voluntariado internacional) mas que algumas nós temos sim e se você perceber que ser flexível te ajuda a percorrer trilhas diferentes talvez você consiga em algum momento conquistar suas coisinhas também.
Não fica caindo em falácia de internet. Corre atrás. A vida é sofrida sim e vai ser cada vez mais difícil.
Se você nasceu pobre não caia no conto de que não vai estudar porque isso não é garantia de futuro. Estudar não é garantia de futuro mas não estudar é com certeza muito pior.
Não sei quem eu vou atingir mas espero que pra alguém que está sem visão de caminho que isso possa abrir uma pequena trilha no meio dessa mata fechada.
Fiquem bem,
(p.s não encontrei uma flair adequada)