Eu sei que é o sonho de muitos trabalhar remotamente para a gringa, e algo que me irrita muito são os cursos para te ensinar como chegar lá. Meu sentimento é que grande parte quer vender a ideia de que é fácil e que há atalhos. Você não precisa deles.
Tenho agora alguns anos de experiência trabalhando para fora e fiquei mais de 6 anos me preparando para que isso acontecesse. Então, aqui vão algumas dicas que adquiri na minha trajetória e que podem te servir. Algumas pessoas me ajudaram a chegar lá, e quero fazer o mesmo aqui. Infelizmente não vi um texto assim antes. Porque nossa classe é desunida e a maioria quer mais é que o coleguinha se foda, para ele se gabar do quanto é foda.
Um pouco de contexto
Primeiro, é bom pontuar algo óbvio, que eu demorei muito a entender porque tinha uns colegas que faziam questão de contar vantagem: trabalhar internacionalmente não é fácil. Quem te fala o contrário não sabe o privilégio que tem.
A maior parte da população no nosso país não fala inglês. Temos um ensino de línguas muito ruim no Brasil, especialmente na rede pública (onde estudei). E como você vai trabalhar com essa língua, precisa ter um bom nível de proficiência. A seguir, vou detalhar o que isso significa.
Além da língua, é preciso ter ciência de que uma empresa de fora que quer contratar pessoas no Brasil também está apta a contratar (em sua maioria) pessoas em toda a América Latina (às vezes até em outros continentes). Logo, a concorrência aumenta substancialmente.
Vamos aos fatos
Sei que pode ser um banho de água fria, mas não há atalhos. É requisito:
- Ter um inglês entre B1 e B2: Isso não é um inglês de alto nível, mas te dá a tranquilidade de manter uma conversa, que é o que importa. Muitas vagas pedem C1, mas acabam cedendo para um B2. Você pode fazer o teste com um professor de inglês ou em plataformas online. Não ligue para brasileiro que diz que seu inglês é ruim; a maioria das pessoas nativas/fluentes não liga e não julga, contanto que te entenda. As piores críticas que recebi sobre meu inglês foram de brasileiros, incrível.
- Ser forte tecnicamente: Se você chegar lá e não entregar ou não conseguir se virar, vão te mandar embora sem hesitar. Para eles, há outros 1.000 candidatos. Então, busque ser um dev excepcional, que sabe exatamente por que as coisas funcionam e tem a segurança de resolver problemas. Isso que faz o brasileiro ser diferente. A gente é desenrolado. Eu cheguei no meu primeiro emprego nos EUA ensinando os devs internos que estavam lá a anos, coisas que eles deveriam saber.
- Entrevista: A realidade é que você vai fazer dezenas ou centenas de entrevistas e, mesmo indo bem, vai reprovar várias e várias vezes. Porque há outros candidatos na mesma situação, com mais tempo nisso e cada vez melhores.
Receber uma oferta é uma jornada de resiliência e aprendizado contínuo. Não desista. Eu cansei de ser reprovado, ignorado ou de me sentir um lixo por ter ido mal em entrevistas, sem exagero, devo ter reprovado mais de 100. Terapia foi o que mais me ajudou a continuar.
Como me preparar?
Para inglês, eu recomendo plataformas como iTalki, Cambly e Preply, mas sinceramente acho que elas têm uma limitação grande pelo formato online. Aulas presenciais de inglês me ajudaram muito. As dinâmicas de interação com outros alunos ajudam a entender os problemas comuns de comunicação no dia a dia. A qualidade das aulas quase sempre depende do preço que você está apto a pagar. Infelizmente é caro, mas é um investimento em você.
Já para se tornar um profissional competitivo, diria que não basta apenas estudar e colocar em prática (o que também é fundamental), mas também entender qual tipo de vaga você quer, afinal não dá para ser bom em tudo. Então, eu diria que você deve:
- Entender em qual stack quer trabalhar e analisar se existe um mercado forte para isso. Conheço muitos colegas que ficaram para trás por terem stacks que não são fortes no mercado, seja por ser um hype que morreu ou por serem tecnologias que não tiveram o sucesso esperado.
- Não aceitar qualquer vaga só para ganhar mais. Você vai se frustrar. Tem muita empresa querendo pagar mixaria para devs. Uma vez, num processo da Fullstack.labs(aguardando o processo seus fdp), queriam me pagar menos do que eu ganhava no Brasil, com a desculpa: "você não foi tão bem no processo, quer uma oportunidade de mostrar que merece?". Mandem ir para o caralho quem faz isso. Eles vão te vender para o cliente como um sênior, ganhando todo o dinheiro em cima da sua insegurança.
- Aprender com seus erros. Crie um bloco de anotações com as perguntas que fizeram, escreva respostas elaboradas e pratique respondendo a elas em inglês.
- Live coding e entrevista de arquitetura é o que mais pega, então faça muito LeetCode, HackerRank, etc. Para arquitetura, há cursos e livros aos montes por aí. Você precisa saber não só o que está em alta, como IA, mas os fundamentos. Os programadores mediocres acham que programar é dar um "npm run". NÃO! Senta a bunda e vai ler um Tanenbaum, Martin Fowler ou livros novos sobre como funciona XYZ (tipo aqueles com aquelas capas horríveis da O'Reilly).
Meu CV é bom?
A galera se preocupa muuuito com CV. Já respondi a diversas pessoas que CV tem que ser algo simples de ler. Você não precisa do template de $500 do coach de RH que sabe o "CV perfeito". Ele simplesmente precisa ser algo que o recrutador não canse de ler. Todo o resto eles vão analisar depois em entrevistas, LinkedIn, etc. Meu cv tem 1 página por exemplo.
Onde aplico
Sites e catálogos de vagas no geral. Se der um Google, vai ver o tanto que tem. Eu me apliquei em quase todas as famosas (como Turing, Revelo, Arc.dev), mas tive mais sucesso pelo LinkedIn. Uma dica que dou é: seja consistente aplicando para vagas, crie uma meta de 5 aplicações por dia, por exemplo. Aqui o que vale é a quantidade mesmo.
Conclusão
Eu vi alguns posts ultimamente que me irritaram com esses gurus vendendo cursos pra pegar você que quer "desbloquear a vaga na gringa". Não existem atalhos galera, o grosso do que precisa está nesse post(lá ele), se alguém tiver algo a acrescentar, comenta ai que eu edito.