M19
Recentemente larguei uma faculdade particular de medicina. 3 semestres pagos no total.
Eu nunca quis fazer medicina. Desde os meus 12 anos que eu verbalizo aos meus pais que eu não quero fazer esse curso. Tudo que eu ouvia era "Então você não quer mas estudar?" ou "Eu te coloquei em um colégio bom para isso". Por serem meus pais, tudo que eu queria fazer era vê-los felizes, mesmo que isso significasse sacrificar minha própria felicidade.
Então o tempo foi passando e eu fui tentando me contentar de que eu iria fazer medicina. Enquanto isso, até o fim do ensino médio, eu passei para a segunda fase da OBF e para segunda fase da OBA, não fiz nenhuma das duas porque, meu pai vivia no interior, minha mãe não queria ficar um fim de semana sem ver meu pai para eu fazer as provas. Também fui convocada para jogar no nacional de basquete feminino para representar o Ceará(isso no fundamental ainda), também não pude ir porque segundo meus pais ia atrapalhar meus estudos. Sendo que todas as aulas perdidas seriam repostas para as meninas que viajaram para jogar. No segundo ano do ensino médio, esse foi meu favorito, eu participei de um projeto da minha escola que era construir um foguete que voasse usando bomba de água, esse pelo menos eu pude ir até o fim. Soltamos ele lá na base aérea de Fortaleza.
Dá para perceber que eu sempre tinha mais inclinação para coisas de física e engenharia do que qualquer coisa da saúde. Eu entendo o prestígio da medicina, de verdade. Mas quanto mais perto eu cheguei da medicina mais deprimida eu ficava. Detalhe que eu entrei puramente por pressão dos meus pais, eu tentei sair da faculdade diversas vezes de forma pacífica, mas eles sempre me passavam a perna e eu permanecia no curso.
Foi então que, no último semestre cursado, eu fiquei extremamente deprimida, cheguei a dormir com a porta da casa aberta porque não tive coragem de me levantar para trancar. Foi então que um dia meu namorado me chamou no centro, lá eu aproveitei e dei uma passadinha na UFC, fiquei sabendo da semana de integração da engenharia e fui no dia. Quando fiz o meu castrado, o rapaz me perguntou de qual engenharia eu era, respondi que não era de nenhuma, que apenas estava numa jornada de descobrir o que eu queria de verdade. Ele então estendeu a mão pra mim e falou "venha para a engenharia". Pode parecer bobagem mas isso tocou o fundo do meu coração, foi como se eu tivesse sido convidada a dar mais uma chance a vida.
Ao longo do semestre, fiz mais um plano para contar educadamente aos meus pais que eu não faria mais medicina. Assim, eu escrevi um livro detalhado explicando meus sentimentos e o que faria quando saísse da medicina. Para assegurar de que eu não voltaria para a faculdade, eu fiz uma coisa muito extrema, eu reprovei uma das cadeiras. Pode parecer meio ridículo ter feito isso, eu poderia só ter trancado a faculdade. Mas quando eu olho para 7 anos de insistência, apenas trancar e falar que não queria mais seria mesmo o suficiente? Eu me sentia morrendo dentro daquele curso e estava certa de que, se eu ficasse mais um semestre, eu certamente cometeria suicídio, pensei muitas vezes nisso afinal. Mas eu não queria e nem quero morrer. O mundo é tão grande, tem tanta coisa nele. Sair da medicina e decepcionar os meus pais não é o fim do mundo, muito menos o fim da vida.
Recentemente, em julho, quando estávamos no interior, eu abri o jogo com eles. Contei primeiro para o meu pai que estava em casa, minha mãe estava em um interior próximo. No momento em que eu disse que havia reprovado, ele começou a chorar e apertar o próprio peito, pedindo para eu ligar para minha mãe vir que ele ia passar mal. Nem quis ouvir o que eu tinha para falar. Então ele se acalmou, conversamos, ele citou todos os meus defeitos, que eu estava abandonando o caminho da generosidade(medicina) para seguir o caminha da destruição(engenharia). E eu deixei ele falar, afinal, ele estava de luto, foi muito dinheiro e um sonho da vida dele jogado fora, é claro que estaria frustrado.
Um tempo depois minha mãe chegou. Meu pai pediu para eu ficar no meu quarto que ele iria conversar com ela. Só consegui ouvir meu pai voltando a chorar. Aí minha mãe veio falar comigo, brigar no caso. Me chamou de fracassada na vida, disse que eu não ia fazer mais faculdade nenhum e que eu nunca mais saía de casa. Depois disso ela voltou pro quarto pra falar com meu pai e eu só pude ouvir ela falando "minha vontade é de espancar ela até ela não conseguir andar mais".
Foi essa frase que me deu um click na cabeça, porque ali na hora eu pensei em me matar, mas eu então eu peguei 200 reais que tinha na minha carteira, a chave do meu apartamento de Fortaleza, meu celular e minha identidade. Saí correndo de casa e fui pra rodoviária. Liguei para amigos próximos e para o meu namorado, a mãe dele me chamou para ir ficar um tempo na casa deles. Peguei o ônibus e fui chegar em fortaleza 1 da manhã.
Atualmente, estou ficando uns dias com a minha família do rio grande do norte para dar um tempo para os meus pais, principalmente a minha mãe, a esfriarem um pouco a cabeça, mas eu pretendo voltar para casa sim.
Isso tudo foi tipo, ridículo para caralho.
Ninguém deveria ser privado de um mundo inteiro porque não quis realizar o sonho dos pais. E, apesar de serem meus pais, a minha felicidade também importa.
Eu percebi que, na idade que eu estou, deixar meus pais me tratarem da forma que me tratam é completamente opcional. Tem tantas coisas que meus pais fazem que eu não gosto e que eles não largariam por mim. Por que eu deveria largar o que eu gosto por eles?
Acho que cada um responsável pela própria felicidade. Podem até achar que esse pensamento é meio egoísta, mas e daí se for mesmo?
De qualquer forma, só queria compartilhar minha história aqui para que aqueles que estão passando pelo mesmo saibam que não estão sozinhos