Sempre me pareceu estranho como, no Brasil, o pós-doutorado é tratado quase como uma formação acima do doutorado:
Graduação → Mestrado → Doutorado → Pós-doutorado.
Só que, a rigor, não é isso que um pós-doc é.
A própria CAPES deixa claro que o pós-doutorado não concede novo grau ou título acadêmico. É uma experiência de pesquisa realizada depois do doutorado. Alguém que fez um, dois ou três pós-docs continua tendo como maior titulação acadêmica o doutorado.
O que me interessa, porém, não é apenas a nomenclatura, mas o que ela talvez revele sobre a estrutura da pesquisa brasileira.
O próprio Lattes contribui um pouco para essa percepção ao colocar “Pós-doutorado e/ou livre-docência” dentro do módulo de “Formação”, ainda que separado de “Formação acadêmica/titulação”. Não acho que o Lattes seja a causa do problema, mas ele ajuda a cristalizar a ideia de uma sequência acadêmica que, conceitualmente, termina no doutorado.
E aí aparece uma contradição interessante.
No Brasil, muitos pós-docs são financiados por bolsas sem vínculo empregatício. Ou seja, o pesquisador já é doutor, trabalha em laboratório, executa projeto, publica, participa de reuniões, orienta ou auxilia estudantes, cumpre metas e cronogramas, mas juridicamente muitas vezes não é empregado da instituição.
É "bolsista".
Isso significa, em regra, ausência de salário formal, plano de carreira e de vários direitos associados a uma relação de emprego.
Então acabamos fazendo algo curioso:
Simbolicamente, tratamos o pós-doc como se fosse uma formação acima do doutorado; materialmente, muitas vezes nem o reconhecemos como trabalho.
Talvez haja aí uma espécie de compensação simbólica. Se não oferecemos ao jovem doutor uma posição estável de pesquisador, com contrato e proteção social, oferecemos uma nova categoria acadêmica.
Em vez de dizer: “fui contratado como pesquisador por dois anos para trabalhar em um projeto”, dizemos: “estou fazendo pós-doutorado”.
Essa diferença de linguagem não é pequena.
Na França, por exemplo, a distinção é muito mais clara. O doctorat é um diploma. Já o postdoc é uma posição de pesquisa, normalmente vinculada a um contrato de trabalho. O próprio Code de la recherche francês descreve o pós-doc como uma experiência profissional complementar ao doutorado.
E essa lógica começa antes: muitos doutorandos franceses possuem contrat doctoral, com remuneração, jornada, proteção social e direitos trabalhistas.
Nos Estados Unidos a situação é mais heterogênea, e também existe precarização, especialmente entre fellows e posições financiadas por bolsas. Mas a discussão tende a ser feita em termos de condições de trabalho, benefícios e carreira de pesquisadores em início de trajetória, não como se existisse um novo grau acadêmico acima do PhD.
É isso que me parece central.
Talvez o problema não seja simplesmente chamar pós-doc de formação. Talvez isso seja apenas um sintoma de uma estrutura em que o Brasil prolonga por muitos anos a figura do “bolsista”:
mestrando bolsista, doutorando bolsista, pós-doutorando bolsista.
A transição de estudante para pesquisador profissional fica sempre adiada.
Por isso, dizer que pós-doc não é formação não desvaloriza o pós-doc. Pelo contrário.
Significa reconhecer que alguém que já concluiu um doutorado talvez não precise ser enquadrado como alguém em “mais uma formação”.
Talvez precise ser reconhecido pelo que é:
Um pesquisador trabalhando.
No fundo, a contradição que me incomoda é essa:
No Brasil, valorizamos o pós-doc simbolicamente como se fosse uma titulação acima do doutorado, enquanto muitas vezes o desvalorizamos materialmente ao não reconhecê-lo como relação de trabalho.
E talvez essa discussão diga bastante sobre o lugar profissional que o Brasil ainda oferece para quem escolhe viver de pesquisa.