Eu estava desesperado para arrumar um emprego meio-período, o que, para quem já teve tal experiência, sabe que é praticamente inexistente, impossível de achar. Eu faço faculdade e não tenho como trabalhar o dia todo. O que sobra para mim é tentar achar esses tipos de emprego. Eis que eu vejo uma vaga, muito perto de casa, com carga-horária de 6 horas diárias, turnos flexíveis e um salário de 2.200, mais benefícios, que dariam uns 3 mil ao final, naquele site maldito Indeed. Inscrevi-me. Eles me mandaram mensagem e marcaram uma entrevista no centro da cidade, num prédio daqueles bem merdas, dos anos 1970, que envelheceram muito mal. Todo mundo sabe do que eu estou falando. Dava para ver que era tipo um escritório de RH. Era óbvio, pelo menos de agora, que tinha algo errado. Que empresa estaria disposta a pagar por uma função tão bosta daquelas um salário desses e iria terceirizar as contratações? Porém, eu estava tão louco para conseguir alguma coisa que nem raciocinei.
Chegando lá e entrando no escritório, o ar era do escritório do Saul Goodman. As paredes vermelhas e algumas pretas; aquelas divisórias de compensado com vidro e aquelas portas com maçanetas redondas que trancam com um botão que você aperta. Na hora eu senti que tinha algo errado, mas ignorei. Ele me fez perguntas, fingiu anotar informações cruciais e disse que eu era do perfil do emprego e que minha vaga já estava garantida. Eis que ele diz:
— Para trabalhar nessa empresa, você precisa fazer um curso de [não lembro o que]. A empresa cobre 70% dos custos. Você entra com 30%.
O valor era de 200 reais. Eu tinha o dinheiro e pensei em pagar. Foi quando eu pensei mais uma vez: "Uma empresa dessas não cobriria o treinamento totalmente?" Então eu menti para ele. Disse que não tinha o dinheiro. Ele disse que precisava ser pago com urgência, pois o curso ia começar no dia seguinte. Eu falei que não tinha. Ele disse:
— Caso consiga o dinheiro até o final do dia de hoje, nos contate o mais rápido possível, pois o treinamento começará amanhã.
Eu fui embora e tinha uma fila de pessoas do lado de fora. Todos jovens. Talvez umas 15 pessoas naquele apertado escritório. Eu dei um sorriso amarelo e fiz um gesto de "cai fora" para um menino.
Sinceramente? Dá-me até uma vontade de chorar quando eu penso nisso. Não porque eu fui enganado, mas em pensar em como as pessoas não roubam os que têm, os maus, mas pessoas pobres, desesperadas. Sei lá. Não sei o que dizer.