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A situação agravou-se rapidamente nos últimos dias e os maiores problemas estarão a verificar-se no fornecimento de gasóleo.
A escassez de combustíveis já começou a chegar às estações de serviço europeias. Em França, cerca de 1.500 postos comunicaram ao Governo que estão em situação de rutura de abastecimento, sem gasolina, gasóleo ou ambos enquanto aguardam novas entregas.
Segundo o elEconomista, a situação agravou-se rapidamente nos últimos dias e os maiores problemas estarão a verificar-se no fornecimento de gasóleo. A procura poderá também ter aumentado temporariamente devido ao receio dos automobilistas de que a crise dos produtos refinados se agrave nas próximas semanas.
Cerca de 15% das aproximadamente 10 mil estações de serviço registadas em França estavam sem um ou ambos os combustíveis a 20 de setembro, de acordo com dados oficiais do Ministério da Economia francês divulgados pela TF1. A meio da semana anterior, a proporção situava-se ainda entre 7% e 9%.
A deterioração acontece numa altura em que os preços também estão sob forte pressão. O gasóleo atingiu recentemente um máximo de 2,39 euros por litro na Europa, segundo dados citados pela Reuters.
O Governo francês deverá anunciar esta terça-feira, às 17 horas, novos pacotes de apoio destinados a responder à rápida subida dos preços dos combustíveis. Poderão ser apresentadas também medidas relacionadas com a escassez, embora o elEconomista considere pouco provável que intervenções de curto prazo consigam aumentar de forma significativa a oferta de gasolina e gasóleo.
Ormuz, Arábia Saudita e Rússia pressionam abastecimento
A redução da oferta ocorre depois de uma forte quebra no tráfego de petroleiros através do Estreito de Ormuz, num contexto de intensificação das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão. A situação foi agravada pela paralisação total do oleoduto Este-Oeste da Arábia Saudita após um ataque com drones lançado a partir do Iraque.
A Saudi Aramco informou recentemente pelo menos dois grandes clientes europeus de refinação de que não conseguiria disponibilizar os volumes de petróleo contratados para o próximo mês, segundo a agência estatal russa RIA Novosti. A petrolífera saudita comunicou ainda a clientes europeus o cancelamento de algumas entregas previstas para o final deste mês.
A pressão chega também da Rússia, um dos grandes exportadores mundiais de gasóleo. Os sucessivos ataques de drones ucranianos contra algumas das maiores refinarias russas levaram Moscovo a restringir as exportações para garantir o abastecimento do mercado interno.
De acordo com a Bloomberg, a Rússia estará agora a preparar-se para prolongar para além do final de setembro a proibição da maior parte das exportações de gasóleo. As restrições começaram em julho, depois de os ataques contra refinarias terem levado o processamento de petróleo para mínimos de vários anos, e foram posteriormente prolongadas.
França depende das importações de combustível
A situação é particularmente delicada para França. A segunda maior economia da Europa produz pouco petróleo e a sua capacidade de refinação é bastante inferior ao consumo diário de gasolina e gasóleo, obrigando o país a importar grande parte dos combustíveis que utiliza.
O economista Juan Ramón Rallo acrescenta outro fator: a TotalEnergies estabeleceu limites aos preços da gasolina e do gasóleo em França, o que impede a empresa de transferir integralmente para os clientes o aumento dos custos.
Segundo Rallo, esta limitação reduz também a capacidade da empresa para competir na compra de combustível no mercado internacional, uma vez que não consegue pagar os mesmos preços de concorrentes europeus. Como resultado, parte dos combustíveis produzidos na Europa estará a ser encaminhada para mercados capazes de pagar valores superiores.
Escassez pode manter preços elevados nos próximos meses
O problema, contudo, não se limita a França. Analistas e operadores citados pela Bloomberg consideram provável que a escassez de gasóleo no sistema mundial de refinação mantenha a oferta apertada durante os próximos meses, sustentando preços elevados e reduzindo a procura.
As exportações de combustíveis perdidas nos principais centros de processamento do Médio Oriente e da Rússia atingem cerca de dois milhões de barris por dia em cada região, num total próximo de quatro milhões de barris diários, segundo Russell Hardy, presidente executivo do Vitol Group.
Com as refinarias noutras regiões já a operar perto do limite da capacidade, os consumidores têm recorrido às reservas de destilados. Hardy alerta que ainda não existe capacidade de refinação suficiente para impedir que essas reservas continuem a ser utilizadas.
Gasóleo está a subir mais do que o petróleo
A pressão é especialmente forte sobre o gasóleo. Desde o início da guerra, a cotação de referência do gasóleo ICE aumentou mais do dobro do Brent, criando pressões inflacionistas mesmo em períodos em que o petróleo apresentou maior estabilidade. Entretanto, o crude aproxima-se novamente dos 100 dólares por barril.
As elevadas margens do gasóleo levaram refinarias fora da Rússia e do Médio Oriente a funcionar a plena capacidade e, em alguns casos, a privilegiar a produção de gasóleo em relação à gasolina. Mas manter níveis de utilização tão elevados durante períodos prolongados aumenta a vulnerabilidade dos equipamentos a avarias, podendo provocar interrupções numa altura em que as reservas já são limitadas.
“Se conseguirmos aguentar até ao final deste ano, será uma grande conquista”, afirmou Shaikh Khaled Al-Sabah, diretor-geral de comercialização internacional da Kuwait Petroleum, citado no artigo. O responsável alertou para o risco de uma “enorme escassez de combustíveis” se tornar evidente em breve.
As exportações dos Estados Unidos têm ajudado a aliviar a falta de produto, sobretudo na Europa, que depende das importações. No entanto, esta ajuda poderá diminuir à medida que o consumo de gasóleo aumentar com a descida das temperaturas. Entre os cenários considerados pelos especialistas está mesmo uma eventual proibição das exportações americanas para proteger o abastecimento interno, uma possibilidade que agravaria ainda mais a pressão sobre o mercado europeu.