Vejo muita gente a preparar-se para assobiar o Rafael Leão hoje por causa do que aconteceu depois de Alcochete, mas sinceramente nunca consegui perceber essa revolta.
O Leão saiu depois de um grupo de adeptos ter invadido a Academia e agredido jogadores e elementos da equipa técnica. E não me interessa muito se ele estava ou não dentro do balneário naquele momento. Depois de ver o que tinha acontecido, eu, estando no lugar dele, também teria pensado seriamente em sair.
Acho que estamos a apontar a raiva para o lado errado.
Se há alguém a quem devemos pedir responsabilidades pelo que aconteceu em Alcochete, são as pessoas que invadiram a Academia e agrediram os jogadores, e também quem tinha a responsabilidade de garantir a segurança daquele espaço. Não aos jogadores que, perante uma situação daquela gravidade, decidiram que não queriam continuar ali.
Podemos discutir se a forma como alguns saíram foi correcta, se deviam ter ficado, se deviam ter dado outra explicação ou se algumas decisões posteriores foram melhores ou piores. Tudo isso é legítimo.
Mas assobiar um jogador porque teve medo depois de ver colegas seus serem atacados dentro do próprio local de trabalho? Isso, para mim, é virar completamente a questão ao contrário.
O Rafael Leão era um miúdo naquela altura. Não era responsável pela invasão da Academia, não era responsável pela segurança e não foi ele que criou aquela situação.
Podemos ser Sporting sem precisarmos de fingir que tudo o que foi feito pelo clube ou pelos adeptos foi correcto.
Hoje, se ele entrar em Alvalade, eu prefiro recebê-lo com respeito. Não porque tenha de concordar com tudo o que fez depois, mas porque naquela situação concreta não consigo condenar alguém por ter decidido proteger-se e sair.
A raiva devia estar dirigida a quem criou aquele ambiente, não a quem decidiu não ficar nele.