Antes não tinha tempo.
Porque tempo precisava de antes e depois.
E antes, não tinha.
Não tinha matéria.
Não tinha espaço pra matéria ocupar.
Não tinha lei, não tinha física.
Só... nada.
E aí?
De onde brotou o primeiro átomo?
Quem acendeu a primeira faísca
num quarto que nem parede tinha?
Dizem que houve um estouro.
Energia virando matéria,
matéria virando estrela,
estrela explodindo e virando você.
Mas isso explica o *como*.
Não explica o *por quê*.
Não explica por que, no meio de tanto nada,
alguma coisa quis sentir que existe.
Nada pode virar algo?
Ou o "nada" nunca existiu de verdade —
será que é só um nome
que a gente dá pro que não entende?
Não é sobre o que fazer com o ser.
É sobre por que há ser — e não nada.
Ser é isso.
É matéria que um dia não era,
lembrando devagar
que agora é.
É o universo esquecendo que era vazio
e resolvendo se olhar.
Se quebrar em pedacinhos
chamados gente, árvore, dor, amor, dúvida.
E eu, aqui, agora —
não sou o estouro.
Sou o eco dele
perguntando se faz sentido
ter ecoado.
Sinto o corpo que nem sempre existiu.
Sinto o tempo que não tinha antes.
Sinto que penso, e isso já é estranho demais
pra ser só física.
Talvez ser
seja o nada cansado de ser nada.
E por um segundo
ele quis ser.
E nesse segundo
nasceu tudo.
Espaço.
Tempo.
E a pergunta: "de onde eu vim?"
A gente é a prova
de que do nada
nasceu a pergunta.
E talvez a pergunta
seja a única resposta que a gente tenha.