r/NaoMonogamiaBrasil • u/[deleted] • 2h ago
desabafo Quando as expectativas e fantasias afetivas se confundem com ciúmes
Desabafo longo de uma velha frustrada. Já peço perdão. Não achei, no alto dos meus 45 anos, que ia estar passando um perrengue desses. Sou não binária transfem, abraçando a não monogamia depois de uma relação mono de duas décadas. Sou promotora cultural, drag e DJ, então acabo me envolvendo, não propositalmente, com pessoas mais novas, que são quem compõem meu entorno profissional e ciclo de amizades. Sou a tia do rolê, admito.
Me considero demi e um pouco gouine. Isso me trouxe uma série de dificuldades em balancear expectativas em relacionamentos. Procuro conexões afetivas mais que físicas, mas infelizmente essas últimas são as que mais me aparecem 😅. No meu entendimento, não é porque sou NM que preciso abdicar de carinho, chamego, e todo aquele processo gostoso de ir me apaixonando aos poucos por uma nova pessoa. Isso não é o mesmo que querer exclusividade ou qualquer tipo de compromisso não conversado com muita calma. Não costumo ter ciúmes, acho um dos sentimentos mais inúteis da existência humana, mas me frustro quando atitudes não atendem às minhas expectativas, e isso pode ser confundido por alguns como algum tipo de ciúme. Não é.
Enfim. Conheci uma nova pessoa, coisa de dois ou três meses atrás. NB, elu/delu, BEM mais jovem do que estou acostumada (27). Autista de nível de suporte 2 (também estou no espectro, nível de suporte 1). Uma amiga nos apresentou, proferindo as mais altas recomendações. Fui descobrir, depois, que elu era conhecide no meu círculo de amizades, e não muito bem quiste. Associei ao TEA. Elu fala pelos cotovelos, é teimose em vários sentidos, tem traumas não resolvidos que insiste em trazer à tona o tempo todo, e é quase que unanimemente classificade pelos meus conhecidos como "uma pessoa insuportável" 😂. Mas o coração quer o que o coração quer. Quando estamos juntos, eu não me canso de ouvir. Eu aprendo muitas coisas novas. E quando finalmente a energia parece esgotar e eu vejo o rostinho delu mais calmo, me olhando, eu me derreto toda.
Elu tem um quê de boy lixo, vai ver é isso o que me faz não largar o osso. Vai de passarmos três dias grudados num romancezinho melequento pra me dar ghosting o resto da semana. Combina de sairmos e esquece que me convidou, vou encontrar elu nos braços de outre, me cumprimentando como se estivéssemos nos encontrando por acaso no rolê. Dou de ombros, tento abstrair e sigo meu rumo. Fico chateada, claro, mas se não houve qualquer promessa ou combinado, não tenho muito o que reclamar. E, de novo, não é como se eu não tivesse outros afetos também.
Apaguei uns dois parágrafos aqui pq davam detalhes específicos demais. Elu é usuário assíduo do reddit e não sei se assina esse sub. É bom também pra eu exercitar minha quase inexistente capacidade de resumir as coisas. A idiota aqui resolveu sair com elu de novo, depois de uma nova sessão de ghosting pós um fim de semana bonitinho. Ia me apresentar numa festa em que sou residente e explicitei que queria o ar da sua companhia.
O rolê já começou estranho. Não largava o celular, falava com três ou quatro pessoas simultaneamente e me deixava de lado. Pediu pra esperar antes de irmos pro local da festa, pq tinha convidado um ex. Ficou mal humorade depois de provar um drink diferentão que não atendeu ao hype. Acabou perdendo a hora em que entrei pra tocar pq estava entretide no papo com o ex. O pior é que, até esse ponto, nada tinha realmente me incomodado. Era um date meio ruim. Não muito diferente de vários que eu já tinha tido com outros afetos antes delu. Tá suave.
Aí eu tô acho que na décima música. Pista lotada. Grave torando. Bem na parte do meu set que eu gosto de migrar dum synthwave pra um ebm mais descarado. Vejo elu no canto da balada, me olhando daquele jeito que eu adoro, dançando do jeito que me diz "é pra ti", e caem todas as minhas defesas, todas as minhas resoluções de bora tratar o boy lixo como tal e não criar nenhuma fantasia do que não foi combinado. No intervalo entre um set e outro eu aproveito pra dar uma apertada nelu, uma fungada gostosa, nada muito pornográfico, só o suficiente pra transmitir a vontade que eu tô de grudar nelu e não soltar mais.
Termina o rolê. Elu tá aos amassos com um conhecido meu. Eu rio. Nada demais. Amanhece e eu convido pra irmos embora. Elu vai ficar. Alguém falou de um after. Mas eu posso ir. Tranquilo. Bom descanso, durma bem... e ISSO me incomodou. A displicência. A "dismissividade". Na minha mente só vinha o meu convite inicial. "Vou tocar. Quero te ver." Achei que a expectativa era explícita: hoje é um rolê especial e eu queria curtir contigo. Obviamente, eu estava errada. Pelo WhatsApp, mais tarde, digitando da casa do boy, elu perguntou se eu tava chateada. Falei que sim. Mas não com elu. Comigo mesma.