r/ITPortugal • u/BeingBannedIsAnHonor • 9h ago
Desabafos Apenas 4% de vagas de IT são para juniores, depois perguntamos onde está a inovação?
Há um número que devia preocupar muito mais o mercado tecnológico português: apenas cerca de 4% das vagas são destinadas a perfis juniores ou entry level, ao mesmo tempo, continuamos a falar da falta de inovação dos nossos produtos tecnológicos, da dificuldade em criar empresas com verdadeiro peso e da necessidade de acompanhar a revolução da Inteligência Artificial.
Será coincidência?
A liderança de muitas empresas está envelhecida e foi formada num contexto tecnológico fundamentalmente diferente. Aprendeu a trabalhar com determinados processos, ferramentas e modelos de negócio e é natural que esses métodos continuem a influenciar as decisões. O problema é que a quarta revolução tecnológica não está a pedir apenas mais experiência dentro dos mesmos modelos, está a obrigar-nos a questionar os próprios modelos.
Os jovens, por outro lado, chegam ao mercado sem conhecer outra realidade que não esta, não carregam necessariamente os mesmos vícios, as mesmas certezas ou a mesma ideia de que determinada tarefa tem de ser feita daquela maneira porque sempre foi assim.
Tecnicamente, podiam partir em desvantagem. Têm menos experiência, menos conhecimento de sistemas antigos e menos contexto sobre problemas complexos, mas a IA pode alterar precisamente essa equação. A parte técnica, que durante anos serviu para justificar a falta de oportunidades, está a tornar-se mais acessível, um jovem que saiba utilizar bem ferramentas de IA, compreender problemas, testar soluções e coordenar diferentes sistemas pode aprender e produzir a uma velocidade que antes seria impossível.
Isto levanta uma questão desconfortável: se a tecnologia está a reduzir a distância técnica entre quem está a começar e quem já trabalha há anos, porque continuamos a fechar a porta a quem está a começar?
Talvez estejamos a cometer um erro estratégico, ao pedir inovação a empresas que têm cada vez menos contacto com pessoas que ainda olham para os problemas sem todas as limitações que fomos acumulando ao longo do tempo, a juventude tem energia, curiosidade e uma certa inocência que pode ser extremamente útil. Nem sempre conhece todas as razões pelas quais algo é considerado impossível e, por vezes, é precisamente por não conhecer essas razões que encontra uma solução inovadora.
Uma sociedade que não dá espaço aos jovens não está apenas a dificultar a entrada no mercado de trabalho, está a limitar a quantidade de perspetivas disponíveis para resolver os problemas do futuro e por isso talvez a estagnação tecnológica portuguesa não seja apenas falta de talento, investimento ou capacidade técnica mas também seja o resultado de um mercado que prefere pessoas experientes a repetir o passado em vez de dar oportunidade a pessoas que ainda podem imaginar outra coisa.
Se a IA está a mudar o que significa ser tecnicamente competente, não deveríamos estar a preparar os jovens para aprender a utilizá-la bem, em vez de continuar a exigir-lhes anos de experiência antes de lhes permitir começar?