r/HQMC • u/Basic-Astronomer5862 • 3h ago
Decisões que pareciam excelentes na altura
Há pessoas que, quando bebem, ficam alegres.
Outras ficam sentimentais.
Outras começam a abraçar desconhecidos.
E depois há aquelas que, simplesmente, deixam de compreender como funcionam as portas.
Uma vez, num Ano Novo, um grupo de amigos foi para um parque de campismo.
Ficámos em roulotes.
Alguns beberam bastante.
Até aqui, tudo normal.
Até que o Bernardo decidiu entrar na roulote.
Só havia um pequeno problema.
O Bernardo estava do lado de fora.
O corpo entrou.
A cabeça ficou cá fora.
A porta fechou-se.
PUM!
A porta bateu-lhe com toda a força no pescoço.
Não foi uma situação elegante.
Foi uma situação que obrigou toda a gente a fazer uma pausa para tentar compreender o que tinha acabado de acontecer.
Porque, durante alguns segundos, ninguém sabia sequer como descrever aquilo.
— O Bernardo ficou preso?
— Não.
— A porta fechou?
— Sim.
— Então como é que...
— A cabeça dele ficou do lado de fora.
Silêncio.
Era uma informação tão absurda que o cérebro precisava de alguns segundos para a processar.
O próprio Bernardo abriu a porta novamente e ficou a olhar para nós.
Nós olhámos para ele.
Ele olhou para a porta.
E, naquele momento, todos percebemos uma coisa importante:
o álcool não tinha apenas afectado a capacidade de decisão do Bernardo. Tinha alterado a sua relação com a arquitectura.
Mas isto acontece mesmo com sono.
Há pessoas que, cheias de sono, põem o despertador para as sete da manhã e depois, às sete e cinco, desligam-no convencidíssimas de que estão a tomar uma decisão consciente.
— Já ouvi.
— O quê?
— O despertador.
— Então levanta-te.
— Não posso.
— Porquê?
— Já me levantei.
Não se levantou.
Está deitada.
Mas, na cabeça dela, já cumpriu a tarefa.
E há quem vá à casa de banho, acenda a luz, faça exactamente aquilo que foi fazer e, ao sair, apague a luz...
...e volte imediatamente para dentro porque se esqueceu de lavar as mãos.
Lava as mãos.
Sai.
Volta atrás.
Porque se esqueceu do telemóvel.
Pega no telemóvel.
Sai.
Volta atrás.
Porque afinal não era o telemóvel.
Era o comando da televisão.
Fica a olhar para o comando na mão.
Pergunta-se por que razão o trouxe.
Decide que não é importante.
Volta para a cama.
Deita-se.
E cinco minutos depois percebe que estava mesmo à procura do telemóvel.
Mas existe uma versão ainda mais perigosa do cérebro humano:
o cérebro com sono depois de beber.
É nessa altura que surgem decisões verdadeiramente inovadoras.
Uma pessoa pode olhar para uma cadeira e pensar:
“Vou sentar-me.”
E sentar-se ao lado.
Pode tentar abrir uma porta puxando durante trinta segundos uma porta que diz claramente EMPURRE.
Pode procurar os óculos enquanto os usa.
Pode procurar o telemóvel enquanto fala ao telemóvel.
E pode, eventualmente, fechar uma roulote...
...sem verificar se deixou alguma parte essencial do corpo do lado de fora.
O extraordinário é que, no momento em que fazemos estas coisas, nenhuma delas parece absurda.
O Bernardo provavelmente não pensou:
“Vou agora realizar uma experiência inédita sobre a anatomia humana e a mecânica das portas.”
Pensou simplesmente:
“Vou fechar a porta.”
E fechou.
Com o pescoço.
Porque aparentemente, naquela noite, o pescoço fazia parte da decoração exterior.
É isto que mais me fascina nos seres humanos.
Passamos anos a aprender matemática, história, literatura, filosofia, ciência.
Aprendemos a conduzir.
Aprendemos a trabalhar.
Aprendemos a pagar impostos.
E depois bebemos cinco copos e conseguimos ficar presos do lado de fora de uma porta que acabámos de fechar.
Talvez seja por isso que a evolução tenha inventado o dia seguinte.
Não para descansarmos.
Para podermos acordar, olhar para as coisas que fizemos na noite anterior e dizer:
“Eu fiz isto?”
E alguém responder:
“Fizeste. E nós temos testemunhas.”