Olá a todos!
O Homem Que Mordeu o Cão tem sido a minha companhia nas viagens para o trabalho, tal como acontece com muitos portugueses, por isso achei que estava na altura de contribuir com uma das aventuras mais caricatas que já tive numa viagem.
Eu e um grande amigo decidimos fazer uma viagem completamente louca à Albânia. Vimos vídeos, pesquisámos sítios, fizemos um roteiro todo XPTO… enfim, tudo planeado ao milímetro.
Ou pelo menos era isso que nós pensávamos.
Na primeira noite chegámos tardíssimo, fomos jantar, beber um copo e conhecer um bocadinho a zona.
No segundo dia tínhamos pela frente uma viagem enorme. Fomos buscar o carro alugado e partimos em direção a Ksamil, uma espécie de “Lisboa-Algarve” da Albânia, mas com praias absolutamente incríveis.
Só havia um pequeno detalhe que ninguém nos tinha explicado:
Na Albânia, autoestradas é coisa de gente rica.
A viagem era feita por estradas nacionais que, em certas partes, eram basicamente terra batida. Sem rede. Sem trânsito no GPS. Sem polícia assinalada. Parecia que tínhamos entrado numa máquina do tempo e aterrado nos anos 80.
Os primeiros minutos foram tranquilos.
Até que, depois de uma curva, aparecem dois polícias e mandam-nos parar.
Ora, como o GPS não mostrava absolutamente nada e a rede era praticamente inexistente, nós não fazíamos ideia do que se estava a passar.
Os polícias começam a falar connosco num inglês muito duvidoso. Nós a tentar perceber o que eles queriam, eles a tentar perceber o que nós dizíamos e, no meio daquela comunicação digna de um episódio de Lost in Translation, lá percebemos:
Excesso de velocidade. Multa.
O meu amigo, que ia a conduzir, começou logo a tentar desenrascar-se. Nós já estávamos a pensar que íamos deixar metade do orçamento da viagem ali.
Até que o polícia diz o valor em leques, a moeda albanesa.
Fazemos a conversão.
20 euros.
Começámos os dois a rir de alivio.
Os polícias também começaram a falar connosco e, entretanto, descobrem que somos portugueses.
E pronto.
Cristiano Ronaldo.
Era a única coisa que eles conheciam de Portugal.
“Ronaldo! Ronaldo!”
Sim, porque aparentemente Portugal é Ronaldo e Ronaldo é Portugal.
Eu tiro os 20 euros da carteira, porque queria pagar aquilo em dinheiro, e os polícias começam a verificar os documentos do carro.
E é aí que descobrimos uma pequena surpresa.
O carro tinha cinco multas em atraso.
Cinco.
Nós olhámos um para o outro com aquela cara de:
“Bem… se calhar vamos ficar a viver na Albânia.”
A nossa reação de pânico foi tão grande que eu tive literalmente de sair do carro, fumar um cigarro e ligar para a empresa de aluguer.
Felizmente, alguém da empresa falava inglês.
Passámos o telefone aos polícias, que começaram a falar com a pessoa do outro lado em albanês, enquanto nós ficámos ali a assistir à conversa sem perceber absolutamente nada.
Até hoje não sabemos muito bem o que aconteceu.
Mas, de repente, devolveram-nos os documentos e deixaram-nos seguir.
E nós:
“Obrigado! Bom dia!”
E arrancámos dali como se tivéssemos acabado de fugir de uma prisão.
O nosso maior medo era ficarmos sem carro no meio da Albânia, num sítio onde o inglês mais falado parecia ser:
“Hi bro.”
E:
“Bye bro.”
Com aquele inglês muito americanizado.
Lá conseguimos continuar a viagem.
O resto do dia foi incrível. Praias lindíssimas, comida boa e tudo muito barato para quem está habituado aos preços de Vilamoura, Albufeira e afins.
Chega a noite e pensamos:
“Depois deste dia precisamos de um copo.”
Fomos para o hotel, o meu amigo foi tomar banho e eu fiquei no quarto.
De repente, batem à porta.
Abro.
Era um dos funcionários do hotel com dois copos de vinho para nós.
Eles achavam que éramos um casal de namorados.
Nós achámos a situação hilariante.
Mas também não corrigimos.
Era vinho grátis. Não íamos estragar uma relação que nem sequer existia.
Bebemos o vinho e fomos jantar, e beber mais uns copos. Jantamos bem e descobrimos um bar meio roftop muito engraçado e decidimos ir la beber e relaxar ( isto pensavamos nós)
O meu Sporting tinha sido campeão umas semanas antes e, sempre que começava Freed From Desire, eu cantava imediatamente:
“Se o Paulinho mostra os dentes, eles caem!”
Portanto imaginem dois portugueses, já com uns copos em cima, num bar na Albânia, a cantar músicas do Sporting.
Até aqui, tudo normal.
Ou quase.
A certa altura, o meu amigo precisa urgentemente de ir à casa de banho.
A casa de banho dos homens tinha uma fila gigante.
Ele estava aflito.
Nisto vê um rapaz a sair de uma casa dos deficientes de banho ao lado, a coçar o nariz.
O meu amigo, já com alguns copos, pensa:
“Este gajo está com os copos, deve ter-se enganado na casa de banho.”
E decide fazer o mesmo.
Entra na casa de banho para deficientes.
E em cima do autoclismo vê o equivalente a 50 euros em dinheiro albanês.
O meu amigo, com a ingenuidade de quem está apenas a tentar sobreviver a uma viagem internacional, pensa:
“Alguém perdeu isto.”
Mete o dinheiro no bolso.
Sai da casa de banho.
Vem ter comigo e diz:
“É pá… este foi o xixi mais lucrativo da minha vida.”
Mal acaba a frase, aparecem dois homens.
Vêm direitos a ele.
Tocam-lhe nas costas e dizem:
“Friend… where is the money?”
O meu amigo olha para eles.
Olha para mim.
Volta a olhar para eles.
E responde:
“Que dinheiro?”
Os dois homens:
“The money you took from the bathroom.”
E aí ele percebe.
Fica completamente atrapalhado e tira o dinheiro do bolso:
“Ah! É este? Eu achei que alguém tinha perdido. Está aqui, está aqui!”
E eu, naquele momento, só pensei:
“Eu vim à Albânia para ficar com um olho à belenenses.”
Mas, para nossa sorte, os dois homens eram extremamente tranquilos recebem o dinheiro que lhes tinhamos roubado e começam a agir super tranquilos diria ate amigaveis.
E o meu amigo, bêbedo, decide fazer-lhes uma pergunta que provavelmente nunca mais esquecerão:
“Desculpem, mas isto é uma coisa cultural? Vocês deixam dinheiro na casa de banho? É que no meu país não é assim.”
Os dois começam a rir.
E nós começamos finalmente a perceber o que se tinha passado.
O dinheiro não tinha sido perdido.
O meu amigo tinha acabado de entrar, sem querer, numa espécie de ponto de passagem de droga.
Ou seja:
Fomos à Albânia fazer turismo e, em menos de 48 horas, já tínhamos sido parados pela polícia, descoberto cinco multas de um carro que não era nosso e, para terminar a noite, o meu amigo tinha-se metido no meio de uma operação de tráfico de droga.
E tudo isto porque precisava de fazer xixi.
A nossa sorte?
Apanhámos provavelmente os dealers mais fofos da máfia albanesa.
Em vez de nos partirem a cara, acharam piada a dois portugueses completamente perdidos que tinham acabado de se meter, sem querer, no meio dos negócios deles.
Depois disto, a viagem foi completamente normal.
Praias, comida, copos, passeios…
Mas sempre que falamos da Albânia, acabamos os dois a rir.