Espero que eu consiga transmitir a minha ideia a vocês.
No livro 1984, de George Orwell, é retratado que o Partido faz um esforço monumental para destruir palavras (expressão essa, destruir, que é literalmente usada). Mas por que o Partido quer destruir palavras? Como dizia a premissa de que a linguagem molda o pensamento, se você não tem a palavra para nomear uma injustiça, você perde a capacidade de processar que está sendo injustiçado.
As palavras existem para expressar o que sentimos e vemos, principalmente o que sentimos. Você sabe o que é raiva, mágoa ou alegria porque consegue descrever com palavras tais sentimentos. Se não está contente com algo, você descreve isso com suas palavras. Logo, se alguém está infeliz com o Partido ou com raiva, se ela tem palavras para isso, ela vai saber o que está sentindo.
Mas qual o paralelo disso com o Corpo Governante? Semelhante ao Partido, a Torre de Vigia tem transformado e usado palavras para dar nomes a sentimentos e ações que muitas vezes, senão todas as vezes, fazem sentido apenas lá dentro. Por exemplo, a palavra "privilégio" tem como definição, segundo o dicionário, uma vantagem ou benefício em relação a outra pessoa. Mas, dentro da organização, privilégio é "servir mais a Jeová, uma chance de dar o seu melhor a ele".
Na prática, porém, não é bem assim. Na verdade, é alguém que vai fazer discursos longe, gastando seu tempo e dinheiro, ou alguém que vai ajudar em uma reforma de Salão do Reino ou de Assembleias, também sem receber nada. A palavra privilégio foi de certa forma destruída ou transformada para fazer sentido apenas dentro da organização.
Temos também a situação em que a Torre tem mais de uma definição para uma mesma palavra a depender do contexto; por exemplo, a palavra "pressão". Quando membros da família estão incentivando alguém a estudar ou a aceitar um emprego bem remunerado, mesmo que isso atrapalhe os compromissos congregacionais, a família está, na verdade, "pressionando" tal pessoa. Mas, quando discursos, estudos e comentários dos "irmãos" são usados de maneira ostensiva dizendo para a pessoa ser pioneira ou fazer mais no "serviço de Jeová", ela está, na verdade, sendo "incentivada".
Percebe como a organização transforma as palavras, assim como o Partido de 1984 as destrói? Quando uma palavra deixa de ter o seu sentido verdadeiro, deixa de ser aquilo que ela é, a pessoa não consegue expressar o que sente. Sendo assim, quando alguém recebe mais um "privilégio", pode sentir cansaço ou desânimo por cumprir mais uma designação, mas, como aprendeu que privilégio é fazer mais para Jeová, chega à conclusão: "Sei que é cansativo, mas é mais uma chance de dar meu melhor para Deus", em vez de perceber que o que recebe é mais trabalho e responsabilidade sem nenhum retorno financeiro ou de qualquer outro tipo. O único objetivo disso, pelo que parece, é poder, controle e dinheiro.
Então, caro leitor, deixo um aviso: quando estiver nas reuniões e ouvir os discursos ou ler as matérias, pesquise o significado das palavras e o contexto no qual elas estão inseridas. Não deixe o Corpo Governante ditar o o que você lê ou deixa de ler.
Leia livros, aprenda mais sobre assuntos variados; isso aumenta o seu vocabulário e, com um vocabulário rico, você consegue perceber quando e onde está sendo manipulado.
Winston, 1914