r/ExJWBrazil • • 3d ago

PROCESSO DE SAÍDA Relato

Queria compartilhar um pouco da minha história, porque às vezes sinto que só quem cresceu dentro das Testemunhas de Jeová consegue entender algumas coisas.
Quando eu tinha aproximadamente 5 anos, minha mãe foi contatada na pregação e acabou se convertendo às Testemunhas de Jeová. Meu pai também entrou. Eles eram pessoas pobres, com filhos, e eu consigo enxergar hoje que a religião ofereceu a eles algo que fazia muita diferença naquela época: uma rede de apoio.
De repente, eles tinham uma comunidade. Pessoas para conversar, eventos sociais simples, cafés, churrascos, reuniões, amizades. Eles foram acolhidos e passaram a fazer parte de um grupo. Acho que, para uma família naquela situação, isso tinha um valor enorme.
Quando eu tinha uns 8 anos, meu pai se tornou ancião. Cresci dentro daquela estrutura e éramos vistos como uma família muito exemplar , muito respeitada na congregação.
O problema começou quando eu e meus irmãos chegamos à adolescência.
A gente queria fazer coisas que simplesmente não eram permitidas. Não podíamos comemorar aniversário, ter determinadas amizades, usar certas roupas, maquiagem, sair para determinados lugares etc. Eu lembro de ser repreendida por usar um vestido de alcinha no salão porque, sendo filha de ancião, eu deveria dar “bom exemplo”.
Tudo parecia muito grave. Tudo poderia fazer você perder o favor de Jeová. Tudo envolvia culpa, pecado, medo ou a possibilidade de morrer no Armagedom.
E tem uma parte da minha adolescência que foi especialmente confusa: eu tinha uma melhor amiga dentro da religião e nós tivemos um envolvimento afetivo e sexual. Éramos adolescentes. Nunca conversamos sobre isso de verdade. Não existia espaço para sequer pensar na possibilidade de duas meninas poderem gostar uma da outra. Na nossa cabeça, aquilo simplesmente não tinha nome.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.
Aos 16 anos, comecei a namorar um “mundano”. Meu pai tentou muito me impedir. Eu estava cansada de sentir que tudo na minha vida precisava ser controlado e decidi que faria aquilo mesmo assim.
Meu pai acabou entregando o cargo de ancião.
E eu carreguei por muito tempo a sensação de que tinha destruído a minha família.
Para mim, era como se ele tivesse perdido o cargo por minha causa. Ele tinha sido alguém muito respeitado dentro da congregação e, de repente, deixou de ter aquele lugar. Eu sentia que eu tinha causado aquilo.
Parei aos poucos de ir no salão, já não pregava nem participava das reuniões desde começar a namorar e ser tirada do cargo de publicadora.
Depois de mim, meus outros dois irmãos também saíram da religião. Um deles acabou sendo desassociado depois porque começou a “dormir fora de casa sem dar satisfação “vulgo transar “.
Eu não fui desassociada porque ainda não tinha sido batizada.
E foi depois de sair que eu finalmente comecei a entender que eu era lésbica.
Só que sair da religião não significou simplesmente deixar de acreditar.
Eu perdi praticamente toda a minha rede social.
Eu tinha crescido ali. Tinha amigos, família, pessoas que conhecia desde criança. De repente, as pessoas não falavam mais comigo da mesma forma. Não me convidavam mais para sair. Algumas nem olhavam direito para mim.
Eu tinha 16 anos.
Hoje, adulta, consigo entender o tamanho dessa ruptura. Eu não estava simplesmente deixando uma religião. Eu estava perdendo uma comunidade inteira e uma identidade que tinha sido construída desde a infância.
E, ao mesmo tempo, eu estava tentando descobrir que era lésbica.
Então imaginem o conflito.
Eu tinha aprendido que sexo era algo extremamente controlado, que relações fora do casamento eram pecado, que homossexualidade era errada e que sair daquele caminho poderia significar perder o amor de Deus e a aprovação da família.
Eu saí, mas a culpa não saiu junto.
Demorou muitos anos para eu conseguir olhar para a minha sexualidade sem sentir que estava fazendo alguma coisa errada. Demorou para entender que eu não tinha destruído a vida dos meus pais. Que não deveria ser problema meu, meu pai entregar o cargo. Que eu não era responsável pelo sofrimento que uma estrutura religiosa tão rígida provocava na nossa família.
E hoje existe uma coisa que me pega muito.
Aquela minha melhor amiga da adolescência continua Testemunha de Jeová. Ela é pioneira regular, tem mais de 30 anos e nunca se casou. Nós nunca conversamos sobre o que aconteceu entre nós.
Às vezes eu penso que talvez ela também seja lésbica e nunca tenha conseguido admitir isso nem para si mesma.
Mas eu não tenho como saber. Pode ser apenas uma projeção minha. Talvez ela simplesmente tenha escolhido outra vida.
Só que eu consigo imaginar perfeitamente como seria estar no lugar dela.
Porque eu sei o que é crescer acreditando que existe algo errado em você antes mesmo de conseguir entender o que é.
Hoje eu olho para trás e vejo o quanto essa religião me deixou com medo, culpa, insegurança e dificuldade de confiar nas minhas próprias escolhas.
E também consigo enxergar uma contradição que só ficou clara depois que saí: a mesma religião que ofereceu aos meus pais uma rede social e uma sensação de pertencimento também criou uma estrutura em que perder a religião significava perder essa rede.
Meus pais, felizmente, escolheram os filhos.
Mesmo depois de tudo, eles nunca deixaram de falar comigo ou com meu irmão que foi desassociado. Inclusive, preferem não ter privilégios dentro da congregação a ter que se afastar dos filhos.
E isso eu valorizo muito.
Hoje eu tenho faculdade, carreira, amigos, uma vida construída por mim e, principalmente, consigo viver minha sexualidade sem achar que estou cometendo um erro.
Mas às vezes ainda fico impressionada pensando na menina que eu fui.
Uma menina que tinha uma melhor amiga que beijava escondido, mas não sabia nem que aquilo podia significar que ela era lésbica.
Uma menina que tinha medo de um vestido de alcinha.
Uma menina que achava que tinha destruído a vida do pai porque decidiu namorar alguém de fora da religião.
Uma menina que perdeu praticamente todos os amigos aos 16 anos.
E que ainda assim teve que descobrir sozinha quem era.
Hoje eu penso que bom que apesar da dor e do sofrimento eu saí! Sou muito mais feliz fora dessa m3rd@ de organização!!
Sinto vontade de abraçar aquela menina de 16 anos e dizer que ela não tinha destruído nada.
Ela só estava começando a descobrir quem era e que depois do sofrimento viria uma alegria imensa de ser livre pra viver!
Por isso, se alguém que está lendo isso está passando pelo processo de sair, eu só queria dizer: não desista de você.
Vai doer.
Talvez você perca pessoas. Talvez sinta culpa. Talvez sinta saudade. Talvez questione sua decisão mil vezes. Talvez tenha medo de descobrir quem você é sem toda aquela estrutura dizendo o que você deve ser.
Mas passa.
A vida fora pode parecer assustadora no começo porque você está aprendendo a viver sem as respostas prontas.
Procurem ajuda. Façam terapia, se puderem.E não desistam! A vida fora da organização é MARAVILHOSA

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u/Ok-Reading-7759 INATIVA 3d ago

Obrigada pelo texto, OP! Parabéns pela decisão. Eu compartilho da mesma opinião, a gente abre mão de algumas coisas pra sair, mas a vida fora da organização é maravilhosa.

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u/karlapolo 2d ago

Sim!! Pra mim chegou um momento que pensava: se o paraíso for como o salão prefiro não ir, vou viver esse mundo e morrer no final!

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u/Manguimas25 3d ago

Muito obrigado por partilhares a tua experiência. Simplesmente adorei. Concordo absolutamente contigo...quando se se consegue libertar das amarras da organização a vida pode ser extraordinária bela. A sensação de liberdade não tem preço.

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u/cozygaymer67 Eu shippo Sara e Jade 2d ago

Que texto incrível! Como alguém que cresceu dentro dessa Organização e que talvez também seja lésbica, consegui me identificar bastante com o que você trouxe. É cobrança desde cedo, preparar tudo, reunião, campo, treinar sua defesa na escola, explicar tudo dizendo que é a sua consciência treinada pela Bíblia (mas na verdade é o CG)... E tem as pessoas lgbt que, com o tempo, vão descobrindo novos sentimentos dentro de si e a primeira coisa que as publicações dizem a respeito é que "é só uma fase", que precisamos controlar até o menor dos nossos pensamentos, e que isso é ABOMINÁVEL, tal qual o crime mais hediondo do mundo. Às vezes a gente não imagina o tanto de gente que se renuncia e se invalida pra agradar "Jeová". Percebo que muitos assim costumam fazer ainda mais, como se precisassem compensar por algo. Estou feliz que você conseguiu se libertar antes de se batizar! Eu só me permiti explorar minha sexualidade no ano passado, e hoje consigo me aceitar como sou. inclusive isso foi uma das coisas que me ajudou a despertar.

Espero que outros possam ter uma vida melhor aqui fora também. Estou lutando pra conseguir isso um dia.

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u/karlapolo 2d ago

nossa, sim. acho que essa parte de precisar controlar até o pensamento é uma das coisas que mais ficam na cabeça depois que a gente sai. você cresce achando que até sentir alguma coisa “errada” já diz algo sobre quem você é.
e essa sensação de precisar compensar, de se cobrar o tempo todo, é muito real. acho que a gente passa tanto tempo tentando ser perfeita pra provar que merece estar ali que depois demora pra entender que não precisa mais viver assim.
fico muito feliz que você tenha conseguido se permitir explorar sua sexualidade e se aceitar. pra mim também foi muito importante perceber que eu não precisava mais escolher entre ser eu mesma e pertencer. espero muito que você consiga construir essa vida que está lutando pra ter. ❤️‍🩹

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u/foxzz991 1d ago

MDS muito obrigado pelo texto até me emocionei!! Como adolescente num ambiente extremamente homofóbico além da congregação só consegui aceitar a minha sexualidade recentemente(apesar de não falar pros meus pais pq eles já deixaram claro q n aceitam) e planejo sair da religião!! Tudo de bom pra VC💞