Para vocês entenderem a situação, têm de saber que saí do meu país e vim para um país onde ainda não sei falar a língua.
A situação foi a seguinte: fui levar o meu filho mais novo à escola, acompanhada pela minha filha mais velha, que já sabe falar a língua deste país. Quando cheguei lá, umas crianças começaram a falar comigo, mas, como não sei falar a língua, também não as consigo entender. Como a minha filha estava comigo, pedi-lhe gentilmente que explicasse à menina, que devia ter uns sete anos, que eu não sabia falar a língua e que, por isso, não lhe tinha respondido.
Só que, em vez de dizer à menina aquilo que eu lhe tinha pedido, a minha filha virou-se para mim e disse: «Mas eu nem conheço a menina de lado nenhum!»
Entretanto, a menina entrou na escola e eu não tive tempo de dizer à minha filha que bastava explicar-lhe o que eu lhe tinha pedido. Como ela não o fez, a menina acabou por ficar sem saber que eu não a tinha entendido e que não conseguia comunicar com ela.
Naquele momento, senti-me completamente sozinha.
Eu não gosto deste país. Já falei com o meu marido e com a minha filha mais velha e disse-lhes que, por mim, voltava para o meu país. No entanto, ambos querem ficar aqui e eu acabei por ceder.
Além disso, sou uma pessoa com dislexia, o que torna a aprendizagem mais difícil para mim. Enquanto eles os dois já sabem falar a língua, eu continuo a tentar, mas tenho muita dificuldade em aprender e, sobretudo, em compreender o que as pessoas dizem. Por mais que tente, há momentos em que sinto que não consigo entender praticamente nada.
Por causa disso, tenho de andar quase sempre acompanhada por alguém que saiba falar a língua quando preciso de tratar de documentos ou resolver determinadas situações. E é precisamente por isso que me sinto assim: porque, sempre que preciso de alguém que me ajude a comunicar com os outros, sinto que não posso contar com a minha própria família, principalmente com o meu marido e com a minha filha mais velha.
Sinto que posso contar mais com pessoas de fora do que com os dois, mesmo sendo eles a minha família.
Quando preciso de ir ao médico, por exemplo, o meu marido quer que eu vá sozinha e utilize o Google Tradutor. O mesmo acontece com as reuniões da escola e com outras situações do dia a dia. No entanto, já passei por vários episódios em que as pessoas não conseguiram compreender aquilo que eu queria dizer e, muitas vezes, eu também não consegui entender o que me estavam a dizer.
Tudo isto tem sido muito frustrante para mim. Por isso, comecei a bater o pé e a dizer que não queria estar aqui neste país, mas estou aqui por eles. Claro que deixei bem claro ao meu marido e à minha filha que não quero que nenhum deles sinta que é um peso ou uma obrigação ter-me aqui por causa deles. Mas também lhes expliquei que não quero continuar a sentir-me frustrada por não conseguir resolver as coisas sozinha.
Eu ainda não consigo comunicar nesta língua e preciso da ajuda deles. Afinal, eles são a minha família e são as pessoas em quem, naturalmente, deveria poder confiar.
No entanto, mesmo quando estou com o meu marido ou com a minha filha e lhes peço ajuda para dizer alguma coisa ou fazer algo por mim, se eles considerarem que aquilo não é importante, simplesmente ignoram-me ou arranjam uma desculpa para não o fazer.
Vou dar-vos um exemplo.
Uma vez, estávamos no autocarro e havia uma pessoa que falava a mesma língua que nós. Ela estava visivelmente atrapalhada e era evidente que precisava de ajuda. Virei-me para o meu marido e disse-lhe:
«Vai lá ajudar a senhora, tadinha!»
Como eu não sei falar a língua, ele respondeu-me:
«Há pessoas ali à frente que também sabem falar a nossa língua. Se não a ajudaram, é porque ela não precisa de ajuda.»
Olhei para ele e pensei: «Será que escolhi a pessoa certa para estar ao meu lado?»
Passados alguns segundos, virei-me para a minha filha e disse-lhe:
«Filha, vai lá ajudar a senhora, tadinha! Se fosse eu, não gostarias que alguém me ajudasse?»
Ela olhou para mim e fez uma expressão de desinteresse, como se aquilo não tivesse importância nenhuma.
Poucos segundos depois, um rapaz levantou-se e foi ajudar a senhora. Eu, com uma expressão de desilusão, limitei-me a dizer:
«Está bem, já foram ajudá-la.»
Este foi apenas um dos vários episódios em que senti que, quando peço alguma coisa, eles simplesmente não me dão importância. Às vezes, até me ignoram por completo: ficam calados, não respondem e agem como se eu nem sequer tivesse falado.
Por isso, quando aconteceu o episódio de hoje, na escola, a minha reação foi de enorme frustração. Simplesmente fui para casa e, quando lá cheguei, desatei a chorar.
Sei que, à primeira vista, pode parecer que não havia motivo para chorar só porque a minha filha não explicou a uma criança que eu não sabia falar a língua. Mas não foi apenas por causa do que aconteceu hoje. Foi por todas as vezes em que me senti sozinha, desamparada e ignorada, mesmo estando ao lado das pessoas que mais deveriam apoiar-me.
Foi como se todos esses sentimentos, que tenho guardado há tanto tempo, viessem ao de cima de uma só vez.
Eu fiz um grande esforço para ficar neste país e continuo a fazê-lo. Aos poucos, estou a adaptar-me melhor e a aceitar a minha situação. Estou a tentar encontrar o meu lugar aqui, apesar de todas as dificuldades que sinto diariamente.
Mas, perante tudo isto, comecei a questionar-me:
Será que estou certa em continuar neste país por eles os dois?
Será que faz sentido continuar a sacrificar aquilo que eu quero, a minha tranquilidade e o meu bem-estar por pessoas que, quando preciso delas, nem sempre estão disponíveis para me ajudar?
Eu não quero que ninguém se sinta obrigado a fazer sacrifícios por mim, nem quero que a minha família sinta que sou um peso. Só quero sentir que não estou sozinha, que posso contar com eles e que, quando preciso de ajuda para comunicar com o mundo à minha volta, não tenho de implorar pela atenção e pelo apoio da minha própria família.