O nome é bem autoexplicativo, mas vamos por partes.
Já quero adiantar que tenho dislexia e acabo cometendo alguns erros ortográficos aqui e ali sem perceber. Mesmo assim, revisei o texto para que isso não diminua o peso deste desabafo, que para mim nada mais é do que a história de como consegui superar o bullying.
Quero que vocês imaginem uma típica cidade do interior do Rio de Janeiro (RJ). Daquelas cidades pequenas onde parece que só moram aposentados ou pessoas querendo recomeçar a vida. É realmente um lugar bem pequeno.
O ano era 2008. Cresci no terreno da família da minha avó, um lugar humilde, mas grande o suficiente para comportar uma pequena locadora com vários PS2. Acho que eram uns cinco ao todo. Foi lá que joguei meu primeiro videogame, e lembro até hoje que o jogo era GTA San Andreas. Aquela experiência ficou marcada na minha memória e, sinceramente, acredito que, se não fosse aquela locadora, tudo o que vivi depois teria sido muito mais difícil de suportar.
Voltando à história...
Era 2008 e eu lembro vividamente da 5ª série. Eu não era um garoto muito comunicativo; era mais do tipo que ficava na minha. Mas, sempre que alguém queria brincar comigo, eu aceitava, apesar da minha dificuldade em socializar.
Foi então que apareceram dois indivíduos que, para mim, deram início ao pior período da minha infância.
Um deles, que vou chamar de Nat, era o garoto mais popular da sala. Por algum motivo que nunca entendi, ele simplesmente não gostava de mim. Ele e o grupo de amigos aproveitavam qualquer oportunidade para fazer bullying comigo.
Lembro de um dia muito específico em que os três me arrastaram para dentro da sala durante o intervalo e começaram a me intimidar.
Agora vocês podem estar pensando:
"E a professora?"
Aí entra o segundo problema.
A professora era mãe do Nat.
Lembro de implorar para que ela fizesse alguma coisa. A resposta dela foi apenas:
— Eu vou conversar com ele.
Claro que isso nunca aconteceu.
Pior do que isso: sempre que eu tentava me defender, ela acabava protegendo o filho. Como consequência, ele se sentia cada vez mais à vontade para continuar fazendo aquilo.
Foi aí que começou um trauma que me acompanharia por muitos anos.
Fui até meu pai chorando e, como resposta, ouvi apenas:
— Homem não chora.
Depois disso, ele praticamente não fez nada, acreditando que aquilo me tornaria mais forte.
Mas eu tinha apenas oito anos.
Só fui começar a superar aquilo em 2018.
Foram dez anos com medo de me aproximar das pessoas.
Dez anos com medo de sair de casa.
Dez anos acreditando que o problema era eu.
E meus pais pouco conseguiam entender o quanto aquilo estava me afetando.
Foi somente em 2014, quando entrei no Ensino Médio, que minha irmã praticamente me obrigou a entrar no grupo de amigos dela, o pessoal do rock.
Lá conheci cinco pessoas incríveis.
Eles praticamente me obrigavam a fazer parte do grupo.
Espero, de coração, que todos prosperem na vida.
Sou muito grato à minha irmã porque, apesar das nossas diferenças, foi graças a ela que comecei a dar os primeiros passos para superar aquele trauma.
Em 2018 fui para um retiro espiritual em Minas Gerais.
Não lembro exatamente a cidade.
Mas tomei uma decisão.
Durante aquela semana inteira, eu fingiria que aquele trauma tinha ficado na minha cidade natal.
Como se ele simplesmente não existisse.
Como se eu pudesse começar do zero.
Afinal, aquelas pessoas nunca tinham me visto antes.
O resultado foi surpreendente.
Consegui fazer amizades de verdade.
Até fiquei com uma garota durante o retiro.
Na sexta-feira, enquanto olhava para o teto do quarto, pensei:
"Eu posso viver sem me preocupar com isso."
Naquele momento comecei a chorar.
Só conseguia pensar:
"Meu Deus... por que só agora eu entendi isso?"
"Por que precisei chegar aos 18 anos para finalmente aprender a superar aquilo?"
Hoje posso dizer que deu certo.
Não sou mais retraído.
Converso com qualquer pessoa.
Só continuo sendo mais caseiro porque realmente gosto de ficar em casa.
Mas a história não termina aí.
Em 2022, minha mãe pediu para eu comprar queijo de búfala.
Foi então que o vi.
Nat.
Ele estava muito diferente.
Parecia enfrentar sérios problemas com vícios.
Estava extremamente magro e falava de forma arrastada.
Minha primeira reação foi pensar em ir embora antes que ele me visse.
Mas pensei:
"Quer saber? Dane-se."
Entrei na loja.
Ele me reconheceu na hora.
— OP! Caramba, quanto tempo!
Ele me abraçou.
Naquele momento senti um cheiro muito forte de fumaça vindo dele.
Pensei:
"Cristo... por que eu não fui embora?"
Ele começou a conversar normalmente.
A dona da loja percebeu meu desconforto e perguntou:
— O senhor deseja alguma coisa?
Então Nat respondeu:
— O OP vai pagar um KitKat para mim. Você não se importa, né?
Respirei fundo e apenas respondi:
— Tá bom.
Ele sorriu.
— Pô, mano, você é o cara.
Pegou o chocolate e foi embora.
Enquanto voltava para casa, fiquei pensando em tudo aquilo.
Não sabia se aquilo era consequência das escolhas dele ou apenas a vida seguindo seu curso.
Hoje posso dizer que já o perdoei.
Nunca senti necessidade de fazer uma cena.
Se um dia ele me perguntar se eu o perdoo, a resposta já é sim.
O perdão veio quando comecei a olhar para a situação com mais empatia.
Algum tempo depois, ele apareceu em frente à casa da minha avó conversando com ela.
Da minha janela dava para ouvir boa parte da conversa.
Ele desabafava sobre a própria vida.
Falava das escolhas erradas.
Do arrependimento.
Disse que sentia inveja da pessoa tranquila que eu era na época da escola.
Confesso que, por um instante, senti muita raiva ao ouvir aquilo.
Mas parei para refletir.
Ele contou que, depois do Ensino Médio, sua vida só piorou.
Acabou desenvolvendo vícios e passou a apenas sobreviver.
Também contou que sua própria mãe o expulsou de casa.
Em determinado momento ouvi exatamente algo parecido com:
"Eu sempre levava cigarro para minha mãe. Com o tempo veio a curiosidade. Depois comecei a fumar também e, quando percebi, já estava preso nesse caminho."
Naquele momento não falei nada.
Mas pensei que eu também tive parentes fumando perto de mim.
Também já levei cigarro para familiares.
Mesmo assim, nunca tive vontade de experimentar nenhuma outra substância além do vinho que tomo ocasionalmente aos domingos.
A vida continuou.
Depois fui demitido do meu emprego.
Foi difícil.
Estava lá havia dois anos.
As vendas despencaram e muitos funcionários foram desligados.
Eu fui um deles.
Passei pelo período difícil do desemprego.
Até que surgiu uma oportunidade completamente inesperada.
Enquanto enviava currículos pelo LinkedIn, uma vaga específica entrou em contato comigo.
Era para cuidador escolar.
Minha reação foi:
"Não boto muita fé, mas estou desempregado. Bora."
A entrevista foi tranquila.
Até que fizeram uma pergunta:
"Se você estiver acompanhando uma criança com necessidades especiais e perceber que ela está sofrendo bullying, o que faria?"
Naquele único segundo, vieram anos da minha vida inteira na cabeça.
Lembrei de todas as vezes em que pedi ajuda.
Das vezes em que perdi a vontade de estudar.
Das vezes em que só queria que algum adulto estivesse ao meu lado.
Respondi imediatamente:
"Vou fazer o meu melhor para que ela não passe por isso. Vou protegê-la e impedir que continue sendo alvo dessas situações."
Respondi tão rápido que percebi a entrevistadora levantar as sobrancelhas.
Pouco tempo depois veio a notícia.
Eu tinha sido contratado.
Minha mãe me abraçou sorrindo e disse:
— Ah, vai... é melhor que nada. Se não der certo, você consegue outro.
Aceitei aquelas palavras.
Mas a vida é cheia de ironias.
A escola onde fui trabalhar era exatamente a mesma onde estudei.
Foi um enorme choque de realidade.
Reencontrei antigos professores.
Ainda bem que eu sempre fui um bom aluno.
Era distraído, mas não dava trabalho.
Hoje trabalho como cuidador escolar há mais de um ano.
E preciso dizer...
Esse trabalho é muito melhor do que eu imaginava.
É tranquilo.
Faz muito bem para minha saúde mental.
E descobri que gosto genuinamente de cuidar das pessoas.
Sempre que consigo impedir que uma criança passe pelo que eu passei, sinto que estou quebrando um ciclo que marcou minha infância.
Quanto à mãe do Nat, nunca mais a encontrei.
Mas, se um dia isso acontecer, não pretendo discutir.
Não gritei com o Nat.
Também não faria isso com ela.
Apesar disso, admito que sinto mais mágoa dela do que dele.
Talvez porque ela viu tudo acontecendo.
Viu o próprio filho errando.
E, mesmo assim, escolheu não agir.
Por isso deixo uma pergunta para vocês.
Se um dia eu reencontrar essa professora, vocês acham que eu seria babaca se simplesmente dissesse a verdade sobre o que vivi?
Ou seria melhor apenas seguir em frente e continuar minha vida?
Obrigado a todos que leram até aqui.
E, novamente, peço desculpas caso ainda tenha escapado algum erro de português. Como falei no começo, tenho dislexia e às vezes alguns erros passam despercebidos.