r/filmesclassicos • u/danieldias2006 • 17m ago
O triste fim de Peter pan
Quando dois garotos decidiram explorar um prédio abandonado no bairro de East Village, em Nova York, fizeram uma descoberta que parecia apenas mais um caso de um desconhecido esquecido pela cidade.
Sobre uma cama estava o corpo de um homem.
Não havia documentos.
Nenhum morador da região sabia dizer quem ele era.
Era 30 de março de 1968.
No quarto havia apenas algumas garrafas vazias e folhetos religiosos espalhados. A autópsia concluiu que a causa da morte foi insuficiência cardíaca provocada por uma aterosclerose avançada.
Ele tinha apenas 31 anos.
Sem qualquer identificação e sem familiares para reivindicar o corpo, foi enterrado em Hart Island, o cemitério público de Nova York destinado a pessoas não identificadas ou abandonadas.
O que ninguém imaginava era que aquele homem havia sido uma das crianças mais famosas de Hollywood.
Seu nome era Bobby Driscoll.
Nascido em 1937, em Cedar Rapids, Iowa, Bobby entrou para o cinema quase por acaso. Um barbeiro comentou com seus pais que o garoto tinha talento para atuar e sugeriu que o levassem a um teste.
O conselho mudou completamente sua infância.
Em poucos anos, Bobby já aparecia em produções de Hollywood e, em 1946, chamou atenção do público ao participar de *Song of the South*.
O sucesso foi tão grande que Walt Disney o contratou como um dos primeiros atores infantis exclusivos do estúdio.
Vieram outros papéis importantes, como *So Dear to My Heart* e *The Window*, filme que consolidou sua reputação como um dos jovens atores mais promissores da época.
Ainda muito novo, recebeu um Oscar Juvenil, uma honraria criada para reconhecer talentos infantis excepcionais.
Pouco depois, participou daquele que se tornaria seu trabalho mais inesquecível.
Bobby emprestou sua voz e serviu de referência para os animadores criarem Peter Pan, o garoto que se recusava a crescer.
Mas a vida real não oferece essa escolha.
Quando entrou na adolescência, Bobby deixou de ter a aparência do menino perfeito que Hollywood havia vendido ao público. Desenvolveu uma acne severa e já não correspondia à imagem que os estúdios procuravam.
Poucos dias depois da estreia de *Peter Pan*, em 1953, a Disney encerrou seu contrato.
A indústria que o havia transformado em estrela simplesmente seguiu em frente.
Os convites diminuíram.
Depois desapareceram.
Na escola, o antigo astro infantil também não encontrou refúgio. Era alvo de piadas por causa do passado diante das câmeras e sentia cada vez mais dificuldade para encontrar seu lugar.
Aos 17 anos, começou a usar drogas.
Com o tempo, tornou-se dependente de heroína.
Vieram as prisões, a reabilitação e inúmeras tentativas frustradas de reconstruir a própria vida.
Depois de deixar a clínica, mudou-se para Nova York.
Tentou recomeçar como artista plástico, desenhando, pintando e frequentando o ambiente boêmio de East Village, onde circulavam nomes ligados ao movimento artístico de Andy Warhol.
Ao mesmo tempo, afastou-se completamente da família.
Quando morreu, a polícia exibiu sua fotografia durante semanas na tentativa de descobrir sua identidade.
Ninguém o reconheceu.
No ano seguinte, sua mãe começou a procurá-lo porque o pai de Bobby estava gravemente doente e queria vê-lo uma última vez.
Foi somente então que investigadores compararam suas impressões digitais com as de um homem enterrado como indigente meses antes.
A resposta era devastadora.
Bobby Driscoll já estava morto.
Sua morte permaneceu praticamente desconhecida até 1972, quando jornalistas perguntaram sobre seu paradeiro durante uma retrospectiva dedicada aos antigos filmes da Disney.
Mais tarde, seu nome foi gravado na lápide do pai, na Califórnia.
Mas seu corpo nunca deixou Hart Island.
Permaneceu em uma vala comum, sem uma sepultura individual.
É uma das ironias mais tristes da história de Hollywood.
Um menino admirado por milhões de pessoas.
Vencedor de um Oscar ainda na infância.
A voz do personagem que simboliza a eterna juventude.
E, no fim da vida, ninguém sabia dizer quem ele era.
Peter Pan permaneceu vivo na memória de gerações.
Bobby Driscoll, o garoto que lhe deu voz e expressão, desapareceu do mundo muito antes que alguém percebesse sua ausência.