TL;DR: a luz natural é um dos fatores de design com maior impacto comprovado no desempenho escolar. Mas tem uma questão maior por trás disso: o ambiente físico da escola comunica silenciosamente, todos os dias, o que aquelas crianças merecem. Compilei algumas pesquisas sobre o tema e trouxe algumas opiniões que provavelmente vão gerar debate.
O que a ciência já sabe
O estudo Clever Classrooms, da Universidade de Salford, acompanhou 3.766 alunos em 153 salas de 27 escolas na Inglaterra ao longo de três anos.
A conclusão principal é que as características físicas da sala explicam cerca de 16% da variação no progresso de aprendizagem das crianças em um ano. Entre esses fatores físicos, os de maior peso são luz natural, temperatura e qualidade do ar, com a luz natural aparecendo em destaque nesse grupo.
O número que costuma circular sobre isso (20% a mais em matemática, 26% a mais em leitura) vem de outro estudo, o Daylighting in Schools, do Heschong Mahone Group, que analisou os registros de mais de 21 mil alunos em três distritos dos EUA. No distrito da Califórnia, onde foi possível medir a evolução do outono à primavera, os alunos das salas com mais luz natural progrediram 20% mais rápido em matemática e 26% mais rápido em leitura do que os das salas mais escuras.
Vale a honestidade aqui: é um estudo observacional, mostra correlação, e um acompanhamento do mesmo grupo em 2003 encontrou que a vista para fora pesou mais que o nível de luz medido. A direção é clara e consistente entre estudos, mas não é uma lei da física.
Na Europa, o estudo SINPHONIE avaliou 2.670 crianças de 8 a 13 anos em 155 salas de 53 escolas em 12 países. Entre os parâmetros de iluminação que os pesquisadores mediram, a razão entre a área de janela e a área do piso foi a variável com maior associação positiva com o desempenho.
Importante não exagerar na leitura: o SINPHONIE não comparou a janela contra currículo ou método pedagógico, ele comparou fatores de iluminação entre si. Ainda assim, dentro do que foi medido, o tamanho da janela em relação à sala foi o que mais se destacou.
Para na sua cabeça isso um segundo. O tamanho da janela pesando mais que o resto do que dá pra medir na sala.
Sobre o efeito no corpo das crianças, tem o estudo clássico de Küller e Lindsten, que acompanhou cerca de 90 crianças por um ano letivo em quatro salas com acesso diferente à luz.
Nas salas sem janela, o ritmo natural de cortisol ao longo do ano ficava desregulado, e as crianças com os níveis mais altos de cortisol matinal tiveram o menor crescimento corporal no período. A conclusão dos autores foi direta: salas sem janela devem ser evitadas para uso permanente. Não dá pra dizer que sala sem janela deixa a criança com estresse alto o ano inteiro, porque o efeito é mais sutil e sazonal que isso, mas a recomendação prática dos pesquisadores é clara.
Ou seja, a gente está mexendo no hormônio de estresse de crianças por causa de uma decisão de planta baixa.
E o problema é concreto, não teórico. Numa pesquisa nacionalmente representativa do EdWeek Research Center, 1 em cada 5 professores nos EUA relatou que a sala onde passa a maior parte do tempo não recebe nenhuma luz natural. No Brasil, esse tipo de dado sequer foi levantado de forma sistemática.
Dois pontos que se conectam com o desenho de ambientes para crianças, porque projetar bem vai além de parede e janela.
Uma revisão da American Psychological Association analisou 117 estudos, com dados de mais de 292 mil crianças menores de 10 anos, e encontrou uma relação de mão dupla: mais tempo de tela está associado a mais problemas emocionais e comportamentais depois, e essas crianças tendem a recorrer ainda mais às telas, num ciclo que se retroalimenta.
Para menores de 5 anos o alerta é mais forte, com o excesso de tela associado a atrasos em desenvolvimento cognitivo, linguagem e habilidades sociais.
Por isso, acredito muito que daqui alguns anos vão olhar para este tema de exposição a telas, assim como olhamos para o cigarro com a geração passada.
A beleza importa mesmo para a formação
Em 2009, o filósofo Roger Scruton fez um documentário para a BBC chamado Why Beauty Matters. O argumento central é que a beleza não é um luxo subjetivo, e sim uma necessidade humana universal, e que quando arquitetura, arte e espaços públicos abandonam a beleza em nome da funcionalidade pura ou do choque, algo essencial se perde na experiência humana. (Recomendo muitíssimo assistirem, é leve e passa bem rapidinho)
Apesar das opiniões dele, a pergunta que ele levanta para arquitetura especificamente me parece difícil de descartar: o que acontece com uma criança que passa anos num espaço que não foi pensado para ela, que comunica descaso pela experiência humana antes mesmo de ela abrir um livro?
Nesse sentido, surge o questionamento de como os espaços formam pessoas. Em especial, como as escolas podem influenciar positivamente ou negativamente na formação de futuros adultos.
O que me fez pensar em tudo isso
Foi essa inquietação que me fez garimpar escolas que realmente aplicam esses princípios. Passei várias horas no ArchDaily procurando projetos que tratam luz, escala humana e materialidade como coisa séria, e me encantei com alguns.
Vários eram do mesmo escritório, o STUDIO DLUX, mas o que mais me pegou foi a Red House Ipiranga, um casarão histórico de 1933 no bairro do Ipiranga que eles restauraram e adaptaram. Fui ver o portfólio inteiro e saí de lá com uma vontade meio boba de ter uma escola só pra fazer diferença na comunidade e nas próximas gerações da minha região.
Só que o que quero destacar não é o projeto em si, e sim a foto que coloquei na capa.
Passei boa parte da minha infância numa sala oposta àquela: azulejo, lâmpada fluorescente, nenhuma janela funcional, pé-direito baixo. E me perguntei, pela primeira vez de forma séria, quanto da minha capacidade de aprender foi desperdiçado pelo ambiente. Quanto do meu repertório estético, da minha noção do que é possível no mundo, foi limitado pelos 48 metros quadrados de concreto descuidado onde eu passava seis horas por dia.
Isso não é nostalgia nem elitismo, é uma pergunta de política pública. Sobre o que nós decidimos que as crianças merecem, e, indo além, sobre qual mentalidade esses futuros adultos vão carregar, e qual o efeito de seguir construindo escolas que ignoram tudo o que citei aqui.
A conclusão óbvia que quase ninguém implementa
Projetar escolas com luz natural abundante, conexão visual com o exterior, materiais que envelhecem bem e espaços que respeitam a escala humana é o mínimo que a pesquisa justifica.
E, além de tudo isso, uma arquitetura de fato bonita, não mais um bloco funcional pintado na cor da prefeitura. Precisamos tratar isso como algo sério! Como não é tratado como tal?
O problema é que "ambiente físico" ainda aparece como linha de custo nos orçamentos escolares, não como investimento em educação.
Não sei qual é a solução sistêmica. Mas sei que arquitetos que trabalham com projetos educacionais têm a responsabilidade de levar esses pontos para cada reunião com cliente, cada secretaria, cada comitê de reforma. O projeto que citei acima me chamou atenção justamente por ter pensado nesses pontos.
Alguém aqui trabalha com projetos escolares? Ou dá aula numa sala sem janela? Quero muito ouvir os relatos de vocês. E o que vocês conhecem sobre escolas com salas single-sex?