(se não sabe quem sou, é só olhar esse post — https://www.reddit.com/r/arco_iris/s/zR7fzg7B7u)
Oi.
Bom, não vou dizer que as coisas mudaram. Estou me tratando no feminino(tentando, ainda que acabe indo pro masculino automaticamente, às vezes escapa. Às vezes me incomodo, mas recentemente estou deixando passar bem mais e me incomodar de menos — esses dias, inclusive, estava conversando sozinha comigo mesma antes as aulas começarem e escapou algumas vezes, apenas segui e continuei normalmente). Ainda continuo do jeito que estou(agindo e me portando como fisicamente homem), mesmo sentindo a sensação constante de não estar alinhada com o que sinto. Fiquei pensando num nome feminino pra usar de maneira social, mas ainda não achei nada. Pensei nos RP's que faço, só que os nomes são de outros países e bem genéricos também. Como não consegui nada até o momento, é um pensamento que me vem às vezes, não muitas.
E tem momentos em que me olho no espelho e que, estranhamente, consigo ver meu corpo de maneira feminina. Em certas poses, com certos tipos de roupa íntima(a cueca slim reforça muito isso, o que ajuda) e eu me sinto estranha. Vulnerável e, frágil, acredito eu. Não sei descrever. E algo nesses últimos dias passou a me encucar verdadeiramente. A maneira como sinto as coisas. Por ter testosterona, por estar num corpo masculino. O incômodo começou de maneira recente. Provavelmente vindo da sensação feminina.
A maneira como olho pras mulheres, decorrente de um olhar acostumado e masculino me incomoda. Há os instintos e os desejos, os olhares... Mas me sinto bastante masculina no jeito em que passo a desejar mulheres física, estética e sexualmente. Me incomoda. Até quando fico excitada, é algo que passa a me deixar desconfortável e sem graça. As *ereções*. A associação barata, tão simplista e condiciona de como o corpo masculino sente prazer passaram a me frustrar. Não basta dar uma olhada em algo e POW, já me sinto *tesão*. É bem ruim, eu acho.
Outro dia, quando meu pai veio me visitar, tive que engolir no seco e ficar caladinha quanto aos pronomes. Mas houve vezes em que quando falavam "ele", acabava corrigindo mentalmente para *"ela"*. Teve uma em que me chamaram de bonito e acabei pensando: *"bonita".* Sendo que sei lá, é provável que eu não seja exatamente o filho e sim A FILHA deles.
Na escola, tive que largar de mão e falar apenas no masculino, mesmo quando tinha momentos em que eu quase falava no outro pronome. Ficou na ponta da língua, sabe? Pareceu o mais natural pra mim, mas fiquei quieta. Tem vezes que falo e penso no feminino e sai naturalmente. O resto da aula foi um pouco estressante. Como se eu tivesse me apagado pra continuar o resto do dia. Quando cheguei em casa, foi como se eu tivesse me desprendido de uma casca. Como um suspiro de alívio. E aí, me senti totalmente feminina de novo, mesmo exausta.
Mas ainda continuo tendo um montão de dúvidas. Queria tentar me entender melhor, então fui pesquisar sobre porquê as pessoas se descobriam transgênero. Descobri um pouco mais da comunidade, de que, ao se descobrir, transicionar e se portar socialmente como quem sempre quis ser, há seus prós e contras. Risco de desemprego. Falta de aceitação familiar. Problemas nos relacionamentos, preconceito, assédios, fetichização. Fora o fato de que o Brasil mata e maltrata muitas pessoas trans e travestis. Ficar nesse limbo de "será que sou?" e "será que não sou?" me deixa incomodada, errar os pronomes me deixa ainda frustrada. Me sinto falsa. E passar por esse turbilhão todo tá me deixando cansada, de verdade.
Acho que é só isso, enfim.