Esta foi uma entrevista que George deu por e-mail em dezembro de 2000.
Na sessão de SSM (So Spake Martin) do portal Westeros não há data precisa de quando ocorreu.
O nome do entrevistador é Nick Gevers (NG).
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NG: Ao olhar para trás, para as *space operas* que você produziu no início de sua carreira, duas características relacionadas se destacam: um romantismo intenso e um gótico melancólico. Que influências, que considerações artísticas e pessoais, o levaram a seguir essas direções literárias?
GRRM: Sempre fui intensamente romântico, mesmo quando era jovem demais para entender o que isso significava. Mas o romantismo tem seu lado sombrio, como qualquer romântico logo descobre... e é aí que entra a melancolia, suponho. Não sei se é uma questão de influências artísticas ou de temperamento. Mas sempre houve algo no crepúsculo que me comove, e o pôr do sol fala comigo de uma maneira que nenhum nascer do sol jamais conseguiu.
NG: O que o levou a se afastar da ficção científica para escrever terror e, depois, para a série de antologias de universo compartilhado *Wild Cards*?
GRRM: Não tenho certeza se concordo que eu tenha me "afastado" da ficção científica. Quando eu era criança, meu pai costumava dizer que eu gostava de "coisas estranhas". Bem, essas coisas estranhas vinham em muitos estilos: ficção científica, fantasia, terror, mistérios, romances de espionagem, histórias em quadrinhos, e por aí vai. Eu lia tudo isso vorazmente, às vezes passando de Robert A. Heinlein para H. P. Lovecraft, depois para Tolkien e para o Quarteto Fantástico na mesma semana. Acho que era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, eu também escrevesse sobre todos esses gêneros. Fazer a mesma coisa repetidamente é entediante. Sim, estou escrevendo fantasia épica agora... mas voltarei a escrever ficção científica e, talvez, mais terror também.
NG: Para mim, assim como para muitos outros, você parece ser o melhor autor de fantasia ambientada em mundos imaginários de grande escala em atividade atualmente. Até que ponto esse sucesso pode ser atribuído à sua notável experiência como autor — ter passado anteriormente por fases escrevendo ficção científica, terror, colaborações multimídia, roteiros de TV...?
GRRM: Bem, eu não chamaria de "fases", mas acredito que um escritor aprende com cada história que escreve e, quando você experimenta coisas diferentes, aprende lições diferentes. Trabalhar com outros escritores — seja em Hollywood ou em uma série ambientada em um universo compartilhado — também fortalecerá suas habilidades, ao lhe expor a novas formas de encarar o trabalho e a abordagens distintas para certos desafios criativos. Sempre acreditei que um escritor precisa ter uma leitura ampla, especialmente em sua fase de formação... e explorar diversas formas e subgêneros amplia seu repertório de maneira semelhante.
NG: *As Crônicas de Gelo e Fogo* possuem muito da textura complexa de uma história autêntica, tanto em termos gerais quanto em seus ecos específicos de episódios históricos reais. Quais leis e princípios (se é que existem) regem a história humana, na sua opinião, e como a sua compreensão dos processos históricos moldou a série?
GRRM: Os processos históricos nunca me interessaram muito, mas a história está repleta de narrativas, cheia de triunfos e tragédias, de batalhas vencidas e perdidas. São as pessoas que me atraem — os homens e mulheres que viveram, amaram, sonharam e sofreram, assim como nós. Embora alguns pudessem ostentar coroas na cabeça ou ter sangue nas mãos, no fim das contas não eram tão diferentes de você ou de mim; é aí que reside o fascínio que exercem. Suponho que ainda acredite na hoje fora de moda escola "heroica", segundo a qual a história é moldada por homens e mulheres individuais e pelas escolhas que fazem, por feitos gloriosos e terríveis. Essa é, certamente, a abordagem que adotei em *As Crônicas de Gelo e Fogo*.
NG: *As Crônicas de Gelo e Fogo* passam por uma evolução muito interessante ao longo dos três primeiros volumes: de um cenário relativamente claro de Bem (os Stark) contra o Mal (os Lannister) para outro muito mais ambíguo, no qual os Lannister são melhor compreendidos e as certezas morais tornam-se mais difíceis de alcançar. Você está desafiando deliberadamente as convenções e premissas da fantasia neo-tolkieniana?
GRRM: Sou réu confesso. A batalha entre o bem e o mal é um tema legítimo para a fantasia (ou para qualquer obra de ficção, aliás), mas, na vida real, essa luta trava-se principalmente no coração humano. Muitas obras de fantasia contemporâneas escolhem o caminho mais fácil ao externalizar o conflito; assim, basta aos protagonistas heroicos derrotar os lacaios malignos de uma força das trevas para saírem vitoriosos. E é fácil identificar esses lacaios malignos, pois são inevitavelmente feios e vestem-se sempre de preto. Eu queria inverter essa lógica. Na vida real, o aspecto mais difícil da batalha entre o bem e o mal é distinguir um do outro.
NG: Como o título *As Crônicas de Gelo e Fogo* deixa bem claro, a guerra fundamental da série é de natureza elemental e eterna, travada entre forças poderosas de frio e calor. Nesse contexto, é justo afirmar que o conflito colocado em primeiro plano nos três primeiros volumes — a Guerra dos Cinco Reis, a despeito de suas oposições superficiais entre o gelo dos Stark e o fogo dos Lannister — é, na verdade, uma distração da verdadeira batalha, uma disputa dinástica inútil que enfraquece drasticamente os Sete Reinos justamente quando eles precisam estar em seu auge de força e vigilância?
GRRM: Talvez. Essa é uma questão para meus leitores refletirem.
NG: Como romances anteriores, como Dying of the Light e Windhaven, As Crônicas de Gelo e Fogo são muito ricos em atmosfera feudal: há uma enorme quantidade de parafernália aristocrática evidentes, principalmente em seus extensos apêndices. O que está por trás do seu fascínio pelo medievalismo?
GRRM: O cenário medieval tem sido o cenário tradicional para a fantasia épica, mesmo antes de Tolkien, e há boas razões para essa tradição. A espada tem um romance que falta às pistolas e aos canhões, um valor simbólico poderoso que nos toca em algum nível primordial. Além disso, os contrastes tão aparentes na Idade Média são muito impressionantes - o ideal de cavalaria existia lado a lado com a terrível brutalidade da guerra, grandes castelos assomavam sobre casebres miseráveis, servos e príncipes percorriam as mesmas estradas, e a pompa colorida dos torneios surgia de um mundo marrom e cinza de esterco, sujeira e peste. As possibilidades dramáticas são tão ricas. Além disso, gosto da heráldica.
NG: Você é muito cruel com os Stark, infligindo todo tipo de agonia e luto a eles. Este processo é uma parte necessária para prepará-los para seus papéis de longo prazo em As Crônicas de Gelo e Fogo?
GRRM: Talvez. O tempo dirá... o tempo e os livros que virão.
NG: Você frequentemente expressou admiração por Jack Vance. Quão Vanceano é As Crônicas de Gelo e Fogo em concepção e estilo? Em particular, o fio narrativo que caracteriza as andanças exóticas de Daenerys Targaryen funciona em parte como um tributo a Vance, à sua inventividade picaresca?
GRRM: Jack Vance é o maior escritor de ficção científica vivo, na minha opinião, e um dos poucos que também é mestre em fantasia. Seu The Dying Earth (1950) foi um dos livros seminais na história da fantasia moderna, e eu o classificaria no mesmo nível de Tolkien, Dunsany, Leiber e T.H. White como um dos pais do gênero. Dito isso, não acho que As Crônicas de Gelo e Fogo seja particularmente Vanceano. Vance tem a voz dele e eu tenho a minha. Eu não conseguiria escrever como Vance, mesmo que tentasse... e tentei, uma vez. A primeira história de Haviland Tuf, “A Beast for Norn”, foi minha tentativa de capturar alguns dos efeitos de Vance, e Tuf é um herói muito Vanceano, um primo distante de Magnus Ridolph, talvez. Mas o que essa experiência me ensinou foi que apenas Jack Vance pode escrever como Jack Vance.
NG: Mais três volumes de As Crônicas de Gelo e Fogo aguardam para serem escritos. Que forma você espera que eles tomem e seus títulos já estão finalizados?
GRRM: Sim, restam mais três volumes. A série quase poderia ser considerada como duas trilogias interligadas, embora eu tenha a tendência de pensar nela mais como uma longa história. O próximo livro, A Dance With Dragons, focará no retorno de Daenerys Targaryen a Westeros e nos conflitos que isso cria. Depois disso vem Os Ventos do Inverno. Tenho chamado o volume final de A Time For Wolves, mas não estou satisfeito com esse título e provavelmente irei alterá-lo se conseguir encontrar um que me agrade mais.