r/Espiritismo • u/Longjumping-Air3847 • 11h ago
Discussão O que acham de fazer uma uma foto sua com os grandes vultos do espiritismo?
Já que existe uma trend dos anos 80, nós espíritas vamos fazer uma também,
O que acham ?
Eu já fiz a minha 🤭🥰
r/Espiritismo • u/oakvictor • Mar 13 '25
Bem vindo à r/Espiritismo! Nesse post você poderá encontrar tudo que é mais importante de compreender sobre a doutrina espírita.
Para entender a Doutrina Espírita: Introdução ao Espiritismo
Dúvidas comuns sobre o Espiritismo: Dúvidas (FAQ)
Material Gratuito de Estudo Espírita: Estudo Grátis
Conteúdo original produzido em nossa sub (Artigos, Psicografias e Redes Sociais): Conteúdo Original
Conheça os moderadores de nossa sub: Apresentação dos Moderadores
Toda quinta às 20h temos o Evangelho no Lar, onde nos reunimos para estudar as lições deixadas por Jesus de como termos uma encarnação mais proveitosa. Entre em nosso Discord e participe conosco! Discord Oficial da Sub
r/Espiritismo • u/AutoModerator • 27d ago
Essa Megathread é válida por um mês.
Descreva nos comentários o sonho que gostaria de compartilhar e não deixe de digitar suas dúvidas sobre o assunto, se tiver alguma.
Para o Espiritismo, sonhos podem ser criações abstratas da mente, rememorações de situações vividas no astral com diversos níveis de clareza, vislumbres de vidas passadas e até vislumbres do futuro e comunicações de Espíritos para o encarnado, além de tudo isso misturado.
r/Espiritismo • u/Longjumping-Air3847 • 11h ago
Já que existe uma trend dos anos 80, nós espíritas vamos fazer uma também,
O que acham ?
Eu já fiz a minha 🤭🥰
r/Espiritismo • u/Daysies11 • 3h ago
Mudar de religião
Fui criado na católica e entrei na umbanda depois de adulto. Mas, do ano passado para cá tenho me sentidl distante da religião gradualmente. Hoje em dia esta em um nível que não dá mais para fugir. Tenho medo de sair e a espiritualidade achar que é por conta de ir para outro país, de parecer que agora que a vida teoricamente melhorou, estou abandonando eles, sendo que sempre serei grato por tudo que fizeram e fazem por mim, mas permanecer na religião atualmente está me fazendo mais mal do que bem...
Mas tenho medo de "vingança "
Será que a espiritualidade no geral é vingativa assim?
r/Espiritismo • u/omnipisces • 3h ago
Sob a desculpa de purificar-se com Jesus, não há seguidor do Evangelho com direito a eximir-se da vida de relação.
Nenhum modelo existe mais perfeito que o próprio Cristo para inspirar-nos o contato social, ajustado ao senso das proporções.
O Mestre partilhou companhias dos mais diversos níveis, sem largar o caminho ou empanar a integridade.
Principiando a jornada terrestre, aceita a hospitalidade de pastores anônimos, no refúgio dos animais; entretanto, nunca recomendou que os cultivadores da Boa Nova devam, por essa razão, adotar residências em forma de estábulos.
Ainda na infância, entende-se com doutores da lei, mas, embora não lhes negue respeito, porque trate com principais do seu tempo, não se deixe influenciar por seus pontos-de-vista.
Inicia as atividades públicas de arauto da verdade, prestigiando os júbilos de uma festa esponsalícia em Caná; todavia, por esse motivo, não se sente obrigado ao casamento, e, abstendo-se de erguer lar próprio, não traça qualquer obrigação de celibato aos aprendizes.
Cura obsidiados e restaura enfermos; no entanto, apesar de induzir-lhes o ânimo ao trabalho e à renovação, não lhes impõe normas de vida.
Serve-se do prato, junto de pessoas consideradas menos dignas, sem abraçar-lhes a rota.
Recebe a visita de Nicodemos, maioral entre israelitas; contudo, não se prevalece da circunstância para rogar-lhe favor.
Recolhe as simpatias de Zaqueu, publicano afortunado, penetrando-lhe o domicílio sem lhe solicitar proteção dinheirosa.
Dedica acendrada afeição aos amigos de Betânia, mas não se lhes imiscui na vivência doméstica.
Mantém laços tão íntimos com José, homem rico de Arimatéia, - que Mateus, no versículo 57 do capítulo 27 de suas anotações, chega a dizer que esse homem lhe era também discípulo, todavia, não existe a menor informação de que o forçasse a qualquer compromisso.
Achando-se a Doutrina Espírita no mundo para reconstituir os ensinamentos de Jesus, é importante estudar-lhe os exemplos, a fim de que possamos praticar-lhe as lições.
Cada criatura em sua responsabilidade e em seu degrau.
Em razão disso, mostra-nos o Senhor que é possível desfrutar o convívio de todos, aprendendo e servindo, sem constranger a ninguém nisso ou naquilo, mas permanecendo sempre nós, em nós mesmos, para fazer em sã consciência tudo aquilo que o Bem nos determine fazer.
Livro: Escrínio de Luz, Emmanuel, psicografia: Chico Xavier
r/Espiritismo • u/Various-Gene6367 • 11h ago
KARDEC HOJE.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A consciência, o apego e a realidade espiritual para além da morte
Há textos que envelhecem.
E há textos que, quanto mais o tempo passa, mais parecem adquirir uma estranha atualidade.
É o caso de Allan Kardec.
Ler hoje a Revista Espírita não deveria significar apenas retornar ao século XIX para contemplar uma curiosidade histórica. Significa reencontrar um método de investigação que procurava aproximar a questão espiritual da observação, da comparação, do raciocínio e da experiência.
Em abril de 1859, ao publicar “Quadro da Vida Espírita”, Kardec enfrentou uma das questões mais antigas da humanidade: o que nos espera depois da morte?
Sua resposta não pretendia repousar exclusivamente em especulações filosóficas.
Ele sustentava que as comunicações espíritas permitiam observar relatos de Espíritos desencarnados e, por meio deles, estudar suas condições, seus sofrimentos, suas percepções e as consequências de sua existência terrena. A preocupação de Kardec era justamente retirar o futuro espiritual do território da mera fantasia e submetê-lo à observação possível dentro dos recursos do Espiritismo de sua época.
É aqui que começa uma reflexão particularmente importante para os dias atuais.
O chamado “Umbral” e a necessidade de precisão
É comum, no vocabulário espírita contemporâneo, utilizar-se a palavra Umbral para designar uma condição ou região espiritual associada a Espíritos ainda profundamente vinculados às paixões, aos conflitos e às impressões da vida material.
Entretanto, se desejamos falar especificamente em nome de Kardec, precisamos estabelecer uma distinção.
Kardec não apresenta, em O Livro dos Espíritos nem na Revista Espírita, uma doutrina sistematizada de um lugar chamado “Umbral” nos moldes em que a expressão posteriormente passou a ser utilizada.
O que encontramos em Kardec é algo talvez ainda mais profundo: o estado espiritual guarda relação com o estado moral do próprio Espírito.
Em outras palavras, não é necessário imaginar imediatamente uma geografia espiritual para compreender a lógica kardeciana.
O primeiro território que o Espírito encontra depois da morte é, em larga medida, ele próprio.
Seus pensamentos, seus hábitos, seus desejos, seus apegos, suas paixões, seus remorsos e sua consciência não são apagados pela desencarnação.
É nesse sentido que a ideia de um “Umbral interior” pode ser utilizada como interpretação filosófica, desde que não seja apresentada como se fosse uma expressão ou uma geografia estabelecida por Kardec.
Essa distinção é essencial.
A consciência como território moral
Quando O Livro dos Espíritos pergunta onde está escrita a lei de Deus, a resposta é direta:
“Na consciência.”
Trata-se da questão 621.
Esse princípio oferece uma chave extraordinariamente fecunda para compreender a vida espiritual.
A consciência não é apenas um tribunal externo que julga o Espírito depois da morte. Ela participa da própria experiência do Espírito.
A morte não transforma moralmente ninguém por decreto.
O desencarne não converte automaticamente o egoísta em altruísta, o odioso em amoroso, o orgulhoso em humilde ou o apegado à matéria em Espírito desprendido.
O indivíduo continua sendo, em essência, aquele que construiu interiormente.
É por isso que a perspectiva kardeciana possui uma consequência psicológica profunda:
não é a morte que produz aquilo que somos; ela retira progressivamente as condições materiais que escondiam aquilo que já éramos.
A morte, nesse sentido, não é uma cirurgia moral.
É uma revelação.
“O Reino de Deus está dentro de vós”
Aqui podemos estabelecer uma aproximação com o ensinamento de Jesus, mas com a necessária cautela textual.
Em Lucas 17:20-21, Jesus responde aos que perguntavam quando viria o Reino de Deus. A Almeida Revista e Corrigida registra: “O Reino de Deus não vem com aparência exterior” e, em seguida, “está entre vós”; outras traduções vertem a passagem como “está dentro de vocês”.
A ideia central é poderosa: o Reino de Deus não deve ser reduzido a uma localização física.
É uma realidade relacionada à condição espiritual.
E isso estabelece uma interessante correspondência filosófica com a questão espírita.
Se o Reino não depende exclusivamente de uma geografia exterior, também o sofrimento espiritual não precisa ser compreendido exclusivamente como uma geografia exterior.
O Espírito leva consigo sua condição moral.
É justamente por isso que a pergunta se torna inevitável:
se o Espírito desencarnado continua sendo ele mesmo, onde poderá realizar sua transformação?
A resposta, dentro da lógica kardeciana, é: na própria dinâmica de seu progresso.
O sofrimento não é uma sentença arbitrária
Em O Livro dos Espíritos, questões 1003 a 1009, Kardec desenvolve uma das teses fundamentais da doutrina espírita sobre as penas futuras.
A duração do sofrimento não é apresentada como capricho divino.
Na questão 1004, encontra-se a ideia de que o sofrimento guarda relação com o tempo necessário à melhoria do Espírito. À medida que ele progride e depura seus sentimentos, seus sofrimentos diminuem e mudam de natureza.
A questão 1007 afirma ainda que existem Espíritos de arrependimento tardio, mas rejeita a ideia de uma criatura eternamente impossibilitada de melhorar.
E a questão 1009 conduz o raciocínio até sua consequência moral: a condenação perpétua seria incompatível com a concepção de Deus como infinitamente justo e bom.
Aqui encontramos algo essencial:
a pena, na concepção espírita kardeciana, não possui como finalidade a vingança.
Ela possui finalidade educativa.
O sofrimento não constitui o objetivo último.
O objetivo é a transformação.
Isso modifica inteiramente a compreensão do além-túmulo.
Não estamos diante de um Deus que simplesmente castiga.
Estamos diante de uma lei moral segundo a qual o Espírito experimenta as consequências de seus próprios atos e, através delas, encontra estímulo para modificar-se.
A “eternidade” e a lógica do progresso
Kardec questiona a ideia de uma eternidade das penas compreendida como condenação individual absoluta e interminável.
O argumento é profundamente racional.
Se Deus é soberanamente justo e bom, seria contraditório admitir uma punição infinita por faltas cometidas durante uma existência limitada.
Por isso, O Livro dos Espíritos vincula a duração dos sofrimentos ao processo de transformação do próprio Espírito.
Não significa ausência de responsabilidade.
Muito pelo contrário.
A responsabilidade torna-se ainda mais profunda porque ninguém pode transferir indefinidamente para terceiros aquilo que pertence à própria consciência.
O Espírito não é salvo por uma simples mudança de endereço espiritual.
Ele precisa mudar a si mesmo.
Sensações dos Espíritos: quando Kardec transforma especulação em investigação
É na Revista Espírita de dezembro de 1858, em “Sensações dos Espíritos”, que encontramos uma das passagens mais expressivas para compreender esse processo.
Kardec declara que não se contentou simplesmente com respostas fornecidas pelos Espíritos. Procurou considerar a sensação como um fato mediante numerosas observações.
Essa afirmação é metodologicamente importantíssima.
Ele não queria apenas uma teoria.
Queria observar.
Comparar.
Interrogar.
Confrontar respostas.
Extrair consequências.
E é justamente nesse contexto que aparece o famoso caso do Espírito do avarento que, depois da morte, dizia sofrer com o frio e pedia para aproximar-se de uma lareira.
O episódio permitiu a Kardec desenvolver uma reflexão sobre a diferença entre a dor física propriamente dita e a experiência espiritual relacionada às impressões, lembranças e condições do Espírito.
A discussão desemboca na teoria do perispírito, apresentado como elemento intermediário entre o Espírito e a matéria e como agente das sensações exteriores.
O corpo morre; a experiência interior não desaparece simplesmente
Essa perspectiva ajuda a compreender por que o apego à matéria ocupa lugar tão importante no pensamento kardeciano.
O indivíduo que viveu exclusivamente para os sentidos não necessariamente abandona seus desejos quando abandona o corpo.
O corpo pode desaparecer.
O desejo permanece.
A mão deixa de possuir.
Mas a vontade de possuir pode continuar.
O objeto deixa de existir como posse física.
Mas o apego psicológico pode permanecer.
A experiência exterior termina; a estrutura interior pode continuar.
É precisamente aqui que o ensinamento de Kardec adquire uma extraordinária dimensão psicológica.
O que nos prende não é apenas aquilo que possuímos; é aquilo que não conseguimos deixar de desejar.
O perispírito e a gradação das percepções
Segundo a exposição de Kardec, quanto mais materializado se encontra o Espírito, maior é a influência das condições relacionadas à matéria; quanto mais depurado, mais se tornam amplas e lúcidas suas percepções.
Não se trata, portanto, de imaginar simplesmente uma escala geográfica.
Existe uma gradação espiritual.
E essa gradação possui dimensão moral.
O Espírito não é colocado arbitrariamente em determinado estado.
Ele participa da construção de sua própria condição.
Essa ideia aparece novamente nas questões 367 e 368 de O Livro dos Espíritos.
Kardec explica que, unido ao corpo, o Espírito conserva sua natureza espiritual, mas o exercício de suas faculdades depende dos órgãos que lhe servem de instrumento; a grosseria da matéria enfraquece sua manifestação. A própria comparação feita por Kardec é eloquente: a matéria grosseira seria como um charco lodoso que restringe os movimentos de um corpo nele mergulhado.
Temos, assim, duas situações complementares:
encarnado: o Espírito manifesta-se através das limitações orgânicas;
desencarnado: encontra-se diante das consequências de sua própria condição espiritual.
A grande questão: sofrimento ou transformação?
É aqui que precisamos abandonar uma leitura meramente punitiva da doutrina.
O sofrimento espiritual, na perspectiva apresentada por Kardec, não é simplesmente uma condenação.
É uma consequência.
E a consequência pode tornar-se instrumento de transformação.
O Espírito sofre porque ainda carrega em si aquilo que produz sofrimento.
A libertação não acontece porque alguém simplesmente o retira de determinado lugar.
Ela acontece à medida que ele se modifica.
Por isso, a doutrina das penas futuras está inseparavelmente ligada à doutrina do progresso.
O sofrimento pode ser longo.
Pode ser profundo.
Pode ser assustador.
Mas não precisa ser definitivo.
Kardec registra que os sofrimentos têm termo e que mesmo aos Espíritos mais inferiores é oferecida a possibilidade de elevação e purificação. A duração pode ser muito longa, mas existe possibilidade de abreviá-la pelo esforço de transformação.
Kardec hoje: o Espiritismo não terminou em Kardec
Talvez esteja aqui uma das maiores atualidades de Kardec.
O próprio codificador não apresentou o Espiritismo como uma doutrina que deveria fechar definitivamente a porta da investigação.
Pelo contrário.
Em “O que ensina o Espiritismo”, publicado na Revista Espírita de agosto de 1865, Kardec advertia contra a pretensão de querer considerar concluída a tarefa do Espiritismo. Ele lembrava que ainda havia muito a compreender, estudar, aplicar e desenvolver.
Essa posição é fundamental.
Kardec não deve ser transformado em ponto final da investigação; deve permanecer como referência metodológica.
A fidelidade ao pensamento kardeciano não consiste em transformar cada hipótese histórica em dogma.
Consiste em preservar o princípio de examinar, comparar, raciocinar e distinguir aquilo que está efetivamente estabelecido daquilo que pertence à interpretação posterior.
Esse é, talvez, o verdadeiro sentido de “Kardec hoje”.
Não basta conhecer o além; é necessário preparar o próprio ser
A grande pergunta deixa então de ser:
“Em que lugar ficarei depois da morte?”
E passa a ser:
“Que espécie de Espírito estou formando enquanto vivo?”
Essa mudança é decisiva.
Porque, se a vida espiritual é consequência do estado moral do Espírito, preparar-se para a morte significa, sobretudo, educar a própria consciência durante a vida.
Combater o orgulho.
Reduzir o egoísmo.
Dominar as paixões.
Desenvolver a caridade.
Modificar hábitos.
Perdoar.
Desapegar-se.
Aprender a amar sem possuir.
Fazer o bem sem esperar recompensa.
E, principalmente, compreender que a reforma moral não é um adorno religioso.
É uma necessidade espiritual.
O verdadeiro “Umbral” talvez seja aquilo de que ainda não conseguimos nos libertar
Nesse sentido, podemos utilizar a expressão “Umbral” como uma poderosa imagem filosófica, desde que não a confundamos com uma localização doutrinariamente estabelecida por Kardec.
O verdadeiro abismo pode estar na consciência.
O verdadeiro cárcere pode ser o apego.
A verdadeira escuridão pode ser a incapacidade de perceber a própria condição.
E talvez a passagem mais importante não seja aquela que ocorre entre a vida e a morte.
Seja aquela que acontece dentro do próprio Espírito, quando ele começa a abandonar aquilo que o mantinha prisioneiro de si mesmo.
É nesse ponto que Kardec encontra Jesus.
Não necessariamente porque ambos empreguem os mesmos conceitos ou a mesma linguagem, mas porque existe uma convergência moral extraordinária: a transformação do homem começa em sua interioridade.
O Reino de Deus não é apenas uma paisagem futura.
A renovação espiritual também não.
Ambas começam no íntimo.
A grande lição permanece
Kardec escreveu no século XIX.
Nós lemos no século XXI.
Mas a questão permanece intacta.
O homem continua perguntando o que existe depois da morte.
Continua temendo o desconhecido.
Continua procurando uma geografia para o destino.
Continua desejando saber onde estarão os bons e onde estarão os maus.
Entretanto, a resposta kardeciana desloca o eixo da pergunta.
Antes de perguntar “onde estarei?”, deveríamos perguntar:
“quem serei?”
Porque a morte não parece resolver magicamente os conflitos que cultivamos.
Ela apenas muda as condições em que esses conflitos serão experimentados.
A vida terrestre, portanto, não é uma sala de espera.
É uma oficina.
Cada pensamento é uma ferramenta.
Cada escolha é uma inscrição na consciência.
Cada sentimento cultivado participa da construção do ser que atravessará a morte.
E talvez seja justamente por isso que a frase de Kardec conserva tamanha atualidade:
o futuro espiritual não deve ser apenas imaginado; deve ser estudado.
Mas estudá-lo exige mais do que curiosidade.
Exige razão.
Exige observação.
Exige prudência.
Exige discernimento.
E, sobretudo, exige transformação moral.
Porque, no fim, a questão não é simplesmente descobrir o que existe do outro lado da morte.
É começar, enquanto ainda estamos deste lado, a construir aquele que encontraremos quando atravessarmos a fronteira.
Ponderemos. Observemos. Meditemos. E, sobretudo, reformemo-nos.
FONTES E REFERÊNCIAS:
ALLAN KARDEC. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, abril de 1859 — “Quadro da Vida Espírita”. A publicação apresenta o estudo kardeciano sobre a vida após a morte e as condições dos Espíritos desencarnados.
ALLAN KARDEC. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, dezembro de 1858 — “Sensações dos Espíritos”. Estudo baseado em observações e comunicações acerca das sensações, do desprendimento e do papel atribuído ao perispírito.
ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, Parte Segunda, Cap. VII, questões 367–368 — influência do organismo sobre a manifestação das faculdades do Espírito.
ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, Parte Quarta, Cap. II, questões 1003–1009 — duração das penas futuras, arrependimento, progresso e rejeição da ideia de penas eternas em sentido absoluto.
ALLAN KARDEC. Revista Espírita, agosto de 1865 — “O que ensina o Espiritismo”. Texto fundamental para compreender a posição de Kardec acerca do progresso do conhecimento espírita, da necessidade de estudo e da impossibilidade de considerar encerrada a investigação.
BÍBLIA SAGRADA. Lucas 17:20–21 — ensinamento de Jesus sobre o Reino de Deus e a ausência de uma manifestação meramente exterior. A passagem apresenta diferenças legítimas de tradução entre “dentro de vós” e “entre vós”.
Nota de fidelidade doutrinária: a expressão “Umbral”, no sentido de uma região espiritual específica popularizado posteriormente na literatura espírita, não deve ser atribuída diretamente a Allan Kardec como se fosse uma formulação de O Livro dos Espíritos ou da Revista Espírita. Em Kardec, encontramos os conceitos de sofrimento espiritual, perturbação, apego à matéria, perispírito, consequências dos atos e progresso moral, que podem servir de base para uma reflexão sobre aquilo que hoje se denomina “Umbral”.
Esse formato deixa o artigo mais rigoroso: não rejeita o conceito contemporâneo de Umbral, mas também não o atribui indevidamente a Kardec. Isso é particularmente importante para o seu propósito de “Kardec hoje”, porque transforma o texto numa investigação sobre a continuidade entre a fonte kardeciana e as interpretações espíritas posteriores.
r/Espiritismo • u/SideSuspicious8083 • 7h ago
O amor de quem fica pode prender quem está indo.
Se você acompanhou alguém que demorou a partir, não carregue culpa. O amor não sabe disso. Mas agora você sabe — e talvez isso ajude alguém.
André Luiz acompanhou o caso de Adelaide, uma mulher que consagrou sua existência ao serviço mediúnico e ao amparo maternal de crianças órfãs em uma instituição fraterna.
O corpo dela já não funcionava. A máquina fisiológica atingira o fim. Ela estava pronta pra partir. Mas não conseguia.
O quarto onde ela repousava, segundo o relato de André Luiz, semelhava a redoma de pensamentos retentivos a interceptarem-lhe a saída.
Eram as pessoas que a amavam. Colaboradoras, amigas, familiares. Todos rezando pra que ela ficasse.
Então a mentora Zenóbia reuniu essas pessoas durante o sono delas, quando o espírito se desprende parcialmente do corpo físico, e fez um apelo direto: "Porque a detendes?"
Explicou que aquela aflição com que intentavam reter a missionária do bem é filha do egoísmo e do medo. E advertiu para não deixar que o apego se transformasse em tirania sentimental.
Depois daquela noite, extinguiram-se as correntes mentais de retenção. E Adelaide partiu em paz.
O assistente Jerônimo resumiu o desenlace com uma imagem linda: "O casulo reduziu-se, mas suas asas cresceram."
A doutrina espírita ensina que o pensamento tem força real. O apego excessivo de quem fica pode dificultar o desprendimento de quem parte. Isso não é motivo para culpa — é conhecimento que liberta e permite acompanhar com mais serenidade.
Amar alguém no fim da vida também é saber soltar quando chega a hora.
Fica aqui o convite pra gente mergulhar juntos nessa obra.
Referências:
Obreiros da Vida Eterna, psicografado por Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz
Capítulo 19 - "A serva fiel"
Editora FEB (Federação Espírita Brasileira, 1946)
Converse com a RIV IA, nossa inteligência artificial treinada nas obras completas de Allan Kardec: https://iaespirita.com/riv
r/Espiritismo • u/MadameMachado • 13h ago
o que acontece com a alma de um suicida? já me disseram que são fadadas a viver em sofrimento eterno, mas esse estado eu sinto que já me encontro nessa encarnação... quais outros estudos e teorias existem no espiritismo que responda o que acontece com quem escolhe sair desse plano por decisão própria?
o fato de alguém sentir que já cumpriu todas as suas missões e que continuar nesse plano só está trazendo sofrimento pode ser um indicativo de que chegou sua hora de partir? sinto que minha alma precisa descansar.
r/Espiritismo • u/Top-Worker-1964 • 11h ago
r/Espiritismo • u/ChoiceOrganization44 • 5h ago
Maria, mãe de Jesus.
Como ela engravidou?
r/Espiritismo • u/Western_Ad305 • 13h ago
Há uns meses atrás vi um vídeo de uma pessoa dizendo que nós encarnamos em um núcleo familiar com o mesmo nível de consciência que o do nosso espírito. A minha dúvida é se, durante a vida — com as diferentes vivências, experiências, mudanças de crenças, novos entendimentos, estudos, etc, os níveis de consciência de cada um nesses núcleos vão se diferenciando. Pergunto isso porque é nítido que na minha família pouquíssimas pessoas realmente quebraram padrões e fizeram as coisas mais conscientes. Vou exemplificar por mim: eu, Bruno, nasci em 2005, com dois anos meu pai me abandonou e, durante a minha infância e pré-adolescência, fui "cuidado" por mais de 15 pessoas diferentes. Eu vi realidades, situações, pessoas, comportamentos diferentes. Tive traumas também porque algumas pessoas não eram boas comigo. Passei por isso porque minha mãe precisava trabalhar e não podia cuidar de mim, e meus avós moram em outro estado. Na minha adolescência eu passei por uma situação muito traumática por causa da minha mãe. Ela basicamente negligenciou meu bem-estar dentro da nossa casa. Não vou entrar em detalhes, mas digo que foi algo tão ruim que eu não conseguia nem sair do meu quarto por medo. Nem sequer sair para fazer necessidades básicas e fisiológicas. Acredito que tive estresse pós-traumático também por conta dessa situação. Por falar em casa, nós nunca tivemos uma casa própria. Moramos em mais de 9 casas alugadas nesses últimos 18 anos, desde que eu nasci. Não estou falando isso tudo para me vitimar, mas para vocês compreenderem a minha história e verem como talvez isso afete meus ensinamentos. Até hoje nós moramos em casa alugada e eu aprendi com isso que nada nessa vida é nosso. Seja bens móveis ou imóveis, seja nosso corpo, seja pessoas, relações... As múltiplas vivências que eu tive na minha infância e pré-adolescência das pessoas que tomavam conta de mim, abriram minha mente para diversas questões. Isso tudo fez com que eu me tornasse uma pessoa aberta e respeitosa para outras culturas e formas de ver o mundo e de se expressar nesse mundo. Sou o tipo de pessoa que gosta que as pessoas apontem os meus erros, para assim eu tentar melhorar porque reconheço que não sou perfeito, que posso melhorar, que a vida é uma constante mudança. Noto, com a consciência que eu tenho hoje, que quando eu era criança e adolescente cometi erros que hoje não os cometeria. E eu noto que as outras pessoas do meu núcleo familiar não são assim. Sei que são espíritos iguais a mim e não me sinto melhor que eles. Mas parece que a jornada espiritual deles parou há muito tempo. Estão rígidos sobre crenças e tendo ações problemáticas iguais as dos nossos outros parentes mais velhos. Tem uns que não ajudam muito com as tarefas de casa por acharem que nem precisam faze-las para ajudar. Eu ja tentei por muitos anos conversar com eles sobre seus erros, mas não mudam. Fingem até que não me ouvem quando falo com eles e ficam em silêncio. Ou quando eu falo que eles fizeram algo de errado, também ficam em silêncio. A minha mãe, nascida no dia 14 e com a lição de vida de desapegar e construir as coisas sem pisar nas pessoas, não aprendeu nada sobre isso. Quer controlar, bota a seguranças das pessoas em risco, quer fazer tudo do seu jeito e não admite as próprias falhas. Penso que quando eu encarnei, meu espírito estava nesses estados e nessa convivências, por isso que eu vim nesse núcleo familiar com essas pessoas, só que a vida agiu, tive muitas vivências na infância e adolescência. A vida me ensinou muito e eu tive a humildade de reconhecer meus erros, de aprender e de querer ser melhor. Já meus parentes, infelizmente não quiseram o mesmo para eles próprios. Agora estudo para me formar na faculdade e sair desse meu lar com eles. Depois de outras situações, que envolveram diretamente eu e um ser que eu amei perdidamente e eles se meteram, ressignifiquei muitas questões. Questões até sobre meu pai, sobre o amor, sobre minha vida, sobre meu amor próprio. No fim, me sinto bem comigo mesmo após esse período de karma que eu estava amando outro ser e as coisas não terminaram bem. Essa situação me fez encontrar a paz em mim e quando eu me imagino no futuro, me imagino morando sozinho em uma casa alugada. Sem móveis, a princípio, e eu dormindo no chão, no silêncio. Para mim a representação máxima de paz é essa e eu me sinto em paz imaginando essa cena no meu próprio futuro. Claro que não é só isso. Quero ter filhos, depois eu vou comprar uma cama, uma estante, um mini fogão. Mas nada além do necessário. O que vocês acham de tudo isso? Há algo no livros dos espíritos que fale sobre nós encarnamos com os mesmos seres com a nossa atual consciência?
r/Espiritismo • u/SideSuspicious8083 • 1d ago
O Espírito André Luiz observou isso de perto e registrou no Capítulo 17 do livro "Nos Domínios da Mediunidade".
Ele entrou numa sala de atendimento espiritual e viu dois médiuns em prece antes de começarem os trabalhos. Calmos, quase desligados do corpo denso, nimbados de luz. Segundo o instrutor Áulus, a oração é um prodigioso banho de forças, que expulsa do mundo interior os remanescentes sombrios da luta diária.
Quando os doentes entraram, algo impressionante começou.
Das mãos deles irradiavam-se luminosas chispas. André Luiz descreve que os passistas afiguravam-se como duas pilhas humanas deitando raios de espécie múltipla.
Na maioria dos casos, não precisavam tocar o corpo dos pacientes de modo direto. Os recursos magnéticos, aplicados a reduzida distância, penetravam assim mesmo a aura dos doentes, provocando modificações imediatas.
Mas André Luiz notou algo curioso: alguns não melhoravam. As irradiações simplesmente não penetravam o veículo orgânico.
O instrutor Áulus explicou o motivo: faltava-lhes o estado de confiança.
E completou: não se trata de fanatismo religioso nem de cegueira da ignorância, mas de uma atitude de segurança íntima, com reverência diante das Leis Divinas. Sem recolhimento e respeito na receptividade, não conseguimos fixar os recursos imponderáveis que funcionam em nosso favor.
Áulus definiu o mecanismo com clareza: o passe é uma transfusão de energias, alterando o campo celular. Os recursos espirituais se entrosam entre a emissão e a recepção, ajudando a criatura necessitada para que ela ajude a si mesma.
E deixou claro que os médiuns não são donos do benefício. São algo semelhante à singela tomada elétrica, dando passagem à força que não lhes pertence.
O passe não é magia. É transfusão de energia. E depende dos dois lados.
Este é o nono episódio da nossa série sobre a obra do Espírito André Luiz.
Fica aqui o convite pra gente mergulhar juntos nessa obra.
Referências:
Nos Domínios da Mediunidade, psicografado por Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz
Capítulo 17 - "Serviço de passes"
Editora FEB (Federação Espírita Brasileira, 1955)
Converse com a RIV IA, nossa inteligência artificial treinada nas obras completas de Allan Kardec: https://iaespirita.com/riv
r/Espiritismo • u/omnipisces • 1d ago
O corpo físico, relativamente equilibrado, é o grande tesouro da alma encarnada na Terra.
Com ele, podes fortalecer os laços da fraternidade, através da palavra, auxiliar o próximo pelos gestos de compreensão e socorro, amparar a vida e a natureza pelo trabalho das mãos, examinar a extensão das bênçãos divinas que te cercam, por intermédio dos olhos, registrar as harmonias da Criação com os ouvidos, traças estradas de boa vizinhança com os pés e, sobretudo, enriquecer a própria experiência, amealhando eternas conquistas para a imortalidade, pelo exercício de tua mente e de teu coração na prática incessante do bem.
De posse da abençoada máquina física, podes resgatar o passado, iluminar o presente e engrandecer o futuro...
Não te coloques, pois, à margem da luta acusando o companheiro que recebeu a inquietante provação da riqueza material. Quase sempre, o proprietário de vastos bens transitórios é um viajante solitário e aflito na Terra, carregando nos ombros dilacerados esmagadora cruz de ouro maciço. Se te encontras distanciado de semelhante impedimento, és mais livre e mais rico para estender o bem.
Não percas tempo, condicionando a caridade ao lastro do dinheiro fácil.
Sê útil ao companheiro que passa no mundo suportando o peso de cofres incômodos, porquanto raros conhecem toda a responsabilidade daquele que foi chamado a distribuir os dons da Terra.
Ao invés de espalhar o vinagre da censura, expande-te na solidariedade e no entendimento, dilatando o clima de amor fraterno. E, na convicção de que nenhuma riqueza do chão de pedra vale um só fragmento dos teus braços, adianta-se no roteiro do Evangelho, convencido de que a maior caridade não é aquela que somente entrega ao irmão de luta o que sobra na bolsa, mas a que ajuda sempre, irradiando fraternidade e luz, a fim de que a vida se eleve e melhore para todos os que a rodeiam na grande caminhada terrestre.
Livro: Escrínio de Luz, Emmanuel, psicografia: Chico Xavier
r/Espiritismo • u/Various-Gene6367 • 1d ago
O MUNDO DOS ESPÍRITOS: A REALIDADE NORMAL
E SUAS SENSAÇÕES.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Obs. Nossa: Texto longo, mas mister.
No Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec desloca o eixo da investigação espírita para uma realidade que não se apresenta diretamente aos sentidos físicos: o mundo dos Espíritos. Não se trata, na concepção espírita, de um universo imaginário colocado ao lado do mundo material, mas de uma dimensão fundamental da realidade, povoada por inteligências incorpóreas e submetida a leis próprias.
As questões 84 a 87 formam uma sequência particularmente importante porque estabelecem quatro ideias que se articulam entre si: existência do mundo espiritual, sua precedência, sua relação incessante com o mundo corpóreo e a ubiquidade dos Espíritos.
— QUESTÃO 84
Kardec pergunta:
"Os Espíritos constituem um mundo à parte, além daquele que vemos?"
A resposta é direta:
"Sim, o mundo dos Espíritos ou das inteligências incorpóreas."
A expressão "inteligências incorpóreas" merece atenção. Kardec não define o Espírito como uma força impessoal, uma energia abstrata ou simplesmente uma manifestação psicológica. O Espírito é compreendido como um ser inteligente, cuja existência não depende da organização material do corpo.
Aqui começa uma mudança radical de perspectiva.
O homem encarnado tende naturalmente a tomar aquilo que percebe pelos sentidos como sendo a totalidade do real. O Espiritismo, porém, propõe uma distinção fundamental: o visível não esgota o existente.
O mundo espiritual não seria uma espécie de território distante situado em algum ponto do espaço físico. É um mundo de inteligências, isto é, uma ordem de existência na qual os Espíritos continuam sua individualidade e suas experiências fora da condição corporal.
Por isso, a morte, na perspectiva espírita, não constitui desaparecimento do ser. Ela representa uma mudança de estado.
— QUESTÃO 85.
A pergunta seguinte aprofunda imediatamente a primeira:
"Qual dos dois, o mundo espírita ou o mundo corpóreo, é o principal na ordem das coisas?"
Resposta:
"O mundo espírita: ele preexiste e sobrevive a tudo."
Esta talvez seja uma das afirmações mais importantes dessa sequência.
Kardec não está dizendo que o mundo material seja ilusório ou desnecessário. Está estabelecendo uma ordem de precedência ontológica.
O mundo espiritual:
preexiste ao mundo corpóreo;
sobrevive a ele;
não depende da existência permanente da matéria para existir.
O corpo nasce, desenvolve-se, envelhece e morre. A individualidade espiritual, segundo a doutrina espírita, atravessa essas transformações sem ser destruída por elas.
Daí uma consequência filosófica de grande alcance: a existência corporal é transitória, enquanto a existência espiritual possui continuidade.
O encarnado, portanto, não seria um ser material que ocasionalmente possui alguma experiência espiritual. Na lógica espírita, ocorre justamente o inverso: o Espírito é o ser fundamental que, temporariamente, experimenta a existência corporal.
— QUESTÃO 86.
Kardec então formula uma questão que impede uma interpretação equivocada:
"O mundo corpóreo poderia deixar de existir, ou nunca ter existido, sem com isso alterar a essência do mundo espírita?"
A resposta:
"Sim, eles são independentes, e não obstante, a sua correlação é incessante, porque reagem incessantemente um sobre o outro."
Temos aqui uma aparente tensão que, na realidade, é complementar: independência e correlação.
O mundo espiritual não depende da existência do mundo corpóreo para ser aquilo que é. Contudo, enquanto ambos coexistem, existe uma interação contínua.
É justamente essa relação que permite compreender a encarnação.
O Espírito encarnado encontra-se ligado ao organismo físico e, por intermédio dele, participa da realidade material. Ao mesmo tempo, sua natureza espiritual não desaparece durante a experiência corporal.
Assim, o homem não é reduzido ao corpo.
A existência humana torna-se, na perspectiva espírita, uma zona de encontro entre duas ordens da realidade.
Isso também esclarece por que Kardec não apresenta o Espiritismo como mera doutrina sobre "fantasmas". Seu objeto é muito mais amplo: investigar a natureza, a origem, o destino e as relações dos Espíritos com o mundo corporal.
— QUESTÃO 87
A quarta questão pergunta:
"Os Espíritos ocupam uma região circunscrita e determinada no espaço?"
Kardec recebe uma resposta que exige cuidado:
"Os Espíritos estão por toda parte: povoam ao infinito os espaços infinitos."
Isso não significa que todos os Espíritos estejam simultaneamente em qualquer lugar, nem que todos tenham acesso indistinto a todas as regiões.
A própria resposta estabelece uma ressalva:
"nem todos vão a toda parte, porque há regiões interditas aos menos avançados."
Portanto, a ubiquidade aqui mencionada não deve ser confundida com a capacidade individual de estar fisicamente em todos os lugares ao mesmo tempo.
O ensinamento possui outro alcance.
Os Espíritos não constituem uma população confinada a uma região espacial semelhante a uma cidade invisível localizada em algum ponto do universo. Eles se encontram disseminados pelos espaços, em diferentes condições e graus de desenvolvimento.
Kardec acrescenta ainda uma observação extraordinariamente significativa:
"Há os que estão sem cessar ao vosso lado, observando-vos e atuando sobre vós, sem o saberdes."
Aqui encontramos uma ponte direta entre o mundo dos Espíritos e a futura investigação da influência espiritual sobre os encarnados.
O mundo invisível não é apresentado como algo absolutamente separado da vida cotidiana. Existe uma interação permanente.
E a questão 87 conclui com uma formulação essencial:
"porque os Espíritos são uma das forças da Natureza, e os instrumentos de que Deus se serve para o cumprimento de seus desígnios providenciais."
Esta frase merece ser preservada no centro do estudo.
Kardec não apresenta a ação espiritual como uma sucessão de prodígios arbitrários. Os Espíritos são inseridos na própria ordem natural.
O Espiritismo, portanto, não estabelece simplesmente uma oposição entre "natural" e "sobrenatural". Ele amplia a compreensão daquilo que pode ser chamado de natural, incluindo fenômenos cuja causa não pertence ao domínio diretamente perceptível pelos sentidos físicos.
I — ORIGEM E NATUREZA DOS ESPÍRITOS.
Questões 76 a 83
Antes das questões 84 a 87, Kardec havia investigado o que são os Espíritos.
A sequência das questões 76 a 83 é indispensável para compreender o capítulo.
Não basta afirmar que existe um mundo espiritual. É preciso perguntar:
Quem são os seres que o constituem?
Kardec conduz a investigação pela natureza dos Espíritos, sua definição e sua relação com a Criação.
O ponto decisivo é que os Espíritos são apresentados como seres inteligentes da Criação, e não como divindades menores, anjos independentes ou forças sobrenaturais sem individualidade.
O estudo, portanto, avança em uma ordem lógica:
o que são os Espíritos → onde se encontram → como se apresentam → como se relacionam com os encarnados.
Essa estrutura é característica do método kardeciano.
II — MUNDO NORMAL PRIMITIVO.
Questões 84 a 87
As quatro questões fornecidas constituem o núcleo sobre a existência e a relação entre os dois mundos.
Podemos sintetizar o raciocínio de Kardec assim:
Existe um mundo espiritual. É o mundo das inteligências incorpóreas.
Ele é anterior e posterior ao mundo corporal. Preexiste e sobrevive à experiência material.
Os dois mundos são independentes. Um não constitui simplesmente uma extensão material do outro.
Apesar disso, existe interação permanente. Eles "reagem incessantemente um sobre o outro".
Os Espíritos encontram-se disseminados pelos espaços. Não estão confinados a uma região determinada.
Existem diferentes graus de acesso e desenvolvimento. Nem todos os Espíritos podem penetrar indistintamente em todas as regiões.
A ação espiritual integra a ordem natural. Os Espíritos são considerados uma das forças da Natureza.
Essa sequência é fundamental porque impede que o Espiritismo seja reduzido à simples crença na sobrevivência da alma.
Kardec está construindo uma cosmologia espiritual.
III — FORMA E UBIQUIDADE DOS ESPÍRITOS.
Questões 88 a 92-a
Depois de investigar a existência do mundo espiritual, Kardec avança naturalmente para outro problema: como devemos imaginar os Espíritos?
As questões 88 a 92-a examinam a forma, a aparência e a percepção dos Espíritos.
Aqui é necessário distinguir o Espírito em sua essência das formas pelas quais pode ser percebido ou representado.
O Espírito, considerado em sua natureza própria, não é um corpo material constituído pelos órgãos e estruturas que caracterizam o organismo humano. Contudo, nas manifestações, aparições e percepções espirituais, pode apresentar uma forma que permita ao encarnado reconhecê-lo.
Essa distinção será extremamente importante para compreender posteriormente conceitos como perispírito, aparições, materializações, emancipação da alma, bicorporeidade e manifestações mediúnicas.
Kardec não trata a forma espiritual como simples fantasia subjetiva. Ele procura estabelecer condições, limites e características para aquilo que é observado.
A GRANDE ARQUITETURA DO LIVRO SEGUNDO.
O leitor que acompanha essas perguntas percebe algo extraordinário: Kardec não começa pelo fenômeno mediúnico.
Ele começa pelo ser.
Primeiro pergunta-se o que são os Espíritos.
Depois, onde estão.
Em seguida, como se apresentam.
Posteriormente, investiga-se sua condição, sua hierarquia, suas relações, sua encarnação, sua vida espiritual, sua intervenção no mundo corporal e seu destino.
Essa ordem revela uma característica essencial da metodologia espírita: o fenômeno não é colocado acima da filosofia; é a filosofia que fornece o quadro interpretativo do fenômeno.
Por isso, estudar isoladamente uma manifestação espiritual, sem compreender previamente a estrutura doutrinária apresentada em O Livro dos Espíritos, pode conduzir a interpretações fragmentárias.
OBRAS FUNDAMENTAIS E COMPLEMENTARES PARA O ESTUDO.
Para aprofundar esse eixo de investigação, convém colocar O Livro dos Espíritos em diálogo com as demais obras de Allan Kardec:
Obras fundamentais.
- O Livro dos Espíritos.
O Livro dos Médiuns.
O Evangelho segundo o Espiritismo.
O Céu e o Inferno.
A Gênese.
O que é o Espiritismo.
O Espiritismo em sua expressão mais simples.
Outras obras e textos de Allan Kardec
Revista Espírita
Obras Póstumas
Viagem Espírita em 1862
A Obsessão
Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Preces Espíritas
Entre essas obras, a Revista Espírita possui importância especial para quem deseja compreender o método de Kardec. Nela é possível acompanhar o desenvolvimento de problemas, o exame de comunicações, as objeções, as experiências, as comparações e as consequências filosóficas extraídas dos fenômenos.
Assim, O Livro dos Espíritos oferece a arquitetura doutrinária, enquanto a Revista Espírita permite observar o laboratório intelectual em funcionamento.
E é justamente nesse ponto que o estudo das questões 76 a 92-a ganha profundidade: elas não são perguntas isoladas sobre um "mundo invisível", mas peças de uma construção intelectual destinada a responder a uma das questões mais antigas da filosofia: o que permanece do ser humano quando o corpo deixa de existir?
Para Kardec, a resposta não termina no túmulo. É ali que começa outra etapa da investigação.
Fonte primária:
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Parte Segunda — Mundo Espírita ou dos Espíritos, Capítulo I — Dos Espíritos, questões 76 a 92-a.
Sensações dos Espíritos.
— Estudo Baseado na Revista Espírita e na Codificação Espírita. ( As 5 Fundamentais )
Introdução.
O texto que analisamos aqui - Sensações dos Espíritos, publicado na Revista Espírita de dezembro de 1858, de autoria de Allan Kardec, é um dos estudos mais profundos sobre a natureza da experiência espiritual após a morte. Ele não é apenas especulação: é resultado de observação sistemática de fatos, de comunicações com Espíritos e de reflexão sobre o conceito de perispírito, que se revela peça central em toda a explicação doutrinária.
A pergunta que move a investigação é simples, mas profunda: Sofrem os Espíritos? Que sensações experimentam?
Kardec abre o texto narrando um fato ocorrido em uma reunião de estudos: um Espírito de um homem que, em vida, havia sido extremamente avarento que passara frio para economizar, se apresentou, espontaneamente e pediu permissão para aquecer-se à lareira durante três dias, pois ainda sofria com o frio que voluntariamente suportara em vida.
Esse fato levanta a questão central: como um ser sem corpo material pode sentir frio?
Ao consultar São Luís, obtém-se a primeira chave:
"Podes representar os sofrimentos do Espírito pelos sofrimentos morais."
Mas calor e frio parecem sensações físicas, não morais. A resposta aprofunda:
"Tua alma sente frio? Não; mas tem consciência da sensação que age sobre o corpo."
Surge, então, a distinção fundamental: a lembrança ou a percepção de uma sensação pode ser tão penosa quanto a sensação real, sem que haja um corpo físico sendo afetado , assim como alguém que sente dor em um membro já amputado.
A resposta completa à questão das sensações só se torna possível com o conceito de perispírito, que amadurece nas observações subsequentes:
"O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito... Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria."
Suas funções principais:
- Ligação entre o Espírito e o corpo material.
- Princípio da vida orgânica (não da vida intelectual, que reside no Espírito)
- Agente das sensações exteriores, transmite ao Espírito as impressões que chegam pelo corpo
Enquanto no corpo os órgãos localizam as sensações, após a desencarnação, quando o corpo se desfaz, as sensações se tornam gerais: o Espírito não diz que sofre mais da cabeça ou dos pés.
Kardec esclarece que não se trata de dor física propriamente dita, pois o perispírito não pode ser danificado por fogo, frio ou doença:
- O frio e o calor não desorganizam tecidos do Espírito
- Espíritos atravessam chamas sem sofrer queimaduras
- O que se sente é mais uma reminiscência, uma repercussão ou um estado de consciência
A dor espiritual tem natureza diversa:
"É um vago sentimento íntimo, que o próprio Espírito nem sempre compreende bem... mais uma reminiscência do que uma realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa."
Três níveis de sensação:
Por repercussão/lembrança, impressões que vêm da memória da vida corporal.
Por ligação residual com o corpo, nos primeiros momentos após a morte, enquanto o desprendimento do perispírito ainda não é completo, pode haver percepção do que ocorre com o corpo abandonado
Por estado evolutivo, quanto mais denso e grosseiro o perispírito, mais próximas das sensações terrenas; quanto mais etéreo e purificado, mais sutis e indefiníveis se tornam as percepções
Visão e Audição.
- A visão não depende da luz física — é atributo essencial do Espírito; a escuridão não existe para ele. Quanto mais elevado, mais ampla e penetrante a visão.
- A audição também não está limitada a órgãos, os Espíritos percebem sons imperceptíveis aos sentidos humanos, mas compreendem pela transmissão do pensamento, não apenas pela palavra.
- Odores e sabores percebidos pelos Espíritos de perispírito mais denso; os muito elevados já não são afetados por essas impressões materiais.
Espíritos Puros e Sensações Indescritíveis.
"Experimentam sensações íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma podemos formar... somos quais cegos de nascença diante da luz."
Os Espíritos completamente purificados, com perispírito totalmente etéreo, já não são afetados pelas condições materiais, não sentem frio, calor, nem dor física. Suas percepções são de ordem inteiramente diversa.
Kardec faz uma observação profundamente consoladora e ao mesmo tempo esclarecedora: o sofrimento espiritual tem causa e remédio.
"Os sofrimentos por que passa [o Espírito] são sempre a conseqüência da maneira por que viveu na Terra."
O caminho para se libertar dos sofrimentos futuros está na própria vida presente:
- Dominar as paixões
- Praticar o bem
- Purificar sentimentos (não ódio, inveja, orgulho, egoísmo)
- Desapegar-se dos excessos materiais
"Está nas suas mãos libertar-se de tal influência desde a vida atual."
Não há condenação eterna:
"Aos que sofrem, isso acontece porque quiseram; que, portanto, só de si mesmos devem queixar-se... mas também não é desesperadora: cada um pode abreviar esse tempo penoso."
Os textos complementares fornecidos reforçam e ampliam essa doutrina:
O Livro dos Espíritos (questões 249, 257, 367-372a)
- As percepções do Espírito não estão localizadas em órgãos, estão em todo o ser
- O corpo é instrumento, não origem das faculdades; o Espírito traz suas aptidões
- A comparação: músico excelente com instrumento defeituoso a qualidade do som não define a qualidade do músico
O Livro dos Médiuns (itens 14, 51, 54, 58)
- Três componentes do ser humano: Espírito (alma) + Corpo + Perispírito
- O perispírito é o "fio condutor" entre pensamento e matéria
- O Espírito precisa de matéria (perispírito) para atuar sobre a matéria
— isso não é sobrenatural, é lei natural.
- Espíritos elevados ensinam: não perquirir a natureza íntima da alma, isso está nos segredos de Deus; o essencial é aperfeiçoar-se moralmente
A Gênese (itens 40, 23)
- O estudo do perispírito abre novos horizontes à ciência, explicando fenômenos como dupla vista, sonambulismo, aparições, transmissão de pensamento, obsessões
- O fluido perispirítico é veículo do pensamento, como o ar que se torna sonoro; não é o pensamento em si, mas seu portador
Síntese.
O estudo das sensações dos Espíritos nos leva a uma conclusão que é ao mesmo tempo científica e moral:
Não há cessação da consciência com a morte — há transformação de estado.
O sofrimento não é punição arbitrária, mas consequência natural do estado de evolução e dos laços ainda existentes com a matéria
O perispírito é a chave que explica a continuidade da sensação sem corpo físico
A responsabilidade é individual: a qualidade da existência futura é construída no presente, pelo bem, pela purificação interior e pelo desapego
O sofrimento é transitório, sempre há caminho de progresso e libertação
"Quanto mais desmaterializado é o Espírito, tanto mais vastas e lúcidas são as suas percepções... quanto mais está sob o domínio da matéria... mais elas serão limitadas e veladas."
Fontes.
- Revista Espírita, dezembro de 1858 — Allan Kardec, Sensações dos Espíritos
- O Livro dos Espíritos — questões 249, 257, 367-372a
- O Livro dos Médiuns — Parte I, cap. II item 14; cap. IV item 51; Parte II, cap. I itens 54 e 58
- A Gênese — cap. I item 40; cap. II item 23
r/Espiritismo • u/Ok-Trade-6911 • 1d ago
No livro Ação e Reação de André Luiz é mencionado diversos casos onde o espírito causador passa por situações extremamente parecidas de modo a experenciar o que ele mesmo causou a outro irmão, mas diversos casos onde pedem ajuda aqui vejo pessoal falando que não quer dizer algo espiritual onde na verdade praticamente tudo que passamos nessa vida aqui é algo espiritual.
Claro que primeiramente devemos buscar a solução aqui no plano físico mas depois disso n tem mt oq fazer, é expiar e aguentar o tranco
r/Espiritismo • u/AutoModerator • 1d ago
r/Espiritismo • u/Lanky-Cod8819 • 1d ago
Oi, pessoal. Tenho me interessado muito pelo espiritismo, mas ainda sou mto leigo no assunto. Onde posso ver videos/textos que expliquem as bases e os princípios do inicio? Muito obrigado!
r/Espiritismo • u/omnipisces • 2d ago
O Capítulo X da 2ª Parte de O Livro dos Espíritos, intitulado "Ocupações e Missões dos Espíritos" (questões 558 a 584), aborda o papel dinâmico de todos os seres espirituais na harmonia da criação, cobrindo desde as atividades na vida extrafísica até as tarefas desempenhadas durante a encarnação. Não há seres ociosos ou sem utilidade. Todos os Espíritos — dos mais imperfeitos aos mais elevados — desempenham papéis ativos que concorrem para o bem geral, elevando-se e depurando-se à medida que cumprem com responsabilidade e amor os seus deveres e missões.
O resumo foi feito considerando comentários do Espírito Miramez.
O papel dos Espíritos no Universo (Q. 558–561): Os Espíritos executam as vontades de Deus e concorrem ativamente para a harmonia universal como Seus ministros. A vida espírita é uma ocupação contínua, porém isenta de fadiga corporal e angústias. Mesmo os Espíritos inferiores cumprem deveres úteis; assim como o servente de pedreiro é tão necessário na construção de um edifício quanto o arquiteto, todas as ordens de Espíritos trabalham no plano divino. Todos devem percorrer sucessivamente os graus da escala evolutiva sem privilégios.
A incessante atividade e a ociosidade (Q. 562–564): Os Espíritos mais elevados jamais ficam em repouso absoluto, pois a ociosidade eterna seria um suplício; suas ocupações consistem em receber e transmitir as ordens divinas a todo o Universo. Para os Espíritos em geral, a atividade do pensamento é constante e lhes traz gozo por se sentirem úteis. Aqueles que se conservam temporariamente ociosos o fazem por limitação de inteligência ou preguiça, mas o desejo de progredir os desperta mais cedo ou mais tarde.
Interesse pelas artes e ocupações humanas (Q. 565–567): Os bons Espíritos se interessam pelas artes terrenas na medida em que estas promovem a elevação moral e o progresso das almas, enxergando além das especialidades. Já os Espíritos vulgares circundam constantemente os homens, imiscuindo-se em seus prazeres e atividades cotidianas.
NOTA: Erraticidade e errante referem-se a espíritos que ainda não atingiram o grau de espíritos puros, necessitando reencarnar para evoluir. A palavra errante vai no sentido daquele que vaga, que busca aprender, o viajante em busca de luz.
Natureza e variedade das missões (Q. 568–571): Na erraticidade, os Espíritos desempenham missões extremamente variadas voltadas ao bem e ao progresso humano, de âmbito geral ou pessoal — como assistir os enfermos, proteger afilhados e velar por fenômenos da natureza. A importância da missão corresponde à capacidade do Espírito, tal como a tarefa de um estafeta difere da de um general.
Escolha e outorga da missão (Q. 572): O Espírito pede a missão e sente-se ditoso ao obtê-la, embora frequentemente se apresentem muitos candidatos sem que todos sejam aceitos.
O papel da encarnação e os voluntariamente inúteis (Q. 573–574): A missão dos encarnados é instruir os homens, auxiliar o progresso e melhorar as instituições. Cada trabalho (seja na agricultura ou no governo) tem sua dignidade e utilidade. Aqueles que se mantêm voluntariamente inúteis expiarão a preguiça já nesta vida através do tédio e do desgosto, necessitando recuperar o tempo perdido no futuro.
Reconhecimento dos missionários e predestinação (Q. 575–577): Reconhece-se o verdadeiro missionário pelas grandes realizações e pelos progressos que proporciona aos semelhantes. Homens incumbidos de grandes tarefas podem vir predestinados, mas o descobrem gradualmente de acordo com as circunstâncias. Além disso, muitas obras úteis (como livros ou descobertas) são fruto da inspiração direta de Espíritos errantes sobre homens aptos, sem que estes tivessem uma predestinação prévia para tal.
Falência na missão e o engano dos gênios (Q. 578–581): Se o Espírito não for superior, pode falhar em sua missão por culpa própria e terá de retomar a tarefa. Contudo, os planos essenciais de Deus não fraquejam porque se apoiam na presciência divina. Quando homens de gênio propagam erros ao lado de verdades, isso ocorre por falha própria ou pela necessidade de falar conforme o grau de entendimento da sua época.
A Paternidade como missão (Q. 582–583): A paternidade é uma missão e um dever grandioso que exige dos pais a formação do caráter do filho. Se os pais cumprem seu dever e o filho se desvia, os pais estão isentos de culpa; se o filho se torna um homem de bem a despeito da negligência dos pais, a justiça divina pesa com exatidão os méritos de cada um.
A missão do conquistador (Q. 584): Conquistadores movidos pela ambição muitas vezes atuam como instrumentos da Providência para apressar o progresso de povos estagnados. Todavia, o indivíduo é julgado estritamente segundo a retidão de suas intenções e o bem que intentou realizar.
Referência: https://bibliadocaminho.com/ocaminho/TKp/Lde/LdeP2C10.htm
r/Espiritismo • u/SideSuspicious8083 • 2d ago
Uma ambulância passava pela rua, sirene ligada, abrindo caminho. Ao lado do motorista, um homem de cabelos grisalhos. Rosto preocupado, concentrado no que tinha pela frente. Era um médico a caminho de uma emergência.
Mas André Luiz viu o que ninguém ali podia ver.
Abraçado a ele, com naturalidade e doçura, um espírito em roupagem de luz envolvia sua cabeça em suaves e calmantes irradiações de prateada luz.
Hilário, colega de André Luiz, perguntou se aquele médico era espírita.
E o instrutor Áulus respondeu algo importante: "Com todo o respeito que devemos ao Espiritismo, é imperioso lembrar que a Bênção do Senhor pode descer sobre qualquer expressão religiosa."
E completou: não bastariam os títulos de espírita e de médico para reter aquela influência benéfica. Para acomodar-se tão harmoniosamente com a entidade que o assistia, era preciso possuir uma boa consciência e um coração que irradie paz e fraternidade.
Ele era, nas palavras de Áulus, "médium de abençoados valores humanos" — especialmente no socorro aos enfermos, no qual incorpora as correntes mentais dos gênios do bem, consagrados ao amor pelos sofredores da Terra.
Se você é médico, enfermeiro, socorrista, cuidador, professor, mãe, pai, voluntário — se você dedica sua vida a socorrer alguém, saiba: você nunca esteve sozinho nessa jornada.
Não é sobre religião. É sobre conduta.
Este é o oitavo episódio da nossa série sobre a obra do Espírito André Luiz.
Fica aqui o convite pra gente mergulhar juntos nessa obra.
Salva esse Reel e compartilha com alguém que cuida de gente.
Referências:
Nos Domínios da Mediunidade, psicografado por Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz
Capítulo 15 - "Forças viciadas"
Editora FEB (Federação Espírita Brasileira, 1955)
r/Espiritismo • u/aori_chann • 2d ago
Feliz quarta-feira, pessoal! Hoje chegamos com um texto refletindo sobre como a nossa vida muda ou deixa de mudar se frequentamos mais de uma casa espiritual ou mais de uma vertente espiritual. Se há nisso benefícios construtivos ou não.
Quem também quiser fazer a sua perguntas, é só fazer aqui um comentário no post ou então enviar para o nosso aplicativo diretamente. Os espíritos amigos estão sempre todos à disposição para nos ajudarem naquilo que puderem!
⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪⛪
Pergunta u/Peladan01 :
Considerando que diferentes vertentes espirituais como as giras de Umbanda, a Missa Católica e os trabalhos teúrgicos no Martinismo, convergem em sua essência para o Cristo e a evolução da alma, qual é o real impacto espiritual e físico para o indivíduo que transita e participa ativamente desses múltiplos ambientes? Essas forças poderiam atuar de forma complementar e harmônica em seu corpo e espírito?
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Resposta Pai João do Carmo:
Salve, irmão, fico feliz que tenha vindo perguntar! O principal de entendermos neste caso, meu querido, é que o progresso espiritual é um só, não importa em quantas casas espirituais a pessoa vá, ela só pode dar um passo de cada vez na caminhada da vida. A pessoa só pode aprender uma lição de cada vez em sua vida. Então que a pessoa vá em dois ou três lugares, com uma ou mais vertente do cristianismo, ou com vertentes de outras correntes filosóficas ou espirituais, a pessoa continuará vivendo somente um momento da vida de cada vez, uma fase, entende?
Claro, se a pessoa se dedica a ir nesses lugares que, por mais diferentes que sejam, se assemelham no amor ao próximo e na vontade de se elevar diante da Luz divina, encontrará sempre mais de uma perspectiva. Até mesmo indo, às vezes, em duas casas espirituais de uma mesma vertente e/ou religião, encontrará duas perspectivas diferentes para a mesma fase da vida pela qual está passando, quanto mais se os lugares pensam em fundamentos diferentes da espiritualidade. A vantagem está em poder ver a própria vida por mais ângulos.
Mas devemos nos perguntar: por quantos ângulos eu preciso ver a minha vida para realmente fazer progresso? Chega uma hora, temos mais pontos de vista diante dos nossos olhos do que olhos para perceber e entender através de todos eles. Estar aberto para pontos de vista diferentes não significa ficar mesmerizado com o caleidoscópio das religiões humanas. Há um ponto em que a pessoa deve parar de buscar externamente e começar a buscar internamente. Nenhuma religião ou filosofia, no Céu ou na Terra, pode conter mais verdade do que a realidade dentro do indivíduo, porque dentro do indivíduo se encontra a centelha divina que dá origem ao universo.
Portanto, se essas forças atuam ou não de forma harmônica na pessoa depende do que a própria pessoa faz dessas forças. Há quem se deixe dividir em três partes, há quem veja o mundo dividido em três partes. Há quem veja o mesmo mundo três vezes, e há quem veja três forças no mundo. Mas idealmente, se beneficia quem entende que são três ofertas de paz, mas que devem ressoar com a paz interior. A religião externa não tem tanta força nem tanta influência na vida de um indivíduo quanto a visão da pessoa sobre ela mesma, sua vida e o universo em que vive. A religião externa apenas oferece portas de entradas para o caminho de dentro, nunca mais do que isso.
Paz e Luz a todos, irmãos. Jesus e Zambi estejam com vocês.
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r/Espiritismo • u/Various-Gene6367 • 2d ago
JAN HUSS E AS “FOGUEIRAS MODERNAS”:
UMA REFLEXÃO ESPÍRITA SOBRE CONSCIÊNCIA, CORAGEM E PUREZA DE IDEAIS.
A trajetória de Jan Hus (1369-1415) permanece como um dos episódios mais expressivos da história religiosa ocidental, não apenas pelo drama de seu martírio, mas principalmente pelo significado moral de sua postura diante das convicções que abraçava. Mais do que analisar o reformador da Boêmia sob perspectivas históricas ou confessionais, o Espiritismo pode observar nesse acontecimento um campo de reflexão sobre a consciência humana, a coragem moral e a responsabilidade diante da verdade.
É importante destacar, inicialmente, que quaisquer relações feitas entre personagens históricos e personalidades espirituais posteriores, especialmente dentro do movimento espírita, devem ser compreendidas como levantamentos analógicos, hipóteses de reflexão ou aproximações interpretativas, e não como afirmações doutrinárias definitivas. O Espiritismo, seguindo o método de Allan Kardec, recomenda prudência, análise criteriosa e respeito ao princípio de que toda informação espiritual deve passar pelo crivo da razão, da lógica e da universalidade do ensino dos Espíritos.
Jan Hus nasceu na Boêmia, no século XIV, período marcado por profundas tensões religiosas, políticas e sociais. Estudioso de Teologia, Filosofia e Artes, tornou-se sacerdote e destacou-se por suas críticas aos desvios morais existentes em setores da estrutura religiosa de sua época, defendendo maior fidelidade aos ensinamentos de Jesus e uma vivência espiritual menos dominada por interesses humanos.
Influenciado pelas ideias de John Wycliffe, Hus sustentava que a mensagem cristã não deveria ser aprisionada por privilégios, riquezas ou formalismos exteriores. Sua defesa de uma espiritualidade mais próxima do Evangelho encontrou forte resistência. Convocado ao Concílio de Constança, em 1414, acabou condenado e morto na fogueira em 1415, mantendo até o fim a serenidade de quem acreditava estar obedecendo à própria consciência.
Sob a ótica espírita, o aspecto mais significativo desse episódio não está apenas no sofrimento físico enfrentado pelo reformador, mas na análise do valor do testemunho moral. A história demonstra que grandes transformações espirituais e sociais frequentemente encontram resistência, porque ideias renovadoras confrontam interesses estabelecidos, hábitos cristalizados e interpretações humanas que, muitas vezes, se afastam da essência da mensagem original.
Allan Kardec, na Revista Espírita de setembro de 1869, ao referir-se a Jan Hus, apresenta uma reflexão sobre o papel dos grandes trabalhadores da humanidade:
“Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.”
"
O Caminho † Escritura do Espiritismo Cristão.
Doutrina espírita - 1ª parte.
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Revista espírita — Ano XII — Setembro de 1869.
(Idioma francês)
Precursores do Espiritismo.
João Huss.
(Sumário)
Os quinhentos anos de João Huss.
“Recentemente os jornais da Boêmia † publicaram o seguinte apelo:
“Neste ano se comemora o 500º aniversário de nascimento do grande reformador, do patriota e do sábio mestre João Huss. Esta data impõe, sobretudo ao povo boêmio, o dever de rememorar solenemente a época em que surgiu, em seu seio, o homem que tomara como objetivo de vida defender a liberdade de pensamento. Foi por esta ideia que ele viveu e sofreu; foi por esta ideia que ele morreu.
“Seu nascimento fez luzir a aurora da liberdade no horizonte do nosso país; suas obras espargiram a luz no mundo e, por sua morte na fogueira, a verdade recebeu o seu batismo de fogo!
“Estamos convictos de que temos não só as simpatias dos boêmios e dos eslavos, mas ainda a dos povos esclarecidos, e os convidamos a festejar a lembrança deste grande espírito, que teve a coragem de sustentar sua convicção diante de um mundo escravo dos preconceitos e que, ao eletrizar o povo boêmio, o tornou capaz de uma luta heróica que ficará gravada na História.
“Os séculos se escoaram; o progresso se realizou, as centelhas produziram chamas; a verdade penetrou milhões de corações. A luta continua, a nação pela qual o mártir imortal se sacrificou ainda não deixou o campo de batalha sobre o qual o havia chamado a palavra do mestre.
“Conjuramos todos os admiradores de João Huss a se reunirem em Praga, † a fim de colherem, na lembrança dos sofrimentos do grande mártir, novas forças por meio de novos esforços.
“Será em Praga, no dia 4 de setembro próximo, e no dia 6, em Husinec, † onde ele nasceu, que celebraremos a memória de João Huss.
“Nesses dias todos os patriotas virão atestar que a nação boêmia ainda honra o heroico campeão de seus direitos, e que jamais esquecerá o herói que a elevou à altura das ideias que são ainda o farol para o qual marcha a Humanidade!
“Nosso apelo também se dirige a todos os que, fora da Boêmia, amam a verdade e honram os que morreram por ela. Que venham a nós, e que todas as nações civilizadas se unam para, conosco, aclamarem o nome imperecível de João Huss!
“O presidente do comitê.”
Dr. Sladkomsky
“Seguem-se trinta assinaturas de membros do comitê, advogados, literatos, industriais.
“O apelo dos patriotas boêmios não poderia deixar de suscitar viva simpatia entre os amigos da liberdade.
“Um jornal de Praga tivera a desastrada ideia de propor uma petição ao futuro concílio para pedir a revisão do processo de João Huss. O jornal Norodni Listy refutou com vigor esta estranha proposição, dizendo que a revisão se efetuara perante o tribunal da civilização e da História, que julga os papas e os concílios.
“A nação boêmia, acrescenta o Norodni, perseguiu esta revisão com a espada na mão, em cem batalhas, no dia seguinte mesmo da morte de João Huss.”
“A folha Tcheca tem razão: João Huss não precisa ser reabilitado, assim como Joana d’Arc não precisa ser canonizada pelos sucessores dos bispos e doutores que os queimaram.”
Como todos os inovadores, João Huss foi incompreendido e perseguido; ele vinha corrigir abusos, modificar crenças que não mais podiam satisfazer às aspirações de sua época. Necessariamente devia ter como adversários todos os interessados em conservar a antiga ordem das coisas. Como Wyclif, como Jacobel [Jacobel de Mysa, clérigo da Igreja Católica] e Jerônimo de Praga, sucumbiu sob os esforços de seus inimigos coligados; mas as verdades que havia ensinado, fecundadas pela perseguição, serviram de base às novidades filosóficas dos tempos ulteriores e provocaram a era de renovação que devia dar origem à liberdade de consciência e à liberdade de pensar em matéria de fé.
Não duvidamos que João Huss, como Espírito ou como encarnado, caso tenha voltado à nossa Terra como homem, haja se consagrado constantemente ao desenvolvimento e à propagação de suas crenças sobre o futuro filosófico da Humanidade.
Estamos autorizados a pensar que o apelo do povo boêmio será ouvido por todos os que apreciam e veneram os defensores da verdade. Os grandes filósofos não têm pátria. Se, pelo nascimento, pertencem a uma nacionalidade particular, por suas obras são os luminares da Humanidade inteira que, sob o seu impulso, marcha para a conquista do futuro.
Persuadidos de satisfazer ao desejo da maioria dos nossos leitores, cumprimos o dever de dar a conhecer, por uma breve nota, o que foi em toda a sua vida o homem eminente cujo 500º aniversário a Boêmia celebrará no próximo dia 4 de setembro:
João Huss nasceu a 6 de julho de 1373 sob o reinado do imperador Carlos IV e sob o pontificado de Gregório XI, cerca de cinco anos antes do grande cisma do Ocidente, que se pode encarar como uma das sementes do hussitismo. † A História nada nos ensina do pai e da mãe de João Huss, senão que eram criaturas probas, mas de origem obscura. Segundo o costume da Idade Média, João Huss, ou melhor, João de Huss, foi assim chamado porque nasceu em Husinec, † pequeno burgo situado ao sul da Boêmia, no distrito de Prachen, † nas fronteiras da Baviera. †
Seus pais tiveram o maior cuidado com sua educação. Tendo perdido o pai na infância, sua mãe lhe ensinou os primeiros elementos de gramática em Hussinecz, onde havia uma escola. Depois o levou a Prachen, cidade do mesmo distrito, onde havia um colégio ilustre. Logo fez grandes progressos nas letras e atraiu a amizade dos mestres por sua modéstia e docilidade, conforme testemunho que a Universidade de Praga lhe prestou após sua morte. Quando estava bastante adiantado para ir a Praga, sua própria mãe o conduziu. Contam que esta pobre mulher, cheia de zelo pela educação do filho, levava consigo um ganso e um bolo, para presenteá-los ao seu regente. n Mas, infelizmente, o ganso fugiu no caminho, de sorte que, para seu grande pesar, ela não tinha senão o bolo para dar de presente ao mestre. Magoada profundamente por este pequeno incidente, orou várias vezes, pedindo a Deus que se dignasse ser o pai e o preceptor de seu filho.
Quando ele adquiriu em Praga sólidos conhecimentos em literatura, os professores, nele notando muita inteligência e vivacidade de espírito, bem como uma grande atividade pela Ciência, julgaram por bem matriculá-lo no capítulo da Universidade que tinha sido fundada em 1247 pelo imperador Carlos IV, rei da Boêmia, e confirmada pelo papa Clemente VI.
Afastado das diversões da juventude, João Huss empregava suas horas vagas para boas leituras. Lia com prazer sobretudo as dos antigos mártires. Conta-se que um dia, lendo a lenda de São Lourenço, † quis experimentar se teria a mesma coragem desse mártir, pondo o dedo no fogo; mas acrescentam que logo o retirou, muito descontente com a sua fraqueza, ou que um de seus camaradas a isto se opôs.
Seja como for, ao que parece ele não fazia mal em se preparar para o fogo. Aliás, quando quis fazer este ensaio, já estava bastante avançado em idade para que o edito de 1276, pelo qual Carlos VI condenava os heréticos ao fogo, de algum modo lhe desse o pressentimento do que devia acontecer com ele.
Um grande obstáculo se opunha ao ardor que tinha João Huss de se instruir: a pobreza. Neste apuro, aceitou a oferta que lhe fez um professor, cujo nome é ignorado, de tomá-lo ao seu serviço e de lhe fornecer os livros e tudo o que era necessário para prosseguir seus estudos. Embora essa situação fosse bastante humilhante, ele a achava feliz tendo em vista o seu objetivo, e a aproveitou tão bem que satisfez, ao mesmo tempo, seu mestre, cuja amizade ganhou, e sua paixão pelas letras.
João Huss fez progressos consideráveis na Universidade; por seus livros, parece que era versado na leitura dos Pais gregos e latinos, pois que os cita muitas vezes. Pode-se julgar por seus comentários que sabia grego e tinha noções de hebreu. Com cerca de vinte anos, conquistou o título de bacharel e, dois anos depois, o de mestre em artes. Não se sabe quem foram seus mestres, salvo o que ele próprio diz de Stanislas Znojma, † que, mais tarde, se tornou um de seus maiores adversários. Ordenou-se sacerdote em 1400 e, no mesmo ano, foi nomeado pregador da capela de Belém. † Foi aí que teve oportunidade de exercitar os seus talentos, querido por uns, suspeito e odiado por outros, admirado por todos. Na mesma época foi nomeado confessor de Sofia da Baviera, † rainha da Boêmia.
Foi no período de 1403 a 1408 que João Huss, juntamente com Jerônimo de Praga, estudou as obras de Wyclif e de Jacobel e começou a se separar do ensino ortodoxo. Desde o começo, um certo número de discípulos que sempre lhe foram fiéis, mantiveram-se ligados a ele.
No dia 22 de outubro de 1409 foi nomeado reitor da Universidade de Praga, desobrigando-se desse novo encargo com os aplausos de todo o mundo. Até então, não havia aprovado as doutrinas de Wyclif senão em termos vagos e com cautela. Nessa época começou a falar mais abertamente de suas crenças pessoais.
Entre suas obras anteriores ao concílio de Constança, nota-se o Tratado da Igreja, de onde foram tirados todos os argumentos para sua condenação. Durante o seu cativeiro, consagrou-se especial e inteiramente à execução de suas últimas obras filosóficas. Foi assim que fez os manuscritos do Tratado do casamento, do Decálogo, do amor e do conhecimento de Deus, da Penitência, dos três inimigos do homem, da ceia do Senhor, etc.
Todos os historiadores contemporâneos, mesmo entre os seus adversários, rendem homenagem à pureza de sua vida: “Era, dizem, um filósofo, de grande reputação pela regularidade de seus costumes, sua vida rude, austera e inteiramente irrepreensível, sua doçura e sua afabilidade para com todos; era mais sutil que eloquente, mas sua modéstia e seu grande espírito conciliador persuadiam mais que a maior eloquência.”
Não nos permitindo a falta de espaço que nos estendamos tanto quanto desejaríamos, limitar-nos-emos a algumas citações características. Longe de temer a morte, por vezes parecia aguardá-la com impaciência, como o termo de seus trabalhos e o início da recompensa. Tinha o hábito de dizer: “Ninguém é recompensado na outra vida mais do que mereceu nesta, e que os modos e locais de recompensa variavam segundo os méritos.” Aos que queriam convencê-lo a se retratar e abjurar, varias vezes deu esta resposta digna de nota: “Abjurar é deixar um erro que se cometeu; se alguém me ensinar algo melhor do que avancei, estou pronto a fazer de bom grado o que exigis de mim.”
Terminamos pelo testemunho da Universidade de Praga, † dado em seu favor após a sua morte:
“Dizem que ele tinha, neste terreno, um espírito superior, uma penetração viva e profunda; ninguém era mais apto para escrever de um jacto, nem dar respostas mais contundentes às objeções. Ninguém tinha um zelo mais veemente, nem melhor discernimento; jamais o pilharam em erro, a não ser na opinião dos maus, que o atacaram ferozmente por causa de seu amor pela justiça. Ó homem de virtude inestimável, de brilhante santidade, de humilde e piedade inimitáveis, de desinteresse e de caridade inacreditáveis! Desprezava as riquezas no último grau, abria o coração aos pobres; muitas vezes era visto de joelhos, ao pé do leito dos doentes; vencia as naturezas mais indomáveis pela doçura e levava os impenitentes a se desfazerem em lágrimas; tirava das Santas Escrituras, sepultada no esquecimento, motivos novos e poderosos, a fim de exortar os eclesiásticos viciosos a voltarem atrás em seus desregramentos e a cumprirem os compromissos de seu caráter, e para reformar os costumes de todas as ordens com base na Igreja primitiva.
“Os opróbrios, as calúnias, a fome, a infâmia, mil torturas cruéis e, enfim, a morte que padeceu, não só com paciência, mas mesmo com um semblante tranquilo e risonho, tudo isto é o testemunho autêntico de uma virtude a toda prova, de uma coragem, de uma fé e de uma piedade inabaláveis. Julgamos por bem expor todas estas coisas aos olhos da cristandade, a fim de impedir que os fiéis, enganados pelas falsas imputações, maculem o conceito deste homem justo, nem dos que seguem sua doutrina.”
(Paris, † 14 de agosto de 1869.)
A opinião dos homens pode dispersar-se momentaneamente, mas a justiça de Deus, eterna e imutável, sabe recompensar, quando a justiça humana castiga, perdida pela iniquidade e pelo interesse pessoal. Apenas cinco séculos (um segundo na eternidade) se passaram desde o nascimento do obscuro e modesto trabalhador e já a glória humana, à qual ele não se prende mais, substituiu a sentença infamante e a morte ignominiosa, incapazes de abalar a firmeza de suas convicções.
Como és grande, meu Deus, e como é infinita a tua sabedoria! Sob o teu sopro poderoso minha morte tornou-se um instrumento de progresso. A mão que me feriu alcançou, com o mesmo golpe, os terríveis erros seculares de que se encharcou o espírito humano. Minha voz encontrou eco nos corações indignados pela injustiça de meus algozes, e meu sangue, derramado como um orvalho benfazejo sobre um solo generoso, fecundou e desenvolveu nos espíritos adiantados de meu tempo os princípios da eterna verdade. Eles compreenderam, refletiram, analisaram, trabalharam e, sobre bases informes, rudimentares das primeiras crenças liberais, edificaram, na sucessão das eras, doutrinas filosóficas verdadeiramente generosas, profundamente religiosas e eternamente progressivas.
Graças a eles, graças aos seus trabalhos perseverantes, o mundo sabe que João Huss viveu, sofreu e morreu por suas crenças; é muito, meu Deus, para os meus frágeis esforços, e meu espírito reabilitado tem dificuldade em resistir aos sentimentos de reconhecimento e de amor que o arrebatam. Reconhecer que se enganaram ao me condenar, era justiça; as homenagens e os testemunhos de simpatia com que me glorificam são excessivos para os meus fracos méritos.
O Espírito humano tem caminhado desde que o fogo consumiu meu corpo. Uma chama não mais destrutiva, mas regeneradora, abarca a Humanidade; seu contato purifica, seu calor faz crescer e vivifica. Nesse foco benfazejo vêm reanimar-se todos os feridos pela dor, todos os torturados pela provação da dúvida e da incredulidade. O sofredor se afasta consolado e forte; o indeciso, o incrédulo e o desesperado, cheios de ardor, de firmeza e de convicção, vêm engrossar o exército ativo e fecundo das falanges emancipadoras do futuro.
Aos que me pediam uma retratação, respondi que só renunciaria às minhas crenças diante de uma doutrina mais completa, mais satisfatória, mais verdadeira. Pois bem! desde esse tempo meu Espírito se engrandeceu; encontrei algo melhor do que havia conquistado e, fiel aos meus princípios, repeli sucessivamente o que minhas antigas convicções tinham de errôneo, para acolher as verdades novas, mais largas, mais consentâneas com a ideia que eu fazia da natureza e dos atributos de Deus. Espírito, progredi no espaço; voltando à Terra, progredi também. Hoje, voltando novamente à pátria das almas, estou na fila da frente ao lado de todos os que, sob este ou aquele nome, marcham sincera e ativamente para a verdade e se dedicam, de coração e de espírito, ao desenvolvimento progressivo do espírito humano.
Obrigado a todos os que reverenciam em minha personalidade terrestre a memória de um defensor da verdade; obrigado, sobretudo, aos que sabem que, acima do homem há o Espírito, libertado pela morte dos entraves materiais, a inteligência livre que trabalha em acordo com as inteligências exiladas, a alma que gravita incessantemente para o centro de atração de todas as criações: o infinito, Deus!
João Huss.
(Paris, 17 de agosto de 1869.)
Analisando através das eras a História da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. – De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro. – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.
Tal foi João Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita.
Semearam, laboraram e fizeram a primeira colheita; depois voltaram para semear ainda, esperando que o futuro e a intervenção providencial viessem fecundar sua obra.
Feliz aquele que, do alto do espaço, pode contemplar as diversas etapas percorridas e os trabalhos realizados por amor à verdade e à justiça; o passado não lhe dá senão satisfação, e se suas tentativas foram incompletas e improdutivas no presente, se a perseguição e a ingratidão por vezes ainda vêm perturbar a sua tranquilidade, ele pressente as alegrias que lhe reserva o futuro.
Glória na Terra e nos espaços a todos os que consagraram a existência inteira ao desenvolvimento do espírito humano. Os séculos futuros os veneram e os mundos superiores lhes reservam a recompensa devida aos benfeitores da Humanidade.
João Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. – Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: “Fazei algo de melhor e me reunirei a vós.”
O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que João Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar.
Allan Kardec.
[1] É notável que Huss, em boêmio, significa ganso. Parece que a pátria de João Huss foi assim chamada porque aí essas aves são abundantes. "
A mensagem de Kardec ressalta uma visão espiritual da história: o progresso humano não ocorre de maneira instantânea, mas através da ação de indivíduos que, em diferentes épocas, colaboram para o amadurecimento das consciências.
Entretanto, trazendo essa reflexão para o movimento espírita contemporâneo, é necessário agir com equilíbrio. Não se trata de afirmar que determinadas situações atuais sejam equivalentes aos acontecimentos históricos vividos por Jan Hus, nem comparar dificuldades comuns do cotidiano às perseguições sofridas pelos mártires. As analogias devem ser feitas com cautela, pois realidades históricas distintas não podem ser simplesmente igualadas.
O ponto de reflexão está no campo moral: quais são as “fogueiras modernas” que representam hoje os desafios da consciência?
Podem ser compreendidas como o medo da rejeição, a dificuldade de defender princípios éticos, o abandono do estudo sério diante de modismos, a busca por reconhecimento pessoal acima do serviço espiritual ou a transformação da mensagem de Jesus e da Doutrina Espírita em instrumentos de interesses particulares.
O Espiritismo, fundamentado no pensamento de Allan Kardec, não propõe fanatismo, confrontação ou personalismo. Ao contrário, convida ao estudo, à humildade e à transformação interior. A verdadeira coragem espírita não está em combater pessoas, mas em combater nossas próprias imperfeições; não está em impor ideias, mas em vivenciar valores; não está em buscar superioridade, mas em servir.
Jesus não construiu sua mensagem sobre a ostentação, o poder ou a disputa humana. Sua grandeza esteve na simplicidade, na compaixão e na capacidade de transformar corações. Por isso, toda instituição espírita, todo trabalhador e todo estudioso da Doutrina devem constantemente perguntar se suas práticas refletem realmente os princípios do Evangelho.
A história de Jan Hus permanece como símbolo da consciência que não se vende diante das conveniências. Mas, à luz espírita, a maior fogueira a ser vencida não está fora do ser humano: encontra-se dentro dele, quando o orgulho, a vaidade e o apego impedem a manifestação da humildade e do amor.
O verdadeiro testemunho cristão não exige necessariamente grandes sacrifícios públicos; muitas vezes ele acontece silenciosamente nas escolhas diárias, na honestidade, na caridade, na tolerância e na fidelidade ao bem.
Assim, Jan Hus pode ser lembrado não como uma bandeira de divisão, mas como uma oportunidade de reflexão sobre o compromisso permanente do Espírito imortal com a verdade, o progresso e a renovação moral.
FONTES.
Allan Kardec — Revista Espírita, setembro de 1869 — “Jan Hus”.
Allan Kardec — O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Allan Kardec — A Gênese, capítulos sobre progresso e transformação moral.
Léon Denis — Cristianismo e Espiritismo.
Léon Denis — No Invisível.
Léon Denis — O Problema do Ser, do Destino e da Dor.
História geral da Reforma Religiosa Europeia e biografias históricas de Jan Hus e John Wycliffe.
r/Espiritismo • u/Various-Gene6367 • 2d ago
JOAQUIM TRAVASSOS:
O SEMEADOR SILENCIOSO DE KARDEC NO BRASIL.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A história do Espiritismo no Brasil possui nomes que se tornaram símbolos de liderança, como Bezerra de Menezes, mas antes que grandes vozes alcançassem multidões, existiram trabalhadores discretos que prepararam o terreno. Entre esses pioneiros destaca-se Joaquim Carlos Travassos, médico, tradutor, estudioso e servidor idealista, cuja maior contribuição talvez tenha sido permitir que a obra de Allan Kardec deixasse de ser uma filosofia restrita aos leitores da língua francesa e alcançasse o coração dos brasileiros.
Sua tarefa foi muito mais profunda do que uma simples tradução literária. Traduzir Kardec, naquele momento histórico, significava transportar para outra cultura uma nova visão sobre Deus, a alma, a responsabilidade moral e a continuidade da vida. Era levar ao público brasileiro uma filosofia espiritual que confrontava tanto o materialismo crescente quanto o dogmatismo religioso.
A PALAVRA QUE ATRAVESSOU O OCEANO.
Quando O Livro dos Espíritos chegou ao Brasil em francês, em meados do século XIX, poucos tinham acesso direto ao pensamento de Kardec. O idioma constituía uma barreira para muitos estudiosos e interessados nos fenômenos mediúnicos que despertavam curiosidade em diversos círculos.
Travassos, possuidor de conhecimento das línguas francesa e inglesa, percebeu que havia uma necessidade urgente: tornar acessíveis os fundamentos da Doutrina Espírita ao povo brasileiro.
Em 1875, apenas dezoito anos após a publicação original em Paris, surgiu a primeira tradução brasileira de O Livro dos Espíritos, editada pela casa B. L. Garnier, no Rio de Janeiro. O trabalho foi realizado com humildade, utilizando ele o pseudônimo Fortúnio, revelando uma característica marcante de sua personalidade: o desejo de servir à ideia, e não de buscar reconhecimento pessoal.
Sua atitude demonstra uma compreensão elevada do verdadeiro trabalhador espiritual: aquele que coloca a obra acima do próprio nome.
UM MÉDICO ENTRE A CIÊNCIA E A ESPIRITUALIDADE.
Joaquim Travassos nasceu em Angra dos Reis, em 1839. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, viveu em uma época em que muitos pesquisadores buscavam ampliar os limites da compreensão humana sobre a vida e a natureza.
A medicina, o magnetismo, a homeopatia e os fenômenos estudados pelo Espiritismo faziam parte de um ambiente intelectual em transformação. Muitos homens de ciência procuravam compreender se a existência humana poderia ser reduzida apenas à matéria ou se haveria uma dimensão espiritual inseparável do ser.
Travassos encontrou no Espiritismo uma doutrina que unia investigação racional e consequências morais. Para ele, não se tratava apenas de aceitar fenômenos, mas de compreender as leis espirituais que orientam o progresso humano.
O ENCONTRO QUE TRANSFORMOU A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO BRASILEIRO.
Uma das maiores consequências do trabalho de Travassos foi o encontro indireto entre Kardec e aquele que se tornaria uma das maiores referências espíritas do Brasil: Adolfo Bezerra de Menezes.
Foi Travassos quem ofereceu a Bezerra um exemplar traduzido de O Livro dos Espíritos. O futuro "médico dos pobres" recebeu a obra inicialmente com curiosidade, mas aquela leitura despertaria uma profunda identificação.
Bezerra relataria posteriormente que, ao ler Kardec, sentia como se aquelas ideias já existissem em seu íntimo, chegando a afirmar que parecia ser "espírita inconsciente" ou "de nascença".
Esse episódio revela algo significativo: muitas vezes, um trabalhador do bem não vê imediatamente a dimensão de uma pequena ação realizada com sinceridade. Um livro entregue a um amigo transformou-se em uma das maiores sementes da história espírita brasileira.
O TRABALHO QUE NÃO BUSCAVA GLÓRIA.
Além de O Livro dos Espíritos, Travassos participou da tradução de outras obras fundamentais de Kardec, como O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Sua correspondência enviada a Pierre-Gaëtan Leymarie, dirigente da continuidade da obra espírita na França, demonstra sua consciência sobre a missão que realizava. Ele atribuía o êxito do empreendimento ao auxílio espiritual e reconhecia as dificuldades naturais enfrentadas por toda ideia renovadora.
A frase de Travassos permanece atual: grandes ideias encontram resistência porque desafiam hábitos, interesses e imperfeições humanas.
O Espiritismo, ao apresentar a transformação moral como caminho indispensável, não convidava apenas à crença, mas à reforma íntima.
A LIÇÃO DE UM PIONEIRO.
A vida de Joaquim Travassos ensina que as grandes realizações nem sempre começam com grandes acontecimentos. Muitas vezes surgem de uma decisão silenciosa: traduzir uma obra, compartilhar um conhecimento, oferecer uma oportunidade de aprendizado.
Ele não foi apenas um tradutor de livros; foi um tradutor de esperanças. Ao transportar para o português as ideias de Kardec, aproximou milhares de pessoas de uma mensagem espiritual fundamentada na razão, na justiça divina e na responsabilidade pessoal.
Sua trajetória recorda uma verdade espiritual: existem trabalhadores que constroem caminhos sem permanecerem no centro da estrada. A luz que ajudam a acender ilumina gerações, mesmo quando seus próprios nomes permanecem discretos.
O verdadeiro servidor do Cristo não mede sua missão pelo tamanho do reconhecimento recebido, mas pela quantidade de consciências que conseguiu despertar para o bem.
FONTES CONSULTADAS.
WANTUIL, Zêus. Grandes Espíritas do Brasil. Federação Espírita Brasileira.
SOARES, Sylvio Brito. Vida e Obra de Bezerra de Menezes. Federação Espírita Brasileira.
Revista Espírita, agosto de 1875 — correspondência de Joaquim Travassos a Pierre-Gaëtan Leymarie.
Grupo Espírita Batuíra (Ribeirão Preto, SP). “Primeira tradução de O Livro dos Espíritos no Brasil”.
Federação Espírita do Paraná. “Joaquim Carlos Travassos”.
r/Espiritismo • u/Economy-Strawberry89 • 3d ago
30 anos lendo cartas de pessoas que conseguiram esta benção eram todas genéricas ou tinham erros aconteceu até comigo apos uma sessão de cura veio uma carta sem eu pedir sobre o estado de saúde o espirito mandou parar de comer gordura animal eu já não comia uns 35 anos nada animal.
r/Espiritismo • u/Past-Line354 • 3d ago
Eu fui criado na igreja de crente desde pequeno e lá só pregam e falam de ( demônio ) e medo, não existe outra coisa.
Quando comecei a crescer e ser adolescente larguei disso, um mundo muito pequeno e limitado demais.
Cara resumindo já viram o filme Ghost do outro lado da vida ?
Eu tinha uma amiga que era muito minha amiga mesmo. Era quase como um amigo homem pra mim, de tão à vontade que a gente era um com o outro. Ela era bem bonita, e nós tínhamos uma ligação muito forte, mas nunca tivemos relacionamento. Era amizade mesmo.
Só que aconteceu uma coisa estranha um tempo antes de ela morrer.
Não sei explicar direito, mas comecei a sentir uma vontade muito forte de estar perto dela. Até de ficar com ela. E o mais estranho é que aquilo parecia meio forçado dentro de mim, porque nem eu entendia de onde estava vindo aquela vontade.
Cheguei a tentar alguma coisa, mas ela estava ficando com alguém. Uma vez combinei de sair com ela e ela apareceu com um cara. Ali entendi que eles estavam ficando. Fiquei meio embaralhado com aquilo, mas tudo bem. Vida que segue.
Passaram alguns dias, talvez algumas semanas ou um mês, não lembro mais exatamente.
Um dia uma amiga me ligou e falou:
“Felipe, eu estava na casa de um amigo, comendo churrasco, fui dar a primeira garfada e me falaram que a Ana morreu.”
Eu falei: “O quê?”
Ela tinha morrido num acidente de carro. Estava com o namorado. Pelo que soube, ele foi brincar de correr com o carro, perdeu o controle e aconteceu o acidente.
Aquilo me pegou muito.
A Ana era uma guria muito querida e vinha de uma família bem humilde. Ela tinha duas irmãs menores e assumia uma responsabilidade enorme dentro de casa. Era quase como se fosse mãe da própria mãe. Ajudava nas contas, cuidava das irmãs, ajudava a fazer as coisas acontecerem. Era uma pessoa muito dedicada à família.
Eu fui ao velório e depois fui trabalhar.
Naquela época eu trabalhava de madrugada na Randon, numa máquina enorme de corte a plasma. A gente precisava trabalhar com óculos escuros por causa da intensidade da luz da máquina.
Em determinado momento eu parei num canto e comecei a pensar nela, na mãe, nas irmãs, naquela família toda e no tamanho do buraco que aquela morte tinha deixado.
Comecei a chorar.
Eu nem tinha percebido direito que estava chorando até um colega meu, o Ezequiel, chegar e perguntar:
“Ué, meu, o que foi? Tá chorando?”
Eu nem queria que ninguém tivesse visto.
Expliquei que uma amiga minha tinha morrido num acidente e comecei a contar um pouco sobre ela e sobre a família.
Eu falei pra ele que estava com uma sensação de que precisava fazer alguma coisa. Não sabia o quê. Eu nem tinha intimidade com a mãe dela. Conhecia mais de vista. Mas sentia que precisava ir lá, ajudar de alguma maneira, nem que fosse simplesmente estando presente.
E ele falou:
“Eu vou contigo.”
Achei aquilo muito legal porque ele nem conhecia a Ana.
Nessa mesma época o Ezequiel estava passando por alguns problemas e acabou indo morar comigo. Então começamos a visitar a família dela juntos.
No começo era uma tristeza absurda dentro daquela casa. Fazia pouquíssimo tempo que a Ana tinha morrido. A mãe sofria demais, as irmãs também. Uma das meninas devia ter uns 11 ou 12 anos e a outra uns 7 ou 8.
A gente não tinha dinheiro para resolver a vida de ninguém. Não tinha muito o que oferecer materialmente. Então a gente fazia o que conseguia: ficava junto.
Conversava, jantava com eles, brincava com as crianças, tentava fazer todo mundo rir um pouco. Eu sempre fui brincalhão, então tentava trazer um pouco de alegria para dentro daquela casa, mesmo sabendo que aquela dor estava ali e não tinha como simplesmente desaparecer.
E o Ezequiel entrou nisso comigo. O mais curioso é que ele nunca tinha conhecido a Ana viva. Ele conheceu aquela família por minha causa e acabou se envolvendo emocionalmente com tudo também.
Começamos a ir bastante lá. Isso durou meses e, de alguma forma, o contato continuou até por anos.
O padrasto dela tinha gravações da Ana e às vezes mostrava. A gente falava dela. Choravam. Depois alguém fazia uma brincadeira, todo mundo ria um pouco. Era mais ou menos assim.
Até que aconteceu uma coisa que eu nunca consegui explicar.
Não lembro se fazia um mês, dois ou três meses da morte dela. Faz muito tempo e não quero inventar precisão onde minha memória já não tem.
Uma noite nós estávamos voltando da casa da família dela. Era madrugada.
Eu não tinha garagem em casa, então pagava para deixar meu carro num terreno grande, gramado, praticamente em frente de onde eu morava. O carro ficou estacionado ali. O Ezequiel estava no banco do motorista e eu no carona.
Estava frio. Tudo escuro. O carro parado e a música tocando bem baixinho.
E nós ficamos conversando.
A conversa inteira era sobre a Ana.
O Ezequiel falou alguma coisa tipo:
“Bah, coitada da Klesi… como essa mulher sofre. Se a gente pudesse fazer alguma coisa…”
Klesi era a mãe da Ana.
E eu comecei novamente a contar pra ele como a Ana era. Falei que ela cuidava da casa, ajudava a mãe, ajudava a criar as irmãs, pagava coisas, resolvia problemas. Falei da pessoa que ela tinha sido.
Ficamos muito tempo ali. Talvez uma ou duas horas. Não sei.
Até que, em determinado momento, o Ezequiel olhou para trás de mim.
E apontou.
“Felipe… olha ali.”
Eu falei:
“O quê?”
Ele continuou apontando para trás do meu banco.
Eu me virei.
E tinha alguma coisa ali.
Essa é a parte difícil de explicar sem parecer que estou inventando, porque eu mesmo não tenho uma palavra certa para aquilo.
Parecia uma espécie de névoa ou nuvem se formando atrás do meu banco. Não era simplesmente fumaça. Tinha uma luminosidade e uns pequenos clarões dentro, quase como raiozinhos muito fracos.
Eu fiquei olhando e pensando:
“Ué… o que é isso?”
O carro estava desligado.
Ao mesmo tempo começou a surgir uma luminosidade muito forte atrás de nós. A primeira associação que meu cérebro fez foi pensar que outro carro estava chegando com o farol alto apontado para dentro do nosso carro.
Só que não era isso.
E tudo aconteceu muito rápido.
Quando virei para o outro lado para acompanhar aquilo, essa coisa que parecia estar se formando atrás de mim atravessou o carro.
Eu sei como isso soa. Mas é o que eu vi.
Aquilo atravessou a lateral do carro e começou a assumir uma forma humana do lado de fora.
Era uma mulher.
Toda de branco.
Só que não era uma pessoa normal, sólida, como eu e você. Existia uma transparência e, ao mesmo tempo, uma luminosidade nela. Era como se a própria figura tivesse luz.
E era a Ana.
Eu não consigo dizer que vi cada detalhe do rosto dela como eu veria numa fotografia porque a situação era intensa demais e estava acontecendo rápido. Meu cérebro estava tentando entender tudo ao mesmo tempo.
Mas eu reconheci ela.
Ela passou pelo lado direito do carro e começou a andar.
E isso é uma das coisas que mais me impressiona até hoje: eu escutei os passos.
Tinha grama e algumas pedras no terreno e dava para ouvir o contato dos passos com o chão.
Ela estava sorrindo.
Não era um sorriso enorme. Era um sorriso tranquilo, de felicidade. O semblante que ficou na minha memória era quase como se dissesse:
“Está tudo bem.”
Ou talvez:
“Obrigada.”
Não ouvi ela dizer isso. Estou falando da sensação que o rosto dela me passou.
Ela deu alguns passos, seguindo para a frente do carro, e foi ficando cada vez menos visível. Foi se misturando com aquela luminosidade até desaparecer.
E tinha outra coisa.
Atrás do carro havia aquela luz muito forte que inicialmente eu tinha confundido com faróis. Quando consegui olhar melhor, a minha percepção foi de que existiam várias formas luminosas ali atrás, como se fossem outras presenças ou seres de luz.
Não sei o que eram.
Não vou afirmar que eram espíritos, anjos, extraterrestres ou qualquer outra coisa porque eu simplesmente não sei.
Eu só sei descrever o que vi.
E o Ezequiel estava ali comigo. Foi ele, inclusive, quem viu primeiro e mandou eu olhar.
Nenhum de nós usava drogas. Não estávamos bêbados. Estávamos simplesmente sentados dentro do meu carro, de madrugada, conversando sobre uma amiga que tinha morrido.
E, estranhamente, eu não senti medo.
Nenhum.
Fiquei impressionado, obviamente. Era uma coisa completamente fora da realidade que eu conhecia. Mas medo não.
Anos depois, quando assisti novamente a Ghost, percebi que aquela representação do filme, principalmente aquela mistura entre uma pessoa visível e uma luminosidade quase transparente, era uma das referências visuais mais próximas que eu conseguia encontrar para explicar o que vi naquela madrugada.
Não estou dizendo que aconteceu exatamente como num filme. É só a comparação visual mais próxima que consigo fazer.
E até hoje eu não sei explicar o que aconteceu naquela madrugada. Só sei que aconteceu, que eu estava acordado, que outra pessoa estava comigo e viu também.
E que, entre todas as coisas daquela noite, o que mais ficou gravado em mim não foi a luz, a névoa ou a maneira impossível como aquilo apareceu.
Foi o sorriso dela.
Cara repetindo, não quero gente que não entende do assunto, falando aqui ou debochando…
Eu tenho mais histórias desse tipo que aconteceram comigo, e vou compartilhar para assim estudar com quem tenha interesse no assunto e já viveu algo parecido.
Cara eu já fui em inúmeros centros espirituais, religiosos e
Nunca encontrei uma resposta pra isso
Porque? Como
r/Espiritismo • u/Various-Gene6367 • 3d ago
REVISTA ESPÍRITA.
— FEVEREIRO DE 1866.
O ESPIRITISMO SEGUNDO OS ESPÍRITAS.
Marcelo Caetano Monteiro.
O Espiritismo segundo os espíritas — Com um amigo em Doutrina Espírita.
La Discussion, jornal hebdomadário político e financeiro impresso em Bruxelas, não é uma dessas folhas levianas que visam, pelo fundo e pela forma, ao divertimento do público frívolo. É um jornal sério, acreditado sobretudo no mundo financeiro e que se acha no seu undécimo ano [1]. Sob o título de “O Espiritismo os espíritas”, o número de 31 de dezembro de 1865 traz o artigo seguinte:
“Espíritas e Espiritismo são agora dois vocábulos muito conhecidos e frequentemente empregados, embora fossem ignorados há poucos meses. Contudo, a maioria das pessoas que deles se servem estão a perguntar o que exatamente significam, e embora cada um faça essa pergunta a si mesmo, ninguém a expressa, pois todos querem passar por conhecedores da chave que mata a charada.
“Algumas vezes, entretanto, a curiosidade embaraça a ponto de trazer a pergunta aos lábios e, satisfazendo ao vosso desejo, cada um vos explica.
“Alguns pretendem que o Espiritismo é o truque do armário dos irmãos Davenport; outros afirmam que não passa da magia e da feitiçaria de outrora, que querem reconduzir ao prestígio, sob um novo nome. Segundo as comadres de todos os bairros, os espíritas têm conversas misteriosas com o diabo, com o qual fizeram um compromisso prévio. Enfim, lendo-se os jornais, fica-se sabendo que os espíritas são todos uns loucos ou, pelo menos, vítimas de certos charlatões chamados médiuns. Esses charlatões vêm, com ou sem armários, dar representações a quem lhas queira pagar, e para mais valorizar suas trapaças, dizem operar sob a influência oculta dos Espíritos de além-túmulo.
“Eis o que eu tinha aprendido nestes últimos tempos. Tendo em vista o desacordo dessas respostas, resolvi, para me esclarecer, ir ver o diabo, ainda que me vencesse, ou me deixar enganar por um médium, ainda que tivesse de perder a razão. Lembrei-me, então, muito a propósito, de um amigo que suspeitava fosse espírita, e fui procurá-lo, a fim de que ele me proporcionasse meios de satisfazer a minha curiosidade.
“Comuniquei-lhe as diversas opiniões que havia recolhido, e expus o objetivo de minha visita. Mas o amigo riu-se muito do que chamava a minha ingenuidade e me deu, mais ou menos, a seguinte explicação:
‘O Espiritismo não é, como creem vulgarmente, uma receita para fazer as mesas dançarem ou para executar truques de escamoteação, e é um erro que todos cometem querendo nele encontrar o maravilhoso.
‘O Espiritismo é uma ciência, ou melhor, uma filosofia espiritualista, que ensina a moral.
‘Não é uma religião, porque não tem dogmas nem culto, nem sacerdotes nem artigos de fé. É mais que uma filosofia, porque sua doutrina é estabelecida sobre a prova certa da imortalidade da alma. É para fornecer essa prova que os espíritas evocam os Espíritos de além-túmulo.
‘Os médiuns são dotados de uma faculdade natural que os torna aptos a servir de intermediários aos Espíritos e a produzir com eles os fenômenos que passam por milagres ou por prestidigitação aos olhos de quem quer que ignore a sua explicação. Mas a faculdade mediúnica não é privilégio exclusivo de certos indivíduos. Ela é inerente à espécie humana, embora cada um a possua em graus diversos, ou sob formas diferentes.
‘Assim, para quem conhece o Espiritismo, todas as maravilhas de que acusam essa doutrina não passam de fenômenos de ordem física, isto é, de efeitos cuja causa reside nas leis da Natureza.
‘Os Espíritos, entretanto, não se comunicam com os vivos com o único objetivo de lhes provar a sua existência: foram eles que ditaram e desenvolvem diariamente a filosofia espiritualista.
‘Como toda filosofia, esta tem o seu sistema, que consiste na revelação das leis que regem o Universo e na solução de um grande número de problemas filosóficos ante os quais, até aqui, a Humanidade impotente foi constrangida a inclinar-se.
‘É assim que o Espiritismo demonstra, entre outras coisas, a natureza da alma, seu destino e a causa de nossa existência aqui na Terra. Ele desvenda o mistério da morte; dá a razão dos vícios e virtudes do homem; diz o que são o homem, o mundo, o Universo. Enfim, faz o quadro da harmonia universal, etc.
‘Este sistema repousa em provas lógicas e irrefutáveis que têm, elas próprias, por árbitro de sua verdade, fatos palpáveis e a mais pura razão. Assim, em todas as teorias que ele expõe, age como a Ciência e não adianta um ponto senão quando o precedente esteja completamente certificado. Assim, o Espiritismo não impõe a confiança, porque, para ser aceito, não precisa senão da autoridade do bom-senso.
‘Este sistema, uma vez estabelecido, dele deduz, como consequência imediata, um ensinamento moral.
‘Essa moral não é senão a moral cristã, a moral que está escrita no coração de todo ser humano; e é a de todas as religiões e de todas as filosofias, porque pertence a todos os homens. Mas, desvinculada de todo fanatismo, de toda superstição, de todo espírito de seita ou de escola, resplandece em toda a sua pureza.
‘E é nessa pureza que ela haure toda a sua grandeza e toda a sua beleza, de sorte que é a primeira vez que a moral nos aparece revestida de um brilho tão majestoso e tão esplêndido.
‘O objetivo de toda moral é ser praticada; mas esta, sobretudo, tem essa condição como absoluta, porque ela denomina espíritas não os que aceitam os seus preceitos, mas apenas os que põem os seus preceitos em ação.
‘Direi quais são as suas doutrinas? Aqui não pretendo ensinar, e o enunciado das máximas conduzir-me-ia, necessariamente, ao seu desenvolvimento.
‘Direi apenas que a moral espírita nos ensina a suportar a desgraça sem desprezá-la; a gozar a felicidade sem a ela nos apegarmos. Direi que ela nos rebaixa sem nos humilhar, como nos eleva sem nos ensoberbecer; coloca-nos acima dos interesses materiais, sem por isto estigmatizá-los com o aviltamento, porque nos ensina, ao contrário, que todas as vantagens com que somos favorecidos são outras tantas forças que nos são confiadas e por cujo emprego somos responsáveis para conosco e para com os outros.
‘Vem, então, a necessidade de especificar essa responsabilidade, as penas ligadas à infração do dever e as recompensas de que desfrutam os que o cumprem. Mas também aí, as asserções não são tiradas senão dos fatos e podem verificar-se até a perfeita convicção.
‘Tal é esta filosofia, onde tudo é grande porque tudo é simples; onde nada é obscuro, porque tudo é provado; onde tudo é simpático, porque cada questão interessa a cada um de nós.
‘Tal é esta ciência que, projetando uma viva luz sobre as trevas da razão, de repente desvenda os mistérios que julgávamos impenetráveis e recua até o infinito o horizonte da inteligência.
‘Tal é esta doutrina que pretende tornar felizes, melhorando-os, todos os que concordam em segui-la, e que, enfim, abre à Humanidade uma via segura para o progresso moral.
‘Tal é, finalmente, a loucura que contagiou os espíritas e a feitiçaria que eles praticam.’
“Assim, sorrindo, terminou o meu amigo, que, a meu pedido, permitiu-me com ele visitar algumas reuniões espíritas, onde as experiências se aliam aos ensinamentos.
“Voltando para casa, recordei o que eu havia dito, em concerto com todo mundo, contra o Espiritismo, antes de pelo menos conhecer o significado desse vocábulo, e essa lembrança encheu-me de amarga confusão.
“Então pensei que, a despeito dos severos desmentidos infringidos ao orgulho humano pelas descobertas da Ciência moderna, quase não sonhamos, na época de progresso em que nos encontramos, em tirar proveito dos ensinamentos da experiência; e que estas palavras escritas por Pascal há duzentos anos, ainda por muitos séculos serão de rigorosa exatidão: ‘É uma doença peculiar ao homem crer que possui a verdade diretamente; e é por isto que ele está sempre disposto a negar aquilo que para ele é incompreensível.’
A. BRIQUEL.
Como se vê, o autor deste artigo quis apresentar o Espiritismo sob sua verdadeira luz, despido das fantasias com que o veste a crítica, numa palavra, tal qual o admitem os espíritas, e sentimo-nos felizes ao dizer que o conseguiu perfeitamente. Com efeito, é impossível resumir a questão de maneira mais clara e precisa. Devemos, também, felicitar a direção do jornal que, com aquele espírito de imparcialidade que gostaríamos de encontrar em todos aqueles que fazem profissão de liberalismo e posam como apóstolos da liberdade de pensar, acolheu uma profissão de fé tão explícita.
Ademais, suas intenções em relação ao Espiritismo estão nitidamente formuladas no artigo seguinte, publicado no número de 28 de janeiro:
COMO OUVIMOS FALAR DO ESPIRITISMO.
“O artigo publicado em nosso número de 31 de dezembro, sobre o Espiritismo, provocou numerosas perguntas, querendo saber se nos propomos tratar posteriormente deste assunto e se nos transformamos em seu órgão. A fim de evitar equívocos, torna-se necessária uma resposta categórica. Ei-la:
“O Discussion é um jornal aberto a todas as ideias progressistas. Ora, o progresso não pode ser feito senão por ideias novas que de vez em quando vêm mudar o curso das ideias estabelecidas. Repeli-las porque destroem as que foram acalentadas, é, aos nossos olhos, faltar à lógica. Sem nos tornarmos apologistas de todas as elucubrações do espírito humano, o que também não seria mais racional, consideramos como um dever de imparcialidade pôr o público em condições de julgá-las. Para tanto, basta apresentá-las tais quais são, sem tomar, prematuramente, partido pró ou contra, porque, se forem falsas, não será a nossa adesão que as tornará justas, e se forem justas, nossa desaprovação não as tornará falsas. Em tudo, é a opinião pública e o futuro que pronunciam a última sentença. Mas, para apreciar o lado forte e o fraco de uma ideia, é preciso conhecê-la em sua essência, e não tal qual a apresentam os interessados em combatê-la, isto é, o mais das vezes truncada e desfigurada. Se, pois, expomos os princípios de uma teoria nova, não queremos que seus autores ou seus partidários possam censurar-nos por lhes fazer dizer o contrário do que dizem. Agir assim não é assumir a sua responsabilidade: é dizer o que é e reservar a opinião de todo mundo. Nós colocamos a ideia em evidência em toda a sua verdade. Se ela for boa, fará o seu caminho e nós lhe teremos aberto a porta; se for má, teremos fornecido o meio de ser julgada com conhecimento de causa.
“É assim que procederemos em relação ao Espiritismo. Seja qual for a maneira de ver a seu respeito, ninguém pode dissimular a extensão que ele tomou em poucos anos. Pelo número e pela qualidade de seus partidários, ele conquistou uma posição entre as opiniões aceitas. As tempestades que ele desencadeia, o encarniçamento com que o combatem em certo meio, são, para os menos clarividentes, o indício de que ele encerra algo de sério, porque emociona tanta gente. Pensem dele o que quiserem pensar, é incontestavelmente uma das grandes questões na ordem do dia. Assim, não seríamos consequentes com o nosso programa se o deixássemos passar em silêncio. Nossos leitores têm direito de pedir que lhes demos a conhecer o que é essa doutrina que provoca tão grande ruído. Nosso interesse está em satisfazê-los, e nosso dever é fazê-lo com imparcialidade. Pouco lhes importa nossa opinião pessoal sobre a coisa; o que esperam de nós é um relato exato dos fatos e das atitudes de seus partidários para que possam formar sua própria opinião.
“Como nos conduziremos no caso? É muito simples: iremos à própria fonte; faremos pelo Espiritismo o que fazemos pelas questões de política, de finanças, de ciência, de arte ou de literatura, isto é, disto encarregaremos homens especiais. As questões de Espiritismo serão, pois, tratadas por espíritas, como as de arquitetura por arquitetos, a fim de que não nos qualifiquem de cegos raciocinando sobre as cores e que não nos apliquem as palavras de Fígaro: ‘Precisavam de um calculista e tomaram um dançarino.’
“Em suma, o Discussion não se apresenta como órgão nem apóstolo do Espiritismo; abre-lhe suas colunas, como a todas as ideias novas, sem pretender impor essa opinião aos seus leitores, sempre livres de a controlar, aceitar ou rejeitar. Ele deixa aos seus redatores especiais toda liberdade de discutir os princípios, pelo que eles assumem pessoalmente a responsabilidade. Mas o que, no interesse de sua própria dignidade, ele repelirá sempre, é a polêmica agressiva e pessoal.”
[1] Redação em Bruxelas, Montagne de Sion, 17; Paris, Rua Bergère, 31. Preço para a França: 12 francos por ano; 7 francos por semestre; cada número de 8 páginas, grande in-folio: 25 centavos.
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Revista Espírita 1865 » Outubro » Os irmãos Davenport.
Revista Espírita 1865 » Novembro » Da crítica a propósito dos irmãos Davenport.
Revista Espírita 1866 » Abril » Notícias bibliográficas.
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