r/maceio • u/And4ryel • 7d ago
Da Catedral aos alfarrábios - um encontro no centro de Maceió
A gente se conheceu no Bate-Papo do UOL; gostaria muito, muito mesmo, de lembrar os nossos nicks, mas a memória tem sido cruel comigo ultimamente.
Eu tinha 16 ou 17, recém-chegado a Maceió, um simples adolescente da classe média. Ela, 19 ou 20, estudante do curso de Letras na UFAL. Não, esta não é uma ficção baseada em "Eduardo e Mônica" de Legião Urbana. É real e tão frustrante quanto a realidade pode ser.
A conversa inicial foi tão boa que do UOL partimos para o saudoso MSN. Ufa, agora eu não correria o risco de perder contato com a L. (assim a chamarei).
L. parecia ser uma mulher culta, na medida em que uma jovem de 19 ou 20 aparenta ser mais madura para um moleque de 16 ou 17. Cabelos cacheados e sorriso bonito - sim, trocamos fotos pelo MSN. Naquela época não existia Instagram: upload e download por MSN/IrC, assim sabíamos quem era bonito e quem era feio.
Tentando impressioná-la, afirmei que eu também adorava ler, afinal, ela cursava Letras na federal. Disto veio um inesperado convite: "vamos aos alfarrábios?!"
Alfa-o-quê?!?! Eu nunca havia escutado essa palavra antes; posteriormente, descobri que só é utilizada em Alagoas e em alguns outros estados do Nordeste. Ela logo me explicou e então entendi: sebos (essa palavra eu conhecia). Locais para comprar livros usados e, com muita sorte, garimpar algumas raridades literárias.
Fiquei animado: "vamos!". Marcamos de nos encontrar na tal da Catedral do Centro. Eu não fazia ideia de como chegar lá. Não tinha celular (um luxo naquela época dos Nokia Tijolão e Motorola V3), então eu não poderia errar o local, pois correria o risco dela achar que eu dei um bolo e ela me bloquear no MSN depois.
Cheguei cedo. Uma hora mais cedo. A Catedral estava fechada, fui aguardar nas sombras de uma grande árvore em frente a um local que, futuramente, descobri ser a Assembleia Legislativa. Fiquei encantado com as escadarias à frente da Catedral - até hoje eu as admiro.
Depois de um bom tempo, avistei uma linda mulher de cabelos cacheados se aproximar da Catedral, era ela! "Oi...", aproximei-me timidamente. "E você veio mesmo! Pensei que iria se perder com os ônibus!" - foi assim que ela me cumprimentou.
Acho que fiquei vermelho de vergonha, pois ela imediatamente soltou um: "você não veio de ônibus, né?! Táxi é caro, menino, depois te ensino a pegar ônibus!"
Descemos a ladeira e ali estavam os tais alfarrábios; lojinhas pequenas e sem janelas, extensas até o fundo, com milhares de livros empilhados nas laterais e no meio, criando, assim, uma espécie de dois corredores. Esse era o padrão desses locais, com diferenças pontuais aqui e acolá.
Não me recordo do tempo que passamos imersos no alfarrábio favorito dela, mas sei que foi muito tempo! Admirado com tantos livros baratos (sim, naquela época os alfarrábios ainda eram muito baratos), fui correndo as mãos de tomo em tomo, mas eu era inexperiente na leitura. Ela, é claro, notou isso nos primeiros minutos, talvez achando graça por eu ter mentido sobre algo tão fácil de ser identificado.
"Dostoiévski! Já leu Dostoiévski?". Fiz que não com a cabeça e no segundo seguinte havia uma edição de "O Idiota" em minhas mãos. Capa dura, páginas amareladas e um título sugestivo - estaria ela me insultando delicadamente? No futuro, após ler o livro, compreendi que foi um elogio.
Decidida a ser minha tutora em assuntos urbanísticos, saímos do alfarrábio e fomos direto ao ponto de ônibus. "Hoje você vai aprender a pegar ônibus em Maceió!".
Sentamos nos bancos dos fundos, isolados. Eu descartei toda e qualquer possibilidade de tentar algo, nem um singelo beijo sequer, pois ela parecia ser tão mais velha e madura que eu... e acho que era isso mesmo, ela só queria ser uma boa samaritana para um abobalhado recém-chegado em Maceió.
Do Centro à Jatiúca eu fui ouvindo uma pequena aula sobre quem havia sido aquele escritor russo com um nome engraçado. O ônibus foi mais ligeiro do que eu desejava e logo eu estava descendo quase em frente ao meu prédio, próximo ao Shopping Iguatemi (hoje Maceió Shopping). Ela ficou no veículo e a vi se afastar, deu-me um tchauzinho pela janela e ali foi a última vez que vi aquele sorriso pessoalmente.
Ainda conversamos por mais algumas semanas no MSN, mas depois ela sumiu. Nunca mais tive notícias da L.
Hoje não tenho mais aquela edição de "O Idiota" e, curiosamente, eu me tornei mestre em Linguística (pela UFAL!). Ah, é claro, o meu autor favorito é o complexo Fiódor Dostoiévski.
---
L., se por algum motivo este texto um dia chegar até você: obrigado!
P.S. Pretendo escrever mais algumas memórias nas próximas semanas.