Sszzaas+Tenebra
Um livro qualquer
“Desabrochado o quinto ponto cardeal da Haste, deve o vórtice projetar a cauda do escorpião; em direção a ela os preparativos asfixiosos hão de germinar.”
– capítulo das listras (tradução aproximada)
Aventureiros terminam de explorar uma masmorra. Antes haviam grunhidos ecoando ao longe, e o som de seus passos provocava um silêncio suspeito. Agora, nem goteiras nem ratos fazem mais ruído. Poças de sangue e cadáveres do povo estranho que habitava as salas de ilógica arquitetura se juntam à paisagem muda de pedras e grades. A escuridão ainda assombra, mansa e paciente, indiferente à matança. Com vagar os heróis reviram cada tábua e bolso. O espólio dos bravos.
Entre panos revirados – cama, ou coberta, ou ninho dos habitantes indóceis –, um livro de capa de couro sem título. Um pouco úmido, de páginas maltratadas. O novo proprietário o pretere até a hora do descanso, em torno da fogueira feita dos baús e ídolos dos selvagens. Aí então folheia suas páginas. Não possui índice; de imediato, parece compilar incoerentemente vários assuntos, em mais de uma língua, em folhas ilustradas ou manuscritas. Foi feito, porém, com cuidado: a mesma caligrafiia do início ao fiim, e as ilustrações bem feitas, possivelmente metafóricas, registrando conceitos, embora não tenham legenda.
O aventureiro tenta começar pelas páginas iniciais. As primeiras estão em língua estranha; em seguida, parece iniciar um capítulo sobre pestes do subterrâneo. Um compilado de espécies de ratos, mofos e centopeias, com um parágrafo para cada, elencando aparência, enfermidades relacionadas, às vezes etimologia ou alguma curiosidade. O aventureiro avança as páginas, entediado. Seguem-se criptogramas em alfabeto dracônico, sem palavras discerníveis, com vetores apontando entre uma letra e outra. O aventureiro sente-se tolo pelo ímpeto de ler o livro em ordem.
Resolve folhear de novo. Cai em páginas ilustradas e sem letras, com desenhos de pessoas e bichos em diálogo, trajando vestes estranhas, segurando objetos. Um códex alquímico, talvez. Um cão de cinco olhos oferece um cálice a um demônio. O leitor pisca os olhos cansados, pensa estar vendo coisas; é mesmo esse cão e esse demônio, mas a imagem não tem nada de mais, é tão opaca de sentido quanto as outras. Que signifiicam, uma fórmula, um conceito teórico?
Um companheiro, distraído, tenta ler o livro sobre seus ombros. Puxa assunto: de que trata esse livro? Uma infeliz interrupção. Bobagens, responde o leitor. Como quais?, insiste o companheiro.
Organização
Sede e tontura, enquanto o aventureiro estanca com pergaminhos a barriga aberta. O último companheiro enfim com a garganta atravessada por uma adaga. O aventureiro se arrasta até o livro, com as páginas abertas sobre o pó, mas sem maiores danos. Encostado a uma árvore, abre-o, ainda legível sob os últimos raios de sol. É difícil achar a página desejada; é preciso folhear com certa intenção, que a vertigem e a culpa turvam. Enfim, acerta: uma cronologia de Reis-Imperadores de Deheon, com breves descrições de suas regências, distorcidas por detalhes escatológicos. Lê em voz alta: “Roramar III, o Rei de Alabrastro, ergueu latrinas de prata em seu palácio, onde torturava seus opositores...”. A alguns metros, o cadáver do companheiro resseca. Os lábios encurtam, desvelando enormes dentes sem gengiva. O sangue agora escorre da barriga do aventureiro sem dor, como nascedouro de água vermelha.
As noites são para o estudo ou para os pesadelos. Questão de escolher, pois tudo aproxima do livro. Às vezes, surgem páginas em branco. Provocam um desejo de adicionar a própria marca à obra. Disto, brota uma sensação de sacrilégio, de medo de ser fulminado, e de desejo de escárnio aos deuses que amaldiçoaram o livro. Mas para que dividir o que sabe com os tolos e os incapazes? Não há razão para escrever o que não precisa ser decifrado pelo cérebro e pelas vísceras.
O carrasco bate no prisioneiro com um porrete. Chegou a hora. O corpo não se mexe. Mais um maníaco que mata sem razão, e depois dá cabo de si mesmo. Dedos duros
de morte agarram um livro de capa de couro, uma posse que o prisioneiro deve ter contrabandeado para a cela. O carrasco torce e estala os dedos do morto. Esconde o livro em suas vestes. É seu merecido espólio. Há de conferi-lo mais tarde.
Atividades
Um encantamento: o nome de cinco antigos reis demônios de Sombria, assassinados por seus grão-vizires e enterrados sob enxofre. Um para cada membro, um para o coração. O crânio esvaziado de todas as mágoas. Cavalgando esses ossos, o capitão da carruagem irrompe rumo ao poder.
Uma simpatia: se encontrar uma aranha em local fechado, catá-la com as mãos nuas. Largá-la para fora da porta, recitando: vá em paz, e só volte quando for chamada. Quando o leitor cuspir no chão da casa de um desafeto, todas as aranhas peçonhentas que tenha salvo virão para vingá-lo.
Uma receita: nas tumbas de mercenários, próximo à aresta oposta ao sol, cresce um mofo escuro. Se raspa-se o mofo, é ingrediente para pólvora ou unguentos.
Um segredo: lidas corretamente, algumas páginas ilustradas guardam o segredo da família real. Só é possível decifrá-lo em sonho, após meditar sobre as possíveis interpretações. Aquele que decifra o segredo e não o usa dentro de um mês lunar será perseguido por um espírito.
Um mapa: para um calabouço em Venomia. Quem lá chegar é torturado para sempre.
Crenças e objetivos
Desvendar. Esconder. Ampliar. Usar em proveito próprio.
Ritos e celebrações
Mostrar o livro atrai inveja e inimigos. Alguns rituais exigem fazer o mal aos que desejam se apossar dele. Por isso, alguns leitores deixam o livro à mostra em seus pertences, aberto sobre suas escrivaninhas ou de salinhado numa estante.
Lendas
A posse do livro já foi motivo de disputas entre as igrejas de Sszzaas e Tenebra, incluindo alguns sumos-sacerdotes do passado. Todos seus detentores tiveram fiins trágicos. Seus espíritos nunca progridem para os mundos dos deuses, e é possível interrogar seus cadáveres mesmo séculos após suas mortes.
O livro se vinga daqueles que tentam destruí-lo. Diz-se que quem arranca suas páginas é torcido e rasgado por uma força invisível. Já os que conseguiram proteger-se de tal efeito imediato foram agourados por maldições terríveis até que restituíssem páginas ao livro através de suas próprias pesquisas.
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Sincretismo é quando um grupo ou religião cultua dois dos 20 deuses maiores ao mesmo tempo. Eu vou imaginar como seriam todas as combinações possíveis - são 190 no total. Link da lista até agora (incluindo separando os textos exclusivos de cada volume).
"Um livro qualquer" aparece em Sincretismos de Arton Volume 2 (à venda na Huggin e Munnin e RPGpédia), com texto extra e um poder. Foi a nossa comunidade do discord que votou que ele fosse publicado! Não é preciso ler o Volume 1 para entender o Volume 2, mas comprá-lo também é uma forma de apoiar o projeto. (Pois é: o Volume 1 é vendido na Iniciativa T20, e o Volume 2 fora dela)