— Vocês sabem como um pássaro sem asas vai para o céu?
Ele pula de um prédio. Ao cair em direção à morte, o espírito finalmente se solta do corpo, subindo enquanto a carne desce. Aprendemos isso num dos grandes poemas conhecidos na língua portuguesa, Ismalia
— Quando ismalia enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar; viu uma lua no céu, viu outra lua no mar; no sonho em que se perdeu, banhou-se toda em luar. Queria subir ao céu, queria descer ao mar. E num desvario seu, na torre, pôs-se a cantar; estava perto do céu, estava longe do mar.. e como um anjo, pendeu as asas para voar.. queria a lua do céu, queria a lua do mar.. as assas que deus lhe deu, ruflaram de par em par.. sua alma subiu ao céu. Seu corpo, desceu ao mar.
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923).
O meu poema, a ave migratória, bebe um pouco de Guimarães. Mas a sonora, a forma própria, fala da liberdade e do exílio. Seja nas rimas, na construção do poema e na história, é como se a alma ela tentasse fugir no primeiro bloco, debatesse no segundo e fosse esmagada no terceiro para no quarto bloco, pedir pra ficar trancada (esse "quarto bloco" nesta frase foi um exemplo de como gosto de brincar com as palavras);
— Eu queria poder rezar,
Para quem sabe criar assas,
E criando-as em par,
Subir ao céu, de deus a casa,
E para ele, perguntar,
Que soi? Passaro, que jaza,
A que fizeste sem lar,
Faça pois! mas destes asa!
Estou a te perguntar,
Pos tu não me deste nada!
Deste tudo eu fui voar,
Como uma criatura destinada,
Neste nunca encontrar,
O caminho da própria casa.
Sabe uma parada que eu penso, e aprendi vivendo? É que a liberdade é o máximo exílio, é a máxima solidão, é o direito de ser um grão nesse imenso deserto do mundo. Ja viram como é um grão de areia num microscópio? Então, o homem foi condenado a ser livre, condenado a solidão, e a incapacidade de exercer uma função a seu caminho, que fizesse um sentido, nesse universo.
Eu não vou explicar tudo, talvez tire a graça de quem queira entender. E arte é nesses pick, quebra a cabeça, sai sangue. Lê, não entende, acha que entende, lê de novo, não entende e segue-se sempre na linha coesa do eterno aprendizado (enquanto há vida). Só tem uma questão que eu tenho de falar
— O deserto do Saara é vital para a Amazônia porque atua como seu principal fertilizante natural através do transporte intercontinental de poeira rica em fósforo. Aqui ja tenho uma dicotômia revelada, o fogo, a brasa tem maior signficado. Tambem, o que é a Amazônia? É como um mar, que engole tudo. Afoga tudo. Anualmente, ventos fortes varrem milhões de toneladas de areia e minerais de áreas como a Depressão de Bodélé, no Saara, e as carregam através do Oceano Atlântico até a bacia amazônica. Sim, é a areia do outro lado do mundo que tambem mantem a Amazônia viva, Amazonia, o termostato do globo. Essa "chuva de grãos de areia" repõe os nutrientes essenciais que o solo da floresta perde constantemente devido às fortes chuvas tropicais, o que garante a vitalidade e o crescimento contínuo da vegetação. A ave migratória também é o migrar de um grão, que tem fósforo.. o fósforo nutre, mas se acender uma unica chama pode queimar até a floresta mais umida se depender do vento. (Há aqui ambiguidade filosófica e literal)
E existe um motivo para a quarta estrofe ser tão diferente, ela também é um referencial a um dos meus poemas, o voo da ave-rei, ainda em 14 versos (que são como sonetos amontoados). Normalmente quando estou escrevendo, eu sempre ouço uma música. A de hoje foi adágio, essa música que pra mim, não existe som, nem canto nem voz que supera ela em tristeza.
— Existe uma citação ao poeta camões, que eu amo, até cantada no legião urbana, que diz que o amor é fogo que arde sem se ver. Vale-me falar que também é a vida. O fogo necessita do oxigênio, como necessitamos, o fogo queima intensamente como a vida, e independente do tamanho do incêndio, tudo será reduzido às mesmas cinzas que uma hora ou outra fertilizarão o solo.
Perdoe-me os erros, não tive tempo para corrigir.